O Embaixador José Oswaldo de Meira Penns é um grande conhecedor da China, onde esteve pela primeira vez ainda antes da Segunda Guerra Mundial.
Abaixo, conferencia que ele fez na Confederação Nacional do Comércio em 2005.
TRÊS VISITAS A XANGHAI
Carta Mensal nº 599 – Volume 50
Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio
Fevereiro de 2005
Em meus 42 anos de carreira diplomática e mais 30 de aposentadoria, tive três vezes a oportunidade, em ocasiões bem diversas, de visitar Xanghai, hoje a maior cidade da China e, possivelmente, a maior do mundo. Quero oferecer alguns comentários do que guarda minha memória sobre essa metrópole formidável pelo interesse e por sua curta, porém movimentada história – pois nela servi em duas ocasiões diferentes e por duas outras vezes visitei-a. E antes de mais nada, agora que nosso país se clara disposto a criar com a China laços estreitos e comércio, convém salientar que foi Xanghai, desde sua criação há pouco mais de século e meio, o principal empório do gigantesco país em seu relacionamento com o exterior;
Better fifty years of Europe than a cycle of Cathay – “mais valem cinqüenta anos de Europa do que um ciclo da China” é o que, em versos famosos, proclamara Alfred Lord Tennyson, poeta consagrado de Sua Graciosa Majestade, a Rainha Victoria. Isto, em meados do século dezenove, o que prova que a opinião e julgamento do Ocidente sobre a China têm variado com as estações. O comércio sempre inicialmente conduziu o interesse dos europeus pela longínqua Cathay. Na Antigüidade clássica, os romanos recolheram notícias de um vasto e poderoso Império, uma espécie de misteriosa utopia que existia ao Oriente, nos limites do mundo, e chamavam-na de Seres. De lá procedia a seda que luxuosamente importavam. Há indícios de que, ao tempo de Trajano ou outro dos Antoninos no apogeu, vanguardas de uma legião romana tenham entrado em contacto com pelotões de tropas chinesas na longínqua Bactriana, hoje compreendendo áreas do Turquestão, Tadjiquistão e Afeganistão. Era então a China governada pela poderosa dinastia Han, a mais autenticamente chinesa e duradoura das muitas que dominaram o Império Central. Até hoje, os próprios chins se intitulam Han, “o povo de Han”, para se distinguirem dos manchus, mongóis, tibetanos, turcos e aborígenes que compõem o atual “País Central”, Djung Guó (1). Os primeiros contatos assim supostamente estabelecidos entre o Império do Ocidente e o Império do Oriente foram, no entanto, interrompidos pelas incursões de tribos nômades da Mongólia e Sibéria de origem turcomana, provavelmente aparentados aos Hunos que os chineses denominavam Hsiung Nu. Os Han haviam repelido invasões desses bárbaros. Com esse propósito, terminaram a construção da Grande Muralha que o Primeiro Imperador Ch’in (ou Kin) Xi Huangdi havia iniciado. Escarmentados, os Hunos voltaram-se para o Ocidente e invadiram o Império romano no quarto e quinto séculos. Sob o comando de Átila, tornaram-se o terrível Flagelo de Deus ao destruírem o império dos Godos e invadirem a própria Itália. Como consequência, durante mil anos foram cortadas todas as comunicações entre Leste e Oeste.
A Rota da Seda continuou ocasionalmente aberta durante a Idade Média e, através dela, as formas da escultura grega teriam migrado e influenciado as representações do Buda no período em que o Budismo se estendia e conquistava a Ásia oriental, China, Coréia, Japão, Vietnam, Tailândia, Birmânia e, originariamente, o que é hoje a Indonésia. As invasões de hunos, turcos, tártaros, mongóis e inúmeras outras tribos siberianas de nômades guerreiros que, eternamente, se movimentavam nas imensas estepes, planuras e planaltos da Ásia Central, impediram qualquer outro relacionamento entre as duas civilizações. O vácuo foi preenchido pelo Islam que, sob diversas identidades étnicas, dominou o eixo geopolítico mundial do Oriente Médio. As invasões mongóis tudo varreram. Dois netos de Genghiz-khan, Kubilai e Hulägu, foram respectivamente Imperadores da China e da Pérsia - construindo impérios estáveis. Bagdad, então a grande metrópole maometana, foi destruída e com ela o Califado e, nessas condições, o angustiado Sumo Pontífice em Roma alimentou a idéia de concluir uma aliança com os mongóis, para atacar os odiados cultores de Mafoma pelas costas. A seu comando, entre 1245 e 1247, o frade franciscano João de Piano-Carpini viajou pela Ásia Central como legado papal e esteve presente ao grande Kurultai, ou concílio das tribos mongóis em Karakorum, na Mongólia - reunião que proclamou Kuyuk, outro neto de Genghiz Khan, novo Grande Khan e Senhor do Mundo. A expedição do monge italiano foi uma das mais impressionantes e momentosas expedições diplomáticas que registra a história. Atrás dele, outros europeus alcançaram a Ásia oriental, sendo dois particularmente importantes, o comerciante veneziano Marco Polo, o primeiro a alcançar Beidjing (Cambaluc ou Khanbalig), e o jesuíta basco São Francisco Xavier, o maior de todos os missionários em terras exóticas e o primeiro a conhecer e estabelecer um relacionamento permanente com o Japão no século XVI. Daí por diante, foram as relações entre os dois pólos da cultura universal progressivamente se ampliando e reforçando. A presença constante de padres jesuítas na corte de Beidjing teve um efeito superficial do ponto de vista político, servindo, porém, para aprofundar o conhecimento que, da Ásia oriental, obtinha a Europa. Numa célebre disputa, franciscanos e dominicanos conseguiram persuadir a Santa Sé que errada e sacrílega era a tese dos jesuítas segundo a qual o culto dos mortos, em vigor em toda a Ásia Oriental, não possuía um caráter religioso, mas constituía apenas uma prática de moralidade familiar tradicional. Há sinólogos que consideram tenha a decisão do Papa prejudicado irremediavelmente o que se apresentava como uma perspectiva alvissareira de conversão do povo de Han ao Cristianismo.
A reputação do Império Central como poderoso, rico e admiravelmente civilizado atingiu seu apogeu no século XVIII quando os philosophes, notadamente Voltaire, passaram a louvar e enaltecer a China como paradigma de cultura, sabedoria e poder. Foi a época em que a moda das chinoiseries invadiu a França e a Inglaterra. Como resultado desse crescente interesse europeu pela Ásia Oriental, a Inglaterra, então em guerra com a França, enviou à corte de Beidjing a monumental embaixada de Lord Macartney. Carregando consigo uma esquadra e dois mil homens de equipagem, o embaixador britânico demorou dois anos para conseguir, em 1792, ser recebido pelo velho imperador Ch'ien Lung (ou Kien Long), o último dos grande monarcas da dinastia manchú. A missão terminou em fracasso. O motivo principal do insucesso dos “Diabos Narigudos do Ocidente” foi curioso. Enviado por uma potência que já se considerava senhora absoluta dos mares, na ponta de lança da revolução industrial e dona das Índias e grande parte da América do Norte, Lord Macartney considerou absolutamente inaceitável a exigência dos mandarins chineses de que cumprisse a cerimônia do kowtow. O coutou, ou “nove prosternações” diante do Filho do Céu, era cerimoniosa e imperativamente praticado pelos reis tributários ao serem por ele recebidos em audiência geral no “Centro do Mundo”. Desprezando relógios, telescópios, bússolas, canhões e outros bugigangas que do enviado britânico recebera, o Monarca Celeste enviou ao Rei George III uma mensagem presunçosa e extremamente irrealista, denunciando a arrogante auto-satisfação do velho Império que sempre se considerou o Centro do Mundo. Vale reproduzir seus termos:
Vós, ó Rei, que viveis além de muitos mares, inspirado entretanto por vosso humilde desejo de participar dos benefícios de nossa civilização, enviastes uma missão trazendo respeitosamente Vossa Nota... Governando o mundo inteiro, só tenho um objetivo em vista: manter um perfeito governo e cumprir o dever do Estado; os objetos estrangeiros e custosos não me interessam. Se ordenei que os tributos por Vós oferecido, ó Rei, sejam aceitos, foi comente em consideração ao espírito que Vos inspirou a nô-los enviar de tão longe. Nossa virtude dinástica penetrou em todos os países sob o Céu. Os reis de todas as nações me enviam custosos tributos por terra e por mar. Como Vosso Embaixador pode por si mesmo constatar, possuímos todas as coisas. Não concedo valor algum às coisas estranhas ou engenhosas e nada tenho a fazer com os produtos manufaturados de vosso país. Tal é minha resposta a Vosso pedido de nomear um Embaixador junto à minha Corte, requerimento contrário a nossos costumes dinásticos e de que só Vos resultariam inconvenientes”.
O extraordinário episódio configura um momento crucial no secular relacionamento entre o “País Central” e o Ocidente. A embaixada Macartney serviu de tema a Alain Peyrefitte para uma obra monumental intitulada L’Empire Immobile (2), em que, em quatro volumes, analisa as peripécias da embaixada Macartney. A obra cobre as reações dos chineses, dos ingleses e dos jesuítas que, na época, ainda habitavam Beidjing como hóspedes e astrônomos da corte imperial. Notável político e escritor francês, dez vezes Ministro de Estado, membro da Academia e do Institut de France, Peyrefitte compara filosoficamente a atitude negativa, arrogante e contraproducente de Ch’ien Lung diante do desafio ocidental, com a que tomaram os japoneses, meio século mais tarde, no confronto irresistível com a realidade moderna. Ao considerarem o aparecimento do esquadrão do Commodore Peary na baía de Tóquio com a proposta de que o Império nipônico se abrisse, o Xôgun mandou inicialmente examinar o poder dos canhões da esquadra americana. Constatou a realidade e se deu conta de seus efeitos e seus perigos. Em seguida, recebeu os representantes estrangeiros com todas as mesuras. Mais sábios do que os chineses, os nipões perceberam, imediatamente, as ameaças e vantagens que um relacionamento com o Ocidente comportava e trataram de se adaptar, absorvendo a tecnologia da Europa e América. Isso deu início à Era Meiji, a grande transformação do Japão. Na verdade, com exceção da crise paranóica dos anos 30 e 40, os japoneses foram os primeiros naquelas bandas que se revelaram dispostos a enfrentar as promessas da modernidade, preparando-se adequadamente para a globalização e se transformando no primeiro dos chamados “Tigres Asiáticos”.
Enquanto isso, a negativa chinesa em proceder do mesmo modo ia custar ao Império Central cento e cinqüenta anos de violências, invasões, guerras, aflições e perplexidades inimagináveis, até hoje aliás motivo de ásperos debates. Foi uma resistência comprovadamente inútil ao fenômeno da inevitável extensão planetária da civilização ocidental, procedente da área do Atlântico Norte. Há muitos tolos que se comportam do mesmo modo como os chineses dos séculos XVIII e XIX. Os mais inteligentes imitam os japoneses. Os efeitos desastrosos de não aceder às propostas transmitidas por Lord Macartney não se fizeram esperar. Vinte e cinco anos depois da embaixada, os ingleses adquiriram Hong Kong pela força das armas e, em 1842, Xanghai foi fundada, juntamente com a abertura de quatro outros portos na costa chinesa ao comércio britânico. Eventualmente, com a colaboração da França que obteve sua própria “Concessão” em Xanghai, as principais grandes potências européias conquistaram uma situação privilegiada, pois essas cidades se converteram numa espécie de território internacional que, desprezando totalmente a soberania do Estado chinês, introduziram no país as sementes da grande transformação, conduzindo ao processo global de modernização. As imunidades e privilégios gozados pelos “Narigudos Diabos do Ocidente” perduraram até a IIª Guerra Mundial. Foram abusivas mas os garantia contra crises periódicas de xenofobia homicida, a mais grave das quais ocorreu durante a chamada Revolta dos Boxers em 1900.
Entretanto, as notícias sobre a decadência do Império Central já haviam tão ruidosamente alcançado a Europa que se podia falar no “sono” da Velha China. No século XIX, Tennyson não foi o único a menosprezar o poder e vitalidade da nação mais numerosa e uma das mais antigas do planeta. Nos anos vinte, o historiador alemão Oswald Spengler considerou os chineses “um povo de felás”, igual aos egípcios, fadados a sofrer a história, jamais a influenciá-la... Napoleão revelou-se muito melhor analista e profeta mais perspicaz. Comentando as frustrações do embaixador Macartney, sobre as quais havia lido, ele preveniu os céticos: “Quand la Chine s'éveillera... le monde tremblera”... Em 1817, no exílio de Santa Helena, o prisioneiro imperial foi cortesmente visitado por Lord Amherst, o segundo embaixador que a Inglaterra mandara à China, com resultados ainda mais frustrantes do que os do primeiro. “Tremerá o mundo quando a China se acordar” é o título de um livro de crônicas do próprio Alain Peyrefitte, publicado em 1972 após sua primeira visita à China como enviado da França. Em 1996, o escritor francês voltou à carga com outra crônica sobre a era Deng Xiaoping e seu programa de “Uma Nação, Dois Sistemas”, e anunciou com convicção: “La Chine s'est éveillée”...
O sucesso da Singapura, Taiwan, Malásia e Hong Kong testemunham da capacidade do chinês de se adaptar à modernidade industrial - tal como ocorre com os japoneses e os coreanos. Na verdade, os indicadores de desenvolvimento publicados pelo Banco Mundial em 2003, já tornam a China a segunda potência econômica mundial. Ela teria ultrapassado o próprio Japão. Calculado na base da metodologia do PPP (purchasing power parity, a paridade do poder de compra da moeda), o PIB chinês alcança cinco trilhões de dólares, cerca da metade do americano. Não há dúvida, a China acordou! O futuro provará quando as Cinco Modernizações de Deng Xiaoping começarem a render dividendos com a liberalização progressiva do regime...
Foi num momento crucial desse processo de “despertar” da China, que tive a oportunidade de melhor a conhecer. Por duas vezes lá servi e é sobre a primeira visita que vou agora discorrer.
Xanghai (3) era uma aldeia que já principiava a se tornar o principal porto da China setentrional quando, em meados do século XIX, se transformou numa entidade internacional com privilégios de extra-territorialidade para os estrangeiros das chamadas “potências capitulares”., Hoje, ela é uma das maiores metrópoles do mundo. O que se segue procura demonstra a importância do tema, pois a cidade merece...Cobre este capítulo as peripécias que marcaram o segundo posto em que eu ia servir – peripécias pessoais e coletivas que os acontecimentos bélicos impunham. Eu viveria na China duas vezes, a primeira, de abril de 1941 a junho 42; a segunda vez, de 1947 a 49, no episódio final da guerra civil que levou Mao Dzedong ao poder.
Como tal, tornar-me-ia o único diplomata brasileiro – e provavelmente o último sobrevivente dos Old China Hands. O que quer dizer, devo ser o último entre meus compatriotas que conheceram o velho Império Central ao tempo da Primeira República, a de Sun Yatsen, da ocupação japonesa e do governo de Chiang Kaichek - antes portanto do regime maoísta. E quando, em 1992, retornei à China em passeio turístico, fui considerado com pasmo pelos diversos guias oficiais que nos acompanharam. Era uma espécie de assombração, algo como chamam os franceses um revenant, um fantasma da pré-história, um espectro que retorna ao mundo dos vivos. Saltando por cima do Maoísmo, da velha China do Kuomintang e das “Concessões internacionais”, desembarquei na China novíssima que "se acorda" e moderniza sob a autoridade dos Presidentes Jiang Zemin e Hu, segundo e terceiro sucessores do venerável mandarim Deng Xiaoping...
Deixou-me a China uma impressão profunda. Durante todo um largo período da vida senti raízes que me atavam àquele país por laços existenciais de significado especial. Além dos três anos e meio que lá vivi, com duas viagens posteriores, muitos outros foram dominados pela lembrança de experiências traumáticas por que passei. No princípio da carreira acariciara veleidades de me considerar um expert em coisas chinesas, um sinólogo, imaginem! E, efetivamente, tão limitado é o grau de especialização dos funcionários de nosso serviço diplomático que poderia reivindicar o privilégio de ser “o mais entendido” em tal e qual contexto. Não que me pudesse isso, de modo algum, valer em termos de progressão funcional ou prestígio profissional, tão longe se encontram os interesses brasileiros dos do país dos antípodas. Durante algum tempo, cognominaram-me de “chinês”. Enfim, minha identificação como “chinês” perdurou por vários anos entre colegas. Razão de sobra terá tido Guimarães Rosa de me dedicar (1958) seu Sagarana com amizade e um certo chiste irônico, descrevendo-me como um “companheiro nas etapas lumino-nebulosas do Tao, espírito aberto às vozes sábias da História e aos sutis ecos do mar da Mefafísica”...
Quando desembarquei no grande porto em abril de 1941, encontrava-se a cidade na seguinte situação, dividida sumariamente em quatro áreas. Uma parte da chamada Concessão Internacional, além do córrego de Suzhou e na margem esquerda do rio Huangpu, era administrada pelos japoneses. Todos seus arredores sofriam igualmente sob a brutal ocupação do exército nipônico que por ali, na primavera de 1937, iniciara sua segunda tentativa de conquista da China central. O Settlement propriamente dito permanecia, como antes, administrado por um Conselho Municipal sob responsabilidade dos Cônsules das potências capitulares, com direitos extra-territoriais. Entre estas Potências, honrada e discretamente figurava o Brasil. Junto ao Settlement internacional, a sudoeste, a Concessão Francesa era administrada por um Cônsul Geral - o Ministro Roland de Margerie.
Xanghai apresentava-se, em suma, como uma cidade internacional no sentido administrativo e real da palavra, com quatro setores distintos: o francês, o internacional, a área ocupada pelos japoneses e os bairros chineses do lado de Putung, na margem direita do rio Uangpu. Nessa época, das importantes tropas estrangeiras ali concentradas em 1937, com missão de defender as Concessões ante o ataque japonês contra a China, só sobravam um regimento de Marines e alguns fuzileiros navais franceses. Na polícia internacional, serviam muitos oficiais britânicos, com sikhs e gurkas que haviam sido trazidos pelos ingleses, e um grande número de refugiados europeus. Os nacionais das potências da Europa, América Latina e Ásia que haviam mantido sua neutralidade conseguiram sobreviver, bem ou mal, aos quatro anos do conflito mundial, sem sofrerem especialmente da brutalidade das autoridades ocupantes.
Em fins de 1942, depois das duas partidas do navio italiano Conte Verde que proporcionou o êxodo dos diplomatas e mais alguns privilegiados – a autoridade militar nipônica organizou campos de concentração para os civis inimigos que ainda encontraram na cidade - o que é o tema do magnífico filme de Steven Spielberg, Empire of the Sun.
De um modo geral, quando lá cheguei, nada na vida diária do porto parecia indicar que a China inteira enfrentava uma guerra de conquista total; nem que, na Europa, alastravam-se as chamas ardentes do mais violento e sangrento confronto bélico da história universal. A Concessão sobrevivia pacificamente, escarmentada embora pela inconfortável presença opressora dos súditos do Mikado. Ela demonstrava a mesma estupenda serenidade e confiança que sempre a caracterizou, nos cento e setenta anos de duração da novela singular que traduz sua crônica cosmopolita. Notai ainda a circunstância que, em que pesem as tentativas mais radicais dos revolucionários maoístas, com seus pendores ruralistas, de destruí-la após a instalação do “Governo Popular” em Beidjing, 1950, ela continuou progredindo, pouco sofrendo com o Grande Salto para a Frente e a Revolução Cultural. Nessas condições, à medida que o “Império Central”, vulgo República Popular, se integra no movimento geral de globalização e com uma população já superior talvez a vinte milhões, Xanghai se destaca como a maior cidade do mundo, a maior cidade chinesa, seu principal porto, o núcleo da acelerada expansão industrial prevista e a magnífica fachada moderna de imponentes arranha-céus que pretende apresentar ao mundo como símbolo da nova China.
Sobre o cais do rio Uangpu, estende-se o famoso Bund. Seus majestosos edifícios de bancos, hotéis e grandes firmas internacionais - o Billion Dollar Row como era chamado naquele meado do século XX - representavam o que de mais rico e poderoso concentrava a presença ocidental no Oriente. “A cidade onde jamais cessa a agitação” (the City where trouble never ends) confrontava-se com as condições de guerra no mesmo entusiasmo otimista que lhe houvera, no passado, permitido sobrepujar todas as adversidades. Formidável formigueiro humano, compreende-se por que Aldous Huxley, quando a visitou, tenha observado que, mais do que em qualquer outro lugar do mundo, faz ali sentido o conceito do élan vital bergsoniano. Hoje, espantoso é o crescimento demográfico e econômico. A renda per capita ultrapassa os cinco mil dólares, com crescimento maior do que a média nacional. Só em 2003, calcula-se que três milhões de imigrantes tenham chegado à cidade, valendo-se de um certo relaxamento no estrito controle das migrações internas exercido pelo governo de Beidjing. Quatrocentos mil novos empregos foram criados neste único período de doze meses, o que não impede tenha o número de desempregados atingido 300.000. Uma economia e uma demografia ainda em grande parte sob controle estatal impedem o surgimento de favelas.
A própria língua franca local era peculiar, endógena. Mistura do dialeto da província do Tchekiang com um pot-pourri de palavras inglesas, portuguesas, indianas e francesas numa gramática chinesa, o Pidgin English é facilmente assimilável e me tornei proficiente em seu uso. Dizem que a origem do jargão foi espontânea, nasceu no business entre negociantes ingleses e compradores locais. Desde logo compreendi que não adiantava esforçar-me por estudar o chinês na versão oficial do Norte. O estudo da língua escrita, ideográfica, implica, necessariamente, o conhecimento do maior número possível dos 40 mil ideogramas que existiriam – um décimo dos quais, pelo menos, seriam imprescindíveis para a leitura de jornais e livros simples. A absorção mnemônica dos ideogramas não é fácil mas se torna, aos poucos, um jogo fascinante. Quanto á gramática, é a própria simplicidade; não há verbos, nem sintaxe complexa. Por exemplo: quando V. encontra na rua uma pessoa amiga e pergunta como está, a fórmula é nin hao? (como bom?). Ou hao bu hao? (bom não bom?). Cabe acrescentar que muitas palavras portuguesas se integraram ao Pidgin. A palavra sabe significa ao mesmo tempo saber e entender. Assim, se quero perguntar a um lojista local se compreendeu o que eu disse, a questão é “sabe no sabe?”. O Pidgin era muito usado em Xanghai com os empregados domésticos, com os cules que nos transportavam em seus veículos antropomotores, assim como nas lojas. Outro termo curioso é maskee, originário da expressão idiomática lusitana mas que!, num sentido semelhante ao francês je m´en fous, italiano ne me frego, ou russo nitchevo. Mais complicada foi a tarefa dos primeiros jesuítas, italianos em sua maior parte, que se estabeleceram na corte de Peking, século XVII, na esperança de converter o Filho do Céu e assim cristianizar de um só golpe a China inteira. A frase “Deus é amor” mereceu complicas ginásticas vocabulárias pois o verbo ser não existe, Deus teve que ser traduzido pelos católicos como “Senhor do Céu” e amor, de modo similar, comporta uma variedade enorme de termos para as formas específicas, “amor paterno”, “amor filial”, “amor sexual”, amor de uma coisa, um lugar ou uma entidade abstrata qualquer.
Um termo que adquiriu um sentido social e histórico importante é comprador, merecendo ser comentada. A palavra designava os primeiros negociantes chineses que estabeleceram comércio com os europeus, portugueses para começar; ela é um exemplo de como se originou o dialeto. A classe dos compradores foi formada, desde a época dos primeiros negociantes europeus que atingiram o sul da China no século XVI, pelos intermediários chineses ou sino-portugueses de Macao que, falando uma língua européia, prosperaram rapidamente nesse comércio e se tornaram o elemento mais influente da nação na primeira metade do século XX. Sua base foi Hong-Kong, Macao, Xanghai e outros portos “abertos” de intercâmbio e contato. No final do século XVIII, o Imperador Kien Long, o mesmo que se recusara a atender às propostas comerciais de lord Macartney, criou uma ojeriza especial aos mercadores chineses de Macao e Cantão, os “compradores” dos artigos oferecidos justamente pelo embaixador britânico, porque constituíam uma ameaça ao isolamento absoluto em que pretendia manter o Império Celeste. Sempre tenho defendido a tese que a Revolução Maoista Chinesa constituiu, realmente, uma revolução de cunho nacional-socialista, totalmente heterodoxa do ponto de vista do Marxismo teórico puro. O movimento foi dirigido não tanto contra um feudalismo rural, que pouco existia no contexto chinês, mas contra a burguesia das grandes cidades portuárias “contaminadas” pelo espírito ocidental. Foi, assim, primariamente uma revolução contra a classe dos Compradores e seus líderes, cognominados Taipan. Se há um aspecto em que se pode falar em “luta de classes” na Revolução chinesa, seria esta configurada pela tendência do campesinato, essencialmente conservador em suas atitudes e interesses, em aceitar a idéia de “Portas Abertas”. A proposta implicava o fim do isolamento. A classe rural concordou assim em ser mobilizado e liderado por outro camponês, mais instruído e de virtudes carismáticas, o camarada Mao, a fim de derrubar os “corruptos compradores” da alta “burguesia” que, juntamente com suas mercadorias importadas, traziam também idéias novas e costumes estrangeiros, oriundos de um mundo totalmente alheio ao centralismo obstinado do Império Central. Em outras palavras, foi a “Revolução” chinesa, na realidade, uma reação ou contra-revolução do conservadorismo rural contra a classe dominante dos compradores, encabeçados pelo Kuomintang.
Não era a primeira vez que uma nova “dinastia” seria estabelecida dessa maneira, Na terminologia chinesa, uma forte personalidade dotada de carisma recebia o “mandato do Céu”, Ming, que legitimava seu governo. Posteriormente, o novo regime passou a ser administrado, como sempre fora, pela burocracia “imperial”. Para esta Nomenklatura, os portugueses também haviam adequadamente inventado o termo Mandarim - aquele que manda. Estes, hoje como outrora, continuam residindo principalmente Beidjing. A China oferece, de fato, o exemplo supremo de uma sociedade que sempre foi governada por uma classe burocrática, um sistema que data do aparecimento de Confúcio (Kung Fu Tsê), no quinto século antes de Cristo. O burocrata é o homem que “manda” em nome do soberano, qualquer que seja o poder tradicional do Imperador, da dinastia por ventura reinante e da intervenção ocasional dos soldados nas crises graves de sua história. É o membro dessa aristocracia civil, outrora necessariamente versada nos “Clássicos” de sua filosofia, quem estabelece como se deve, oficialmente, falar “mandarim”, literalmente a “língua do funcionário público”, kuan-huá, está programada para, pouco a pouco, eliminar todos dialetos locais e se transformar no único idioma chinês. A burocracia weberiana, que no caso é herdade da tradição clássica de Confúcio seus discípulos, particularmente Mencius (Meng-Tzê), o principal teórico político, continua a ser a elite dirigente do país, Xanghai seria, por conseguinte, o principal cenário do confronto entre os “compradores” e os “mandarins”. Os compradores são hoje, também, eficientíssimos vendedores e isso é a principal novidade da China moderna.
O típico Xanghailander era cosmopolita, alegre, dinâmico, empreendedor, livre de preconceitos. Esquecia seu país de origem para só se lembrar que era ou um “Senhor Branco” (White master), ou um Taipan, um Grande Patrão, comprador de mercadorias e idéias estrangeiras. De um lado, o ocidental, solidário com os de sua raça e amante dessa colossal Babilônia erguida como por encanto sobre o lamaçal do rio Uangpu; do outro, o chinês da cidade que sempre foi rebelde contra a imutabilidade conservadora da sua sociedade - e ambos prosperando na mistura exótica de culturas aparentemente inassimiláveis. Hoje, o cidadão de Xanghai é o campeão da abertura e da globalização que os mandarins de Beijding, ainda presos a seus preconceitos marxistas que tão bem se adaptam à milenar tradição burocrática do “Despotismo Oriental”, procuram conter num conservadorismo granítico.
Nessa atmosfera excitante, de confrontos múltiplos, em que o adversário a combater era um invasor imperialista igualmente asiático, fui contagiado logo ao chegar. Na verdade a atração que a cidade exercia sobre o estrangeiro, o charme misterioso com que o Oriente cativa os que nele viveram, não é a de um recanto burguês pacato, com paisagem familiar. A Ásia acorrenta numa perspectiva de aventura, perigo e exotismo. O fascínio é do extraordinário quotidiano que alimenta a imaginação, o campo livre onde se deleitavam os inescrupulosos, os ambiciosos, os audaciosos e os inimigos da rotina dos filisteus. Um verdadeiro Xanghailander já sobressaía, muito antes da chamada “globalização neoliberal” que marca o início deste novo século, como um internacionalista ou cidadão do mundo no sentido que a coletividade a que pertencia só era limitada pela relativa diferença fisionômica e lingüística entre as etnias. Para ele, na China, tudo era permitido. Se alguns carregavam aos ombros a ilusão kiplinguiana obsoleta do “fardo do Homem Branco”, a missão civilizadora que a si próprios confiara, sem pedir licença ao “nativo” - essa velha arrogância do conquistador se foi pouco a pouco diluindo no mercado global. O europeu ou o americano que para lá se mudasse, ou para Hong-Kong, ou para Singapura, não estava disposto a “estabelecer-se” com casa, mulher e filhos, como o faria em alguma cidadezinha do Sussex, da Provence, do Kansas ou do Texas. O que ansiava era viver nietzscheanamente, viver perigosamente. Clima penoso tanto física quanto politicamente, era um lugar privilegiado para se assistir aos grandes espetáculos humanos, à tremenda turbulência das massas e aos contrastes insolentes da vil riqueza com a mais sórdida miséria - um palco teatral na crosta ocidental da China.
Nas obras que o celebrizaram, Les Conquérants e La Condition Humaine, soube André Malraux captar o fundo trágico e muito humano da vida neste empório do Oriente. O cenário histórico da obra de Malraux é a crise dos anos vinte, a Segunda Década da grande Revolução Chinesa que se desenvolve com múltiplos atores e surpreendentes reviravoltas, cindindo o movimento entre o Kuomintang, à direita, e o “Exército Popular” de Mao Dzedong, à esquerda. O romancista francês escolheu o momento crucial em que, procedente de Cantão com as tropas “nacionalistas” que comandava, o “Generalíssimo” Chiang Kaichek aliou-se à classe dos Compradores, casando com a herdeira de uma de suas mais ricas e poderosas famílias, os Sung (4). A família Sung é interessante porque personifica toda a problemática política, social e econômica das quatro décadas decisivas da Revolução (1911-1950). Um rico industrial com conexões americanas, Sung. foi o fundador da linhagem e seus três filhos são responsáveis pelos rumos contraditórios que tomou o processo de transformação do país. A filha mais velha, Chingling casou com Sun Yatsen, o patriarca da República. Depois da morte do marido, aderiu aos maoístas, recebeu o Prêmio Stáline e, vivendo em Beidjing, suportou sem grandes transtornos as turbulências da Revolução Cultural, morrendo com toda a glória entre os comunistas. O irmão, T.V. Sung, foi Ministro da Fazenda do Kuomintang e dos Negócios Estrangeiros durante a guerra, sendo considerado em certo momento o homem mais rico do mundo. Negociante inveterado, ouvi dizer durante minha passagem pela base aérea de Natal em 1944, que mesmo as condições especiais da guerra mundial e sua alta hierarquia não o impediam de realizar transações locais com cigarros americanos e relógios suíços. A terceira, Meiling, casou com Chiang Kaichek, exatamente no momento em que o “Generalíssimo” rompia com seus aliados comunistas e suprimia, a ferro e fogo, a greve revolucionária de Xanghai comandada por Chou Enlai. Iniciando e terminando vitoriosamente o combate aos diversos “Senhores da Guerra” que dominavam as províncias, Chiang chegou praticamente a unificar a China, salvo as áreas setentrionais controladas pelos Maoístas depois da famosa “Longa Marcha”. Na complicada intriga de que se valeu Malraux para a redação de La Condition Humaine, os dois irmãos, T.V. Sung e Sung Meiling, desempenharam um papel crucial como representantes de Xanghai e de sua classe dos Compradores.
Em certo momento e por motivos de tratamento de saúde, Meiling viveu numa ilha da baía de Guanabara, Brocoió. Tive ainda ocasião de conhecê-la quando de uma viagem oficial a Taiwan realizada em 1966, em que eu acompanhava o Ministro Juracy Magalhães – episódio de que tratarei em parte posterior destas Memórias. Após a morte de Chiang e sempre cercada de prestígio, Meiling foi viver em Nova York onde faleceu em 2003, com 106 anos de idade. Como resquício da cisão ocorrida na Revolução chinesa entre “nacionalistas” do Kuomintang e “comunistas” do PCC, persiste ainda o problema de Taiwan que o “Governo Popular” de Beidjing continua a reivindicar como parte da nação.
Quanto a Chou Enlai, este típico intelectual de vocação mandarínica, ex-Comissário Político do PCC na cidade, por pouco escapou ao pelotão de fuzilamento mas perdeu para sempre a perspectiva de alcançar a posição suprema e se tornar o Número Um da Revolução, como merecia. Ele se recuperaria suficientemente, no entanto, para ocupar o posto der Primeiro Ministro depois de 1950 no governo comunista. Mandarim-Mor sob as ordens de Mao, sobreviveu à Revolução Cultura e foi mentor de seu fiel sucessor Deng Xiaoping, herdeiro de um programa mais racional do que o do alucinado campônio populista. Por duas vezes, quase perdeu a vida, mas Mao o respeitava como melhor conhecedor do mundo exterior. A intriga que então se desdobrou (1925/27) iria condicionar o progresso da Revolução chinesa, através de vinte e cinco anos de novas guerras civis, entremeadas de oito anos de uma guerra selvagem contra o inimigo japonês que custaria cinco milhões de mortes – ao todo 50 milhões de vítimas até, finalmente, cessar a turbulência depois da morte do Grande Timoneiro. Temos aí nas três “famílias” ideológicas – 1) a pro-americana dos “compradores”, dos Sung; 2) a originariamente mandarínica e marxista de Chou Enlai; e 3) a “ruralista”, populista ou camponesa reacionária de Mao, exposta no célebre “Livrinho Vermelho” – os três eixos que orientaram a Revolução no fulcro do tufão de Xanghai. Tudo terminaria, em que pese o despotismo dos que, em 1989, mandaram fuzilar centenas de estudantes nos arredores da paradoxalmente chamada Praça da Paz Celestial (Tien-An-Men) - na atual tentativa de conciliação que se resume no slogan “uma nação, dois sistemas”, nas mãos do terceiro herdeiro de Deng, Hujintao.
Desde seu nascimento, entretanto, tivera Xanghai uma existência movimentada. Em meados do século XIX, a metrópole enfrentou o pesadelo da revolta dos Tai-Ping - um movimento anárquico, xenófo, anti-manchu e com vagas influências cristãs que terminou com um saldo de trinta milhões de mortos. Possivelmente o episódio mais brutal daquela centúria relativamente pacífica, a crise dos Tai-Ping durou anos e só foi debelada com a ajuda dos europeus. Na passagem do XIXº para o XXº século, Xanghai assistiu de longe ao trauma dos Boxers - os primeiros guerrilheiros xenófobos que a poderosa e perversa Imperatriz Viúva Tzu Hsi, tia do “Último Imperador”, cultivou, a fim de resistir a qualquer mudança enquanto tentava preservar sua própria família no Trono do Dragão. A cidade já crescia desmesuradamente. Fora, até a guerra, o primeiro porto da Ásia e absorvia centenas de milhões de dólares em exportações e importações, como entreposto do Eldorado chinês. Fortunas fenomenais foram acumuladas, nem sempre honestamente, e a prosperidade alcançou cifras jamais atingidas. Concebiam-se as possibilidades futuras como imprevisíveis. A China é um país de imensos recursos, fabulosas riquezas do subsolo, abundantes matérias primas para a indústria da Europa e América – o maior mercado potencial, a mais numerosa população trabalhadora e mesmo, como já alguns antecipam, a primeira potência econômica do planeta. O espetáculo da fortuna fácil que se esbanja em caprichos e vícios, no quadro da miséria e podridão humana, arrastando-se pelas sarjetas – todas as manifestações multiformes da vida urbana, florescendo como em parte alguma neste planeta em plena crise da Grande Depressão – tal foi o quadro com que, mal saído de um Rio de Janeiro ainda provinciano, me deparei para deleite, perplexidade e, logo em seguida, horror - horror com o que aconteceria no inverno de 1941/42.
Tema curioso que desejo tocar antes de prosseguir com estas reminiscências se me apresenta como o do transporte na cidade. Pode-se dizer que a história do desenvolvimento da China pode ser descrita, em termos de progresso tecnológico, por uma série de etapas nos meios de transporte. O cavalo nunca exerceu um papel importante em sua economia. Só foi largamente utilizado militarmente, por influência, suponho, das tribos siberianas que regularmente usaram a cavalaria em suas invasões da China setentrional. A dinastia Tang estendeu o Império até seus mais distantes limites de domínio e influência para o sul (Vietnam e Birmânia), para oeste (Tibet e Turquestão) e para o norte (Sibéria e Coréia), pelo uso amplo da arma hipomóvel. A intensa a urbanização chinesa sempre preferiu, para as grandes comunicações pesadas, o transporte fluvial em rios e canais. A besta de carga principal foi o próprio homem, ou sua variedade nativa, o cule. A evolução se processou do seguinte modo. Originariamente, o mandarim ou qualquer membro da elite dominante e sua família eram transportados em liteiras ou palanquins. Dois cules, um na frente, outro atrás. O primeiro notável progresso foi realizado pelos ingleses que introduziram o rickshaw ou jinrickshó – literalmente, “veículo a tração humana” – e não sei se há tradução portuguesa para essa espécie de carrinho de mão. Inventado ao que se diz por um Sahib da Índia e usado, em certa época, por toda a Ásia oriental, inclusive no Japão, o veículo configurou um enorme avanço tecnológico - um único ser humano carregando um outro, ou mesmo dois ou três. Muito me servi desse meio em Xanghai e, posteriormente, em Beidjing, empregando-o no lugar de inexistentes táxis. O nome no dialeto local era pronunciado, aproximadamente, uhambatzó, mas desconheço os respectivos ideogramas. Foi sendo substituído aos poucos pelo pedicab cujo puxador, ao invés de correr a pé, usa rodas. É, em outros termos, uma tricicleta. O progresso do individualismo democrático é notável, de dois para um a um para dois ou mais de dois. Finalmente, na fase atual do desenvolvimento chinês, como se pode apreciar por qualquer fotografia de tráfego nas ruas chinesas, é a própria bicicleta, um para um. A bicicleta configura o transporte ideal para pequenas distâncias, sem poluição, sem engarrafamentos e proporcionando um saudável exercício diário ao indivíduo atento à saúde de seu coração. A instalação de uma grande indústria automobilística é fenômeno recente, com conseqüência imprevisíveis não só para o trânsito, mas para o consumo do petróleo nessa gigantesca economia.
Todavia, eram estas as condições que a Xanghai granjearam, já quando a conheci, a fama de Paris do Oriente...Vivi na China, precisamente, num dos momentos mais dramáticos da imensa transição do colonialismo imperialista para a sociedade globalizada da modernidade. Eu era jovem. Tinha vinte e poucos anos. Era a primeira experiência de liberdade e ainda sofria da louca irresponsabilidade, sofreguidão e insegurança da juventude. Nunca sentiria a realidade do turbulento mundo moderno tão intensamente como nesse ano e meio em que participei diretamente de eventos históricos, entre os mais salientes do século... Experiência ímpar que, confrontada com algo semelhante em meu próprio país, me foi sumamente instrutiva ao cotejar a evolução das duas nações nos antípodas, à luz do fenômeno de globalização da economia, cultura e poder político euro-americano.
Vale recordar que, no primeiro período em que servi em Xanghai, assisti á fracasssada tentativa dos japoneses de ampliar seu Lebensraum através da conquista da China – o que descreviam como colocar “Os Quatro Cantos do Mundo sob um Mesmo Teto”. A agressão à China, que precedeu o expansionismo nazista e provocou a II ª Guerra Mundial no cenário asiático, foi inicialmente conduzida por grupos de militares do Exército da Manchúria, agindo de modo aparentemente independente e dominando as políticos hesitantes do governo de Tóquio. O general Araki Sadao. chefe de uma facção ultra-nacionalista que propunha a Via Imperial, Kodo Há - um movimento ideológico de natureza nazista. Araki e outros colegas de farda, samurais aventureiros, puseram-se na cabeça que seria possível conquistar a China, conquista-la inteiramente, fazer o mesmo do que os mongóis e os mandchús que haviam estabelecido suas próprias dinastias. Hirothito seria colocado no Trono do Dragão. Na batalha em torno das concessões internacionais de Xánghai, em fins de 1937, os adversários se empenharam no primeiro grande confronto bélico da Segunda Guerra Mundial. Num bombardeio aéreo por engano dentro do próprio Settlement, antecipou-se os horrores da nova forma de terror coletivo.
Cortadas as artérias vitais de comunicação com o vale do Yang-Tzê, destruído seu comércio, suspensa a navegação e irremediavelmente comprometido o domínio econômico ocidental, convenceram-se finalmente os Taipans europeus de sua sorte. Se vencesse o Japão, monopolizaria a vida econômica do porto; se a China, como aconteceu, as tropas vitoriosas, nacionalistas ou comunistas, entrariam nas concessões sem se deter e varreriam interesses, concessões e privilégios dos financistas e mercadores estrangeiros. Tudo culminou em 1949 no sucesso do populismo nacional-socialista de Mao Dzedong.
A presença de nossa Consulado Geral em Xanghai não representava, por conseqüência, senão um símbolo inútil, sem qualquer valor prático que o justificasse. Um pouco de bom-senso e atenção de nosso Ministério teria determinado, ainda em 1940 ou 41, o fechamento tanto dessa repartição, quanto da Legação que ainda mantínhamos – realmente para que? - em Peking . Não seria a primeira vez que, secretamente, no mais íntimo de minha mente, surgia a dúvida sobre se as repartições brasileiras existem para dar emprego a funcionários, e não os funcionários para atender às necessidades políticas e administrativas das repartições.
Mas sem poder prever o que aconteceria, o espetáculo da presença dominante dos japoneses em torno da cidade e alguns incidentes que testemunhei estavam aos poucos determinando minha própria atitude, progressivamente mais envolvida nos acontecimento bélicos que se sucediam e que terminaram, ao final das contas, com a sobrevivência e sucesso dos aliados em luta pela liberdade e a democracia. Recordo-me de haver assistido, ainda ao final do verão de 41, a uma exibição marcial de fuzileiros navais japoneses num terreno baldio, área aberta na esquina do Bund. O objetivo da demonstração era, obviamente, impressionar a população local com o poder de seus novos Senhores. Os fuzileiros se exercitavam, enterrando a baioneta no corpo de um “inimigo”, feito de palha, e a cada gesto, a companhia inteira soltava um rugido selvagem, gutural, de tigres ferozes. Em dado momento, obedecendo às ordens de um oficial, meia dúzia de fuzileiros puseram-se a afastar com brutalidade a audiência de chins que, curiosos mas imprudentes, se haviam acumulado para presenciar o treinamento de seus invasores. Vários populares caíram ao chão, com a cabeça ensangüentada. Pareceu-me que um deles estava com o crânio rachado. Foi então que, pela primeira e talvez única vez, ouvi o hino nacional, o Kimi-ga-yô – cantado em coro, lento, melancólico, exótico, com suas sentenças de tom religioso cuja tradução aproximada é a seguinte:
Que Te seja dado viver dez mil anos felizes.
Vive, meu Augusto Senhor, até que os pedregulhos,
Reunidos pelos séculos em grandes rochedos
Sejam os veneráveis flancos de musgo recobertos.
O hino é mais uma oração ou renovação da declaração de profunda e eterna fidelidade ao Tennô Heika. No local, além dos fuzileiros, havia também uma aglomeração de súditos do Mikado. A cerimônia terminou com o berro estrondoso, três vezes repetido, os braços lançados para o alto, Banzai! Banzai! Banzai! – grito de viva, literalmente “Dez Mil” (Dez mil anos), o que tanto em chinês (Wan Sui) quanto em japonês, sugere a eternidade. Confesso que um arrepio me percorreu o corpo.
Poucos dias depois, passeando pela Nanking road, entrei numa pequena loja de fotografia e assisti a outro espetáculo, ainda mais desagradável. Um japonês muito irritado e em trajes civis, talvez algum antigo oficial do exército – com eles não se topava freqüentemente do lado de cá dos limites da Concessão internacional – discutia com o dono da China Marvellous Photo Shop. Provavelmente, sobre o preço de uma máquina alemã Zeiss Ikon, ou coisa semelhante. Estavam falando chinês, fiquei esperando. De repente as coisas desandaram. O freguês ficou amouco, o termo malaio-indonésio é amok, “furor homicida e suicida” - aquele furor que seria demonstrado durante toda a guerra. Gritou e atirou brutalmente o aparelho em plena cara do gordo vendedor. O sangue espirrou e o chinês se espatifou no chão. Discretamente, bati em retirada para não assistir às seqüelas do entrevero. Como por acaso, naquela mesma semana um dos meus amigos “russos brancos”, me proporcionou uma série de fotos tiradas por ocasião do massacre ou Rapto de Nanking, de fevereiro de 1938, um dos episódios mias horrandos da Segunda Guerra Mundial, em que se calcula tenham perecido entre 200 e 300 mil civis e soldados chineses.. Compreendam assim que, embora admirando o caráter inflexível dos japoneses, minhas simpatias se estavam rápida e radicalmente se consolidando para o lado dos chineses e de seus aliados ocidentais. Estes eram os americanos que, desde 1937, prestavam assistência discreta à resistência do Kuomintang e, desde sempre, favoreciam a política globalizante das “portas abertas” (Open door policy). O propósito era diametralmente contrário à monopolização do mercado chinês, potencialmente o maior do mundo, por uma única potência dominante.
De qualquer forma, que estava a guerra por chegar, até eu sabia, sem recurso a qualquer Serviço de Inteligência, a não ser a minha própria. Nos primeiros dias de dezembro de 1941 fomos assistir às despedidas do IVº Regimento dos Marines. Eles partiam para as Filipinas. Graças a meu chefe, o cônsul geral Mee, me havia tornado amigo de vários oficiais desse último destacamento americano na Concessão internacional, inclusive de seu comandante, o coronel, posteriormente general Howard. Tenho uma fotografia tirada no momento em que Howard dá os cumprimenta de despedida ao comandante japonês da praça, do outro lado dos limites do Settlement. E guardei a carta que escrevi no mesmo dia a minha Mãe, no Rio, prevenindo-a da iminência da guerra e pedindo que não se preocupasse se, a partir daquela, não mais recebesse correspondência minha. As comunicações seriam cortadas por um prazo indefinido. Com o despertar, violento porém não inesperado, de Pearl Harbor e da ocupação de todo o Settlement internacional de Xanghai na noite de 8 de dezembro, me dei conta do envolvimento em que nos encontrávamos em acontecimentos gigantescos diante dos quais nossa própria sorte insignificante, nossos pequenos projetos, mesmo nossas vidas se reduziam à expressão mais simples. Minhas remniscências me asseguram que, naqueles dias de dezembro de 1941, li de uma só vez o livro de Anatole Frence Les Dieux ont Soif. É uma história que se passa durante a Revolução Francesa. O panorama que se descortina é o do terror e da irracionalidade. A leitura do autor francês introduziu-me ao ambiente do mundo totalitário do século XX em que eu iria encontrar, anos depois, as obras seminais de Huxley, Orwell, Kafka, Koestler, Isaiah Berlin e Popper, um outro francês, Julien Benda, e alguns outros eminentes autores que foram sensíveis à tragédia da civilização moderna. Em Xanghai, era a mesma atmosfera num horizonte diverso, com o acréscimo do exotismo da Ásia Orienta. A impressão de impotência diante de dois imponderáveis, a massa chinesa e o Leviatã nipônico, deixou-me com uma sensação desagradável de insegurança que, realmente, só cessaria depois de nossa volta ao Brasil, repatriado com os outros diplomatas das nações aliadas em julho de 42 pelo navio sueco Gripsholm.
Quero, porém, relatar um aspecto especial nessa minha memorialística. O inverno de 42 foi particularmente severo naquela parte do mundo. Nevou bastante em Xanghai e isso contribuiu para tornar ainda mais precárias as condições de vida da enorme massa chinesa, deixada ao Deus dará. O regime de racionamento nunca foi estabelecido porque, como alguém reparou, sempre houve racionamento na China. Ele vigorou até a Revolução comunista, por força do poder aquisitivo de cada um: quem tinha dólares no bolso, sempre encontrava o de que comer no mercado negro. Quem não tinha, morria de fome. Após o triunfo de Mao Dzedong, a míngua continuou valendo para as massas, mas não para o mandarinato do partido. De novo, milhões morreram de fome no período de comunização das terras, do mesmo modo como outros milhões faleceram como resultado do "Grande Salto para a Frente". No inverno de 1942 e em regime de semi-internamento sofremos apenas, os diplomatas, da deterioração no abastecimento de certos alimentos, principalmente carne de vaca que sempre foi rara na culinária chinesa. Nada que comprometesse a saúde. A situação tornou-se bem mais trágica para os pobres. A "indizível miséria" de que fala Teilhard de Chardrin ao percorrer os campos desorganizados da China, era ainda mais evidente nas cidades. Tendo vivido vinte anos na China, inclusive todo o período da Guerra – quando estudou o “Homem de Peking” e escreveu Le Phénomène Humain - Teilhard conheceu profundamente os sintomas da carência generalizada que, até a idade moderna, sempre configurou o sistema. Naquele inverno, o frio e a fome criaram uma calamidade na cidade, superlotada de refugiados de aldeias vizinhas e escarmentados pela luta de guerrilha. Em uma madrugada de fevereiro, as autoridades das Concessões internacionais recolheram mais de trezentos cadáveres nas ruas. E numa noite frígida, passando numa calçada não longe de meu apartamento, tropecei num cadáver recoberto de neve e caí. Era difícil distinguir no lusco-fusco. Contei o ocorrido ao jovem Bertrand de Margerie – filho do Cônsul Geral francês e futuro jesuíta que lecionou muitos anos no Rio de Janeiro, no Colégio Santo Inácio, e ele me citou os versículos do Livro de Jó, capítulo 14:
Consome-se o homem como a podridão,
Como um vestido roído pela traça.
Nascido de mulher, tem a vida curta e de tormentos repleta.
É como a flor que se abre e logo murcha,
E foge como sombra sem parar...
Um dia, passeando à noite pela Jofi Lu, a Avenue Joffre cerca de nosso hotel, com uma amiga que falava chinês, assisti ao espetáculo constrangedor de um miserável que, estendido na neve junto a um companheiro, morria presumivelmente de frio e fome. Compramos alguma comida quente que encontramos não longe e oferecemos aos dois. O que estava vivo riu, pronunciou em chinês algumas palavras que significavam haver entendido nossos motivos e nos informou: “Não adianta, ele está morrendo”. O vivo aguardava a morte do amigo para dele se apossar da indumentária, dos sapatos e de toda a comida que demos. Como interpretar o riso impenetrável e a indiferença de um mendigo para com o outro? Numa multidão como a da China, com seus 600 ou 700 milhões de indivíduos - a população naquela época, metade do que é hoje, mais de 60 anos depois - é natural que a vida humana conte por pouco. Nossas emoções de Ocidentais e Cristãos também são incompreensíveis para um chinês, treinado em esconder seus sentimentos e só sentindo obrigação moral para com os próprios parentes e amigos mais próximos. Os transeuntes, impassíveis, continuavam a tropeçar em velhos raquíticos e crianças despidas, a gemer e gritar de frio e de fome, tal a quantidade de desamparados na imensa metrópole ocupada. O banditismo constituía outro sintoma do caos latente – que pouco interessava à guarnição nipônica, só atenta à sua segurança militar. O bandido comum não hesitava em matar para roubar cem dólares. Muitos estrangeiros, inclusive um russo a que eu fora apresentado pouco tempo antes, foram assassinados por simples ladrões de bicicletas, gatunos noturnos e arrombadores de janelas. Afinal de contas, o mesmo tipo de violência ocorre hoje no Rio e em São Paulo, sem guerra alguma, e também toleramos o agravo com o simples álibi que "a culpa é da sociedade"! Os ricos chineses protegiam-se, com guarda-costas russos, contra organizações que nada deixavam a desejar aos gangsters e seqüestradores na habilidade e audácia, superando-os porém pelo número. Crianças em tenra idade tiveram suas barrigas abertas para nelas serem escondidas as barras de ouro e armas de fogo, contrabandeadas nos limites da cidade.
Outro problema era o terrorismo, variante do primeiro embora com um sentido diverso. Dele tinham a sofrer principalmente os civis japoneses e os "colaboracionistas" do governo títere de Wang Chingwei em Nandjing. O terrorismo indiscriminado era parcialmente contido graças ao velho sistema chinês de policiamento, chamado Pau Chia. Consistia na responsabilidade coletiva de todos os habitantes do quarteirão onde se acreditava o culpado estivesse refugiado. O quarteirão era isolado; seus habitantes não se podiam locomover, nem trabalhar ou receber alimentos, eletricidade ou água, até que o suposto criminoso aparecesse. O sistema oferecia às vezes aspectos cômicos. Um pegue-e-pague da época foi bloqueado durante 48 horas, com todos os fregueses que se encontravam em seu interior obrigados a passar dois dias sem comer...
Os inimigos e as "massas", era isso o que a nós todos, ocidentais, preocupava. A palavra “massas” voltaria incessantemente no vocabulário marxista e, particularmente, no maoísta. Ela possui uma tonalidade de sentido transcendente, mas naquele momento seu significado era bastante específico. A China é governada pelas "massas". As "massas" fariam a “Revolução Popular”, a cujo término eu teria outra oportunidade de assistir em 1947/49. As massas são uma realidade estatística numa nação de 1,3 bilhões de habitantes. Em Xanghai, as massas constituíam uma realidade concreta, uma monstruosidade palpável. Cidade que tinha uns três ou quatro milhões de habitantes quando a conheci, a massa humana, no seu colorido cinzento-azulado, comprimida em uma das maiores densidades demográficas do planeta, agitada e, ao mesmo tempo, curiosamente pacífica e silenciosa, oceano humano que oprimia e afogava - quantas vezes durante a guerra, numa época em que quase não existia tráfego de automóveis, eu sentia essa sensação estranha de estar sendo absorvido ou engolido ou me afogando dentro de um ciclópico ser coletivo, um Behemoth. Eu temia ser estrangulado pelas "massas". Há duzentos anos, já escrevia Lord Macartney, o primeiro embaixador inglês, que "essa imensa população gosta de viver ao ar livre, em número infinito". A sensação de um formigueiro ou de uma torre de cupim é muito real. Volta-nos constantemente ao espírito as duas palavras francesas grouiller, pulluler...
Quero terminar com a seguinte consideração. O ponto a salientar é a limitada inclinação histórica de uma sociedade tão introvertida quanto a chinesa pela expansão ultramarina. Essa introversão vem de par com uma atitude histórica essencialmente conservadora e defensiva que, na minha opinião, não permite antecipar se transforme a China, eventualmente, com seu crescimento econômico e demográfico, numa superpotência globalmente agressiva. Acredito que se o espírito de Xanghai e de Hong Kong vingar por todo o imenso país – o que quer dizer que, se as modernizações de Deng Xiaoping amadurecerem, não haverá por que temer a China senão como grande concorrente, jamais com um misterioso Dr. Fu Manchu agressivo. A China que se acordou, se levanta simplesmente para o grande papel que lhe cabe num mercado e num mundo globalizados.
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Julho de 2004
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
1. A transcrição dos nomes chineses para o português é sempre problemática. A tradicional, de origem inglesa, baseava-se na pronúncia no dialeto de Cantão. Escrevia-se então Peking, Shanghai, Canton, etc. A mais recente, oficial, procura aproximar-se da fonética, como em Beidjing. Mas escrevo Xanghai como melhor aproximação. Os nomes das cidades correspondem sempre a dois ideogramas, duas sílabas. Djung é o ideograma para centro, Guó ou Kwo é o ideograma para país, estado ou nação.
2. Traduzido para o português, O Império Imóvel, ou O Choque dos Mundos, Casa Jorge Editorial, Rio, 1997.
3. Observem que prefiro transcrever os ideogramas chineses correspondentes ao nome do porto e principal metrópole comercial do país da maneira como o fazem os ingleses e, também, os chineses – salvo que ponho “X” no lugar de “Sh”. Os dois ideogramas Shang e Hai querem dizer “acima” e “mar”, ou “à beira do mar”. Uso igualmente o H antes de Hai, para indicar que a palavra deve ser pronunciada com um H aspirado.
4. Algumas vezes o nome é transliterado Soong e Song.
domingo, junho 24, 2007
quarta-feira, junho 20, 2007
216) Amigos do Desenvolvimento, em propriedade intelectual
Comunicado do governo brasileiro, em 19 de junho de 2007:
Comitê Provisório sobre a "Agenda para o desenvolvimento na OMPI" (Genebra, 11 a 15 de junho de 2007). Estabelecimento de 45 recomendações de ação.
Realizou-se, de 11 a 15 de junho de 2007, na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), em Genebra, a IV sessão do Comitê Provisório da "Agenda para o Desenvolvimento" (IV CPAD). O IV CPAD concluiu a fase de identificação de ações concretas para incorporar a dimensão do desenvolvimento aos trabalhos da OMPI, tendo sido aprovadas 45 recomendações de ação que serão encaminhadas, para confirmação no mais alto nível, à Assembléia-Geral da Organização (Genebra, 24 de setembro a 3 de outubro de 2007).
As recomendações aprovadas refletem, em sua maioria, as propostas apresentadas pelo grupo de países em desenvolvimento coordenado por Brasil e Argentina, composto por África do Sul, Bolívia, Cuba, Egito, Equador, Irã, Peru, Quênia, República Dominicana, Serra Leoa, Tanzânia, Uruguai e Venezuela - o grupo de países "Amigos do desenvolvimento".
O conjunto de recomendações aprovadas permitirá a países em desenvolvimento (i) resguardar as flexibilidades de interesse público existentes no sistema internacional de propriedade intelectual; (ii) receber assistência para a implementação de tais flexibilidades; (iii) equilibrar eventuais compromissos em negociação na OMPI com temas relacionados ao interesse público; (iv) submeter atividades normativas a debate sobre custos e benefícios; (v) promover avaliação do impacto das atividades da OMPI sobre o desenvolvimento; (vi) garantir maior participação da sociedade civil nas atividades da OMPI.
A fim de garantir a plena implementação dos resultados da "Agenda para o desenvolvimento", acordou-se estabelecer o Comitê sobre Desenvolvimento e Propriedade Intelectual, com mandato para monitorar o cumprimento das recomendações de ação aprovadas, em coordenação com os demais órgãos da OMPI, o que garante que a preocupação com o desenvolvimento deverá permear todo o trabalho da Organização.
A "Agenda para o desenvolvimento" é fruto da preocupação de países em desenvolvimento com o desequilíbrio verificado nas negociações internacionais em matéria de propriedade intelectual. Nesse contexto, a iniciativa consagra, na OMPI, preocupação já manifestada por países em desenvolvimento em outras organizações internacionais (OMC, OMS e UNESCO, por exemplo) quanto aos riscos de considerar a propriedade intelectual como um fim em si mesmo e não como um instrumento para o desenvolvimento e a inovação.
Resultado de quase três anos de discussões, as 45 recomendações de ação aprovadas pelo CPAD assinalam o reconhecimento dos membros da OMPI de que a proteção à propriedade intelectual deve ser feita de maneira equilibrada e em respeito aos diferentes níveis de desenvolvimento dos países, sob pena de perpetuarem-se assimetrias no acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento tecnológico.
Como proponente da "Agenda para o desenvolvimento", o Governo brasileiro considera positivos os resultados alcançados e estará empenhado em vê-los aprovados na Assembléia-Geral e, em seguida, refletidos em todas as atividades da OMPI.
Comitê Provisório sobre a "Agenda para o desenvolvimento na OMPI" (Genebra, 11 a 15 de junho de 2007). Estabelecimento de 45 recomendações de ação.
Realizou-se, de 11 a 15 de junho de 2007, na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), em Genebra, a IV sessão do Comitê Provisório da "Agenda para o Desenvolvimento" (IV CPAD). O IV CPAD concluiu a fase de identificação de ações concretas para incorporar a dimensão do desenvolvimento aos trabalhos da OMPI, tendo sido aprovadas 45 recomendações de ação que serão encaminhadas, para confirmação no mais alto nível, à Assembléia-Geral da Organização (Genebra, 24 de setembro a 3 de outubro de 2007).
As recomendações aprovadas refletem, em sua maioria, as propostas apresentadas pelo grupo de países em desenvolvimento coordenado por Brasil e Argentina, composto por África do Sul, Bolívia, Cuba, Egito, Equador, Irã, Peru, Quênia, República Dominicana, Serra Leoa, Tanzânia, Uruguai e Venezuela - o grupo de países "Amigos do desenvolvimento".
O conjunto de recomendações aprovadas permitirá a países em desenvolvimento (i) resguardar as flexibilidades de interesse público existentes no sistema internacional de propriedade intelectual; (ii) receber assistência para a implementação de tais flexibilidades; (iii) equilibrar eventuais compromissos em negociação na OMPI com temas relacionados ao interesse público; (iv) submeter atividades normativas a debate sobre custos e benefícios; (v) promover avaliação do impacto das atividades da OMPI sobre o desenvolvimento; (vi) garantir maior participação da sociedade civil nas atividades da OMPI.
A fim de garantir a plena implementação dos resultados da "Agenda para o desenvolvimento", acordou-se estabelecer o Comitê sobre Desenvolvimento e Propriedade Intelectual, com mandato para monitorar o cumprimento das recomendações de ação aprovadas, em coordenação com os demais órgãos da OMPI, o que garante que a preocupação com o desenvolvimento deverá permear todo o trabalho da Organização.
A "Agenda para o desenvolvimento" é fruto da preocupação de países em desenvolvimento com o desequilíbrio verificado nas negociações internacionais em matéria de propriedade intelectual. Nesse contexto, a iniciativa consagra, na OMPI, preocupação já manifestada por países em desenvolvimento em outras organizações internacionais (OMC, OMS e UNESCO, por exemplo) quanto aos riscos de considerar a propriedade intelectual como um fim em si mesmo e não como um instrumento para o desenvolvimento e a inovação.
Resultado de quase três anos de discussões, as 45 recomendações de ação aprovadas pelo CPAD assinalam o reconhecimento dos membros da OMPI de que a proteção à propriedade intelectual deve ser feita de maneira equilibrada e em respeito aos diferentes níveis de desenvolvimento dos países, sob pena de perpetuarem-se assimetrias no acesso ao conhecimento e ao desenvolvimento tecnológico.
Como proponente da "Agenda para o desenvolvimento", o Governo brasileiro considera positivos os resultados alcançados e estará empenhado em vê-los aprovados na Assembléia-Geral e, em seguida, refletidos em todas as atividades da OMPI.
sábado, junho 16, 2007
215) O Brasil e a globalização, Gilberto Dupas
Este texto foi por mim comentado em um post de meu blog Diplomatizzando: neste link.
Ainda há tempo para ousar
Gilberto Dupas
O Estado de São Paulo, 16 junho 2007, p. A-2
O Brasil perdeu uma oportunidade de inserção benévola na perversa lógica da economia global a partir de sua abertura econômica. Ainda que necessária, ela foi açodada e sem a retaguarda de um projeto estratégico que minimizasse riscos e capturasse vantagens da fragmentação das cadeias produtivas globais. China, Índia, Coréia do Sul e Chile são as provas de que isso era possível. Países muito diferentes entre si, a partir de um diagnóstico sensato de suas potencialidades e dos espaços de inserção - e utilizando políticas econômicas menos ortodoxas -, conseguiram crescer, de 1990 a 2005, a médias anuais elevadas: China, a 10%; Índia, Coréia do Sul e Chile, próximo de 6%; enquanto o Brasil amargou pouco mais de 2%.
A China utilizou múltiplas estratégias, a maioria ao arrepio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), atraiu enorme fluxo de investimentos diretos internacionais e se tornou grande geradora de tecnologia. A Índia cuidou das grandes empresas locais, zelou por seu mercado interno e virou o maior produtor de software do mundo. A Coréia do Sul lidou com a pesada crise asiática do final do século, reformulou seus grandes grupos nacionais, lidera setores de tecnologia de ponta e agora investe pesadamente na China. E até o Chile, apontado como o solitário exemplo de neoliberalismo bem-sucedido na América Latina, teve a prudência de não privatizar o cobre, sua grande fonte de exportações, manteve uma meta de inflação razoavelmente flexível e permanentes controles do capital especulativo. Todos eles praticaram taxas de juros estritamente compatíveis com o mercado internacional. Já o Brasil teve nesses 15 anos crescimento medíocre, perdeu sua condição de grande captador externo de investimentos produtivos (FDI) após as privatizações e, mantendo sempre uma taxa de juros elevadíssima, incentivou as operações especulativas do exterior e o rentismo, em detrimento da aplicação na produção.
Os últimos seis anos constituíram um período inédito da economia mundial. O desempenho excepcional da China, com a ajuda da Índia, trouxe a vários países - inclusive ao Brasil - uma importante mudança no perfil da dívida externa e na formação de reservas internacionais. As principais commodities metálicas (níquel, cobre, alumínio, ferro e zinco) tiveram um acréscimo médio nos preços de cerca de 200%; as energéticas (gás, petróleo e carvão), de 100%; e as agrícolas (milho, soja, açúcar e café), de 50%. Com isso Brasil, Bolívia, Chile, Equador, Peru e Venezuela conseguiram um crescimento superior a 100% em suas exportações, sendo que as reservas internacionais de Argentina, Brasil e Venezuela cresceram cerca de 150% e as de México e Peru, da ordem de 60%. Por conta disso, vários desses países tiveram um crescimento econômico sensivelmente maior que sua média recente, com exceção do Brasil, que continuou a suportar seus 2% a 3%. Porém o boom na demanda mundial de matérias-primas e a fase positiva da economia global não durarão para sempre. Nossas reservas internacionais são inéditas, o que é ótimo para investidores e especuladores internacionais que vêem nisso garantia contra calotes. É o que constrói o tal “risco país” e o tão desejado investment grade. Mas, quando a virada do ciclo ocorrer, a conta terá de ser paga.
A valorização do real, conseqüência direta da avalanche de dólares do saldo comercial e do capital financeiro, para além de ter elevado nossas importações a inacreditáveis US$ 100 bilhões, tem um efeito muito duro na competitividade em setores industriais e de serviços, inclusive os que agregam mais valor e geram empregos de qualidade. E torna a indústria local que sobrou cada vez mais depende de importações com conteúdo tecnológico. Ficamos limitados a crescer basicamente no agronegócio - especialmente no biocombustível -, na construção civil e na demanda de bens duráveis, puxadas pelo alongamento do crédito. Enquanto a economia internacional se mantiver aquecida, isso poderá até permitir PIBs da ordem de 4%, o que não é mau. São alguns espaços importantes de crescimento, especialmente o mercado imobiliário aquecido, porque a inflação baixa permite prazo longo no financiamento e substituição do aluguel pela prestação da casa própria. Mas o fôlego é relativo. O biocombustível agregará pouca tecnologia; o etanol criará uma vasta cultura de cana que eliminará até o bóia-fria, substituído por colheita mecânica para evitar a poluição das queimadas; e o biodiesel fará a soja-alimento competir com a soja-combustível. Finalmente, os juros médios astronômicos dos empréstimos - mais de 100% ao ano para pessoas e de 60% para empresas, com uma taxa Selic de 12% - são uma expropriação da renda futura do consumidor e um freio à produção.
Como será possível ao Brasil crescer mais? E como nos prepararmos para quando a economia internacional desaquecer? Estamos amortecidos por uma inflação muito baixa, gerada por importações baratas e demanda contida por juros altos. Se ficarmos inertes e vier uma crise externa, o maior risco será: queda das exportações, fuga rápida do capital especulativo, fim dos saldos comerciais, desvalorização do real, encarecimento e diminuição das importações com pressão inflacionária e forte elevação da taxa de juros para conter a demanda. Conseqüência: queda do crescimento, da renda, e assim por diante. A melhor política é favorecer a elevação do dólar com mecanismos que ainda estão à mão: controlar o fluxo de capital especulativo (como estão fazendo Chile e Colômbia) e baixar com muito mais coragem a taxa de juros.
Claro que esses instrumentos teriam sido muito mais eficazes se aplicados dois ou três anos atrás, para além de terem garantido maior crescimento. Mas ainda há tempo para ousar.
Ainda há tempo para ousar
Gilberto Dupas
O Estado de São Paulo, 16 junho 2007, p. A-2
O Brasil perdeu uma oportunidade de inserção benévola na perversa lógica da economia global a partir de sua abertura econômica. Ainda que necessária, ela foi açodada e sem a retaguarda de um projeto estratégico que minimizasse riscos e capturasse vantagens da fragmentação das cadeias produtivas globais. China, Índia, Coréia do Sul e Chile são as provas de que isso era possível. Países muito diferentes entre si, a partir de um diagnóstico sensato de suas potencialidades e dos espaços de inserção - e utilizando políticas econômicas menos ortodoxas -, conseguiram crescer, de 1990 a 2005, a médias anuais elevadas: China, a 10%; Índia, Coréia do Sul e Chile, próximo de 6%; enquanto o Brasil amargou pouco mais de 2%.
A China utilizou múltiplas estratégias, a maioria ao arrepio do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial do Comércio (OMC), atraiu enorme fluxo de investimentos diretos internacionais e se tornou grande geradora de tecnologia. A Índia cuidou das grandes empresas locais, zelou por seu mercado interno e virou o maior produtor de software do mundo. A Coréia do Sul lidou com a pesada crise asiática do final do século, reformulou seus grandes grupos nacionais, lidera setores de tecnologia de ponta e agora investe pesadamente na China. E até o Chile, apontado como o solitário exemplo de neoliberalismo bem-sucedido na América Latina, teve a prudência de não privatizar o cobre, sua grande fonte de exportações, manteve uma meta de inflação razoavelmente flexível e permanentes controles do capital especulativo. Todos eles praticaram taxas de juros estritamente compatíveis com o mercado internacional. Já o Brasil teve nesses 15 anos crescimento medíocre, perdeu sua condição de grande captador externo de investimentos produtivos (FDI) após as privatizações e, mantendo sempre uma taxa de juros elevadíssima, incentivou as operações especulativas do exterior e o rentismo, em detrimento da aplicação na produção.
Os últimos seis anos constituíram um período inédito da economia mundial. O desempenho excepcional da China, com a ajuda da Índia, trouxe a vários países - inclusive ao Brasil - uma importante mudança no perfil da dívida externa e na formação de reservas internacionais. As principais commodities metálicas (níquel, cobre, alumínio, ferro e zinco) tiveram um acréscimo médio nos preços de cerca de 200%; as energéticas (gás, petróleo e carvão), de 100%; e as agrícolas (milho, soja, açúcar e café), de 50%. Com isso Brasil, Bolívia, Chile, Equador, Peru e Venezuela conseguiram um crescimento superior a 100% em suas exportações, sendo que as reservas internacionais de Argentina, Brasil e Venezuela cresceram cerca de 150% e as de México e Peru, da ordem de 60%. Por conta disso, vários desses países tiveram um crescimento econômico sensivelmente maior que sua média recente, com exceção do Brasil, que continuou a suportar seus 2% a 3%. Porém o boom na demanda mundial de matérias-primas e a fase positiva da economia global não durarão para sempre. Nossas reservas internacionais são inéditas, o que é ótimo para investidores e especuladores internacionais que vêem nisso garantia contra calotes. É o que constrói o tal “risco país” e o tão desejado investment grade. Mas, quando a virada do ciclo ocorrer, a conta terá de ser paga.
A valorização do real, conseqüência direta da avalanche de dólares do saldo comercial e do capital financeiro, para além de ter elevado nossas importações a inacreditáveis US$ 100 bilhões, tem um efeito muito duro na competitividade em setores industriais e de serviços, inclusive os que agregam mais valor e geram empregos de qualidade. E torna a indústria local que sobrou cada vez mais depende de importações com conteúdo tecnológico. Ficamos limitados a crescer basicamente no agronegócio - especialmente no biocombustível -, na construção civil e na demanda de bens duráveis, puxadas pelo alongamento do crédito. Enquanto a economia internacional se mantiver aquecida, isso poderá até permitir PIBs da ordem de 4%, o que não é mau. São alguns espaços importantes de crescimento, especialmente o mercado imobiliário aquecido, porque a inflação baixa permite prazo longo no financiamento e substituição do aluguel pela prestação da casa própria. Mas o fôlego é relativo. O biocombustível agregará pouca tecnologia; o etanol criará uma vasta cultura de cana que eliminará até o bóia-fria, substituído por colheita mecânica para evitar a poluição das queimadas; e o biodiesel fará a soja-alimento competir com a soja-combustível. Finalmente, os juros médios astronômicos dos empréstimos - mais de 100% ao ano para pessoas e de 60% para empresas, com uma taxa Selic de 12% - são uma expropriação da renda futura do consumidor e um freio à produção.
Como será possível ao Brasil crescer mais? E como nos prepararmos para quando a economia internacional desaquecer? Estamos amortecidos por uma inflação muito baixa, gerada por importações baratas e demanda contida por juros altos. Se ficarmos inertes e vier uma crise externa, o maior risco será: queda das exportações, fuga rápida do capital especulativo, fim dos saldos comerciais, desvalorização do real, encarecimento e diminuição das importações com pressão inflacionária e forte elevação da taxa de juros para conter a demanda. Conseqüência: queda do crescimento, da renda, e assim por diante. A melhor política é favorecer a elevação do dólar com mecanismos que ainda estão à mão: controlar o fluxo de capital especulativo (como estão fazendo Chile e Colômbia) e baixar com muito mais coragem a taxa de juros.
Claro que esses instrumentos teriam sido muito mais eficazes se aplicados dois ou três anos atrás, para além de terem garantido maior crescimento. Mas ainda há tempo para ousar.
domingo, junho 10, 2007
214) Os 8 passos para o Brasil virar uma potência
Revista Época, Terça-feira, 5 de junho de 2007
Os 8 passos para o Brasil virar uma potência
Isabel Clemente, Alexandre Mansur e Renata Leal
DIANTEIRA
Frederico Durães, mentor da parceria público-privada em tecnologia do álcool, num laboratório da Embrapa. As pesquisas são a chave para aumentar a competitividdae brasileira
A Coréia do Sul é citada à exaustão como exemplo de milagre econômico operado pela alta tecnologia. Na década de 60, era tão pobre quanto as nações miseráveis da África. Em quatro décadas, esse país asiático construiu marcas como Samsung, LG e Hyundai. Os coreanos viraram especialistas em celulares, computadores e carros. Mas, quando o assunto é tecnologia agroindustrial, eles vêm buscar as lições do Brasil. Na semana passada, uma missão de autoridades e empresários coreanos concluiu uma série de reuniões na Embrapa, a estatal de pesquisa agropecuária. Os visitantes estavam interessados em parcerias em energia renovável, como álcool e biodiesel. Não são os únicos: na lista dos estrangeiros de olho na tecnologia brasileira para o campo estão suecos, americanos, franceses, holandeses, indianos e chineses.
O prestígio internacional dá orgulho ao empresariado e ao governo do Brasil. Desde as privatizações não se via tanto investimento privado novo num mesmo setor. Até Pedro Paulo Diniz, ex-piloto de Fórmula 1 e empresário do ramo de entretenimento, e sua irmã, Lucila Diniz, herdeiros do grupo Pão de Açúcar, chegaram ao combustível natural. Vão investir cerca de US$ 200 milhões em duas usinas de álcool em Goiás. Para ter uma idéia do fascínio que o álcool vem exercendo, basta contar as liberações de crédito do BNDES.
Até a metade de maio, o BNDES aprovou R$ 1,24 bilhão para projetos no setor. É mais que todo o financiamento de 2005. E há os investimentos internacionais. O mais vultoso anunciado até agora são os US$ 2 bilhões reunidos pelo empresário Ricardo Semler e pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul, na Brazil Renewable Energy (Brenco). A empresa, lançada oficialmente no início do ano, já começou a plantar. Seus planos são construir quatro usinas, no Centro-Oeste, e exportar todo o álcool combustível produzido. Entre os sócios, empresários como Steve Case, fundador da AOL, Vinod Khosla, o multimilionário empreendedor indiano radicado nos Estados Unidos, e James Wolfenson, ex-presidente do Banco Mundial.
Segundo analistas, o Brasil tem potencial para se tornar uma Arábia Saudita verde. Os sauditas faturam US$ 154 bilhões por ano com petróleo. Ninguém arrisca quanto o Brasil ganharia exportando álcool. Mas poderíamos ir até mais longe porque, além de matéria-prima, dominamos a tecnologia da principal energia alternativa das próximas décadas. Receberíamos um volume de investimento sem comparação em nossa história, gerando fortunas empresariais e empregos em massa. Seria uma chance de dar um salto de desenvolvimento.
Essa chance existe porque o alto preço do petróleo e a preocupação com o aquecimento do planeta incentivam a busca por fontes de energia renováveis. O álcool, que o Brasil chegou a abandonar na década de 90, se encaixou nessa história. Embora a trajetória futura do álcool pareça brilhante, e o Brasil esteja na primeira classe, nada garante que não vamos ficar em alguma curva do caminho. Alguns desafios precisam ser enfrentados para o país não repetir o triste enredo de outros ciclos econômicos, como o da borracha, do café e do açúcar.
A borracha guarda curiosas semelhanças com a cana-de-açúcar de hoje. Como a cana, nenhuma seringueira era tão produtiva quanto a brasileira. A Amazônia abastecia o mundo, com uma produção a partir do extrativismo. Durante anos, os ingleses tentaram adaptar a árvore em outros paí ses, onde seria cultivada em grandes plantações. Os cientistas brasileiros não acreditavam no sucesso dessa empreitada, conta o historiador Almir Diniz de Carvalho Junior, professor de História da Universidade Federal do Amazonas. O governo do Brasil chegou a enviar missões à Malásia e recebeu sugestões para também fazer as plantações aqui. Não fez. Em 1910, os ingleses colhiam ótimas safras de borracha de suas plantações na Ásia. Terminava mais um ciclo de exploração das riquezas naturais brasileiras.
INOVAÇÃO
Fernando Reinach, da Votorantim, em um viveiro com variedades de cana. Uma delas, transgênica, pode aumentar em até 80% a produção de álcool
Que erros marcaram esse episódio histórico? Primeiro: o lucro da atividade não foi usado para aprimorar o cultivo, essencialmente extrativista. Segundo: as relações de trabalho primavam pela exploração de mão-de-obra barata, sem a preocupação de criar uma classe consumidora. Terceiro: os exportadores da borracha subestimaram a concorrência internacional. Quarto: o investimento em pesquisas foi irrelevante. Quinto: as exportações estavam concentradas nas mãos de empresas estrangeiras, para quem não fazia diferença onde a seringueira crescia. “A história não se repete, mas passa muito perto disso às vezes”, diz o historiador Carvalho Junior.
Desta vez, no entanto, poderá ser diferente. Para começar, pela primeira vez o Brasil está diante de um ciclo amparado por um grande mercado interno, que por muito tempo será mais importante que o externo. Cerca de 20% da frota nacional roda com álcool (3 milhões de veículos). Esse número tende a aumentar porque 80% dos veículos novos saem das fábricas adaptados para mais de um combustível, incluindo o álcool. Somando o que vai misturado à gasolina, 40% do combustível dos carros nacionais é álcool.
Outra vantagem dos novos tempos é a supremacia brasileira na tecnologia necessária, da agricultura aos motores de carros. Até avião está voando com combustível verde. Essa tecnologia toda é nacional. Para completar, nenhum lugar tem condições naturais tão favoráveis, de clima, luz, solo, e área disponível. “A natureza já fez metade do serviço para a gente. Cabe a nós fazer a outra metade”, diz o consultor Mário Veiga, especialista no mercado de energia.
As perspectivas do álcool serão discutidas no Ethanol Summit, um encontro internacional de empresários, investidores e pesquisadores realizado nesta semana em São Paulo. Na pauta estão os principais desafios que o Brasil precisa enfrentar para virar uma potência do álcool e se desenvolver com ele. São os seguintes:
O que o Brasil tem?
- Nossa cana é a melhor matéria-prima para a produção de álcool
- Há investimentos privados importantes que sustentam a expansão do negócio
- A tecnologia usada no setor é toda nacional, do cultivo à produção de álcool
- O aquecimento global é uma preocupação de todos e o álcool ajuda a reduzir esse efeito
- O mercado interno sustenta a maior parte da demanda por álcool
- Temos as melhores condições de clima e solo
TECNOLOGIA
Nei Pereira Jr. e Lídia Santa Anna, nos laboratórios do centro de pesquisas da Petrobras: liderança tecnológica nacional
1. PADRONIZAR O PRODUTO
O primeiro passo é criar um tipo de álcool que vire referência internacional. Hoje, há várias formulações para o álcool, ou etanol, como é chamado no exterior. Nos Estados Unidos, ele tem uma proporção maior de água que no Brasil. Na Europa, menos. A dificuldade não é técnica. Depende apenas de acordos. Na semana que vem, eles serão debatidos por executivos de 46 empresas de oito países associadas à International Ethanol Trade Association, um órgão privado criado no ano passado para incentivar o comércio do álcool. O grupo tentará eleger o primeiro padrão internacional de etanol, a partir de uma fórmula apresentada por engenheiros brasileiros.
Além disso, os preços oscilam muito em razão da safra, que vai de abril a dezembro em São Paulo, principal região produtora do país. As variações chegam a 30% em um único mês. “Todos perdem, do usineiro ao consumidor”, diz o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE). A solução, segundo Pires, passa por decisões governamentais. As negociações hoje têm amarras impostas pelo órgão regulador, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Uma distribuidora não pode vender para outra, o que restringe o fechamento de contratos de longo prazo, de acordo com Pires. Se, na época da entrega da mercadoria, o comprador não precisar mais de tanto combustível, terá dificuldades para revendê-lo no mercado.
2. ABRIR OS MERCADOS INTERNACIONAIS
O entusiasmo em torno do álcool como alternativa ao petróleo não significa que o mundo queira comprar nosso produto. Os americanos, os maiores produtores mundiais de álcool com os brasileiros, temem a concorrência. O processo deles, a partir do milho, é mais caro e menos eficiente do ponto de vista energético. Hoje, eles estão protegidos por subsídios à produção e uma sobretaxa no álcool importado, que está projetada para acabar no início de 2009. O lobby do setor agrícola americano pretende renovar a sobretaxa. O único álcool que entra nos EUA sem taxa extra é o que vem do Caribe. Empresários brasileiros têm vendido usinas e matéria-prima para o Caribe, aproveitando a brecha. Mas isso não basta.
Vijay Vaitheeswaran, especialista em Energia da revista The Economist e autor do livro Power to the People, relata que a imprensa americana está começando a questionar a eficiência do álcool a partir do milho. “Isso está ajudando a aumentar a consciência do cidadão médio sobre as vantagens do álcool brasileiro, mas, de concreto, nada acontecerá enquanto não caírem as barreiras”, diz Vijay. Especialistas afirmam que a pressão da opinião pública pode ajudar. “O Brasil tem de atacar em todas as frentes, inclusive no marketing”, diz Mario Veiga. “Alguém tem de chegar ao programa da Oprah Winfrey para vender a idéia da gasolina livre de carbono devido à mistura de álcool.”
Fora o marketing, abrir o mercado americano depende de dois fatores. Um é a habilidade da diplomacia para negociar reduções na barreira comercial. Outro está mais nas mãos dos políticos americanos. O presidente George W. Bush anunciou que pretende aumentar o consumo de biocombustíveis, a fim de reduzir a dependência em relação a fornecedores de petróleo instáveis, como a Venezuela. Isso significa que o consumo de álcool, previsto para 20 bilhões de litros neste ano, poderá chegar a 132 bilhões até 2017. É improvável que os produtores americanos dêem conta sozinhos. Precisarão importar. E o Brasil tem o melhor preço.
FUTURO
Luciano Soares num canavial em São Paulo. Filho de pequenos agricultores, ele estuda Química para trabalhar no laboratório das novas usinas
3. MANTER A DIANTEIRA NA AGRICULTURA
Nos anos 70, início do Proálcool, 1 hectare de cana rendia 3.000 litros de álcool. Hoje dá 7.000. É uma conquista do desenvolvimento no campo. Dos laboratórios nacionais saem variedades de plantas cada vez mais produtivas, resistentes à praga e à seca. Para continuar progredindo, o país precisa multiplicar suas iniciativas na área científica, que são boas, mas poucas. “Os americanos investem US$ 1,6 bilhão em tecnologia todo ano. Se não colocarmos dinheiro, amanhã a gente perde a vantagem tecnológica”, diz o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, do Centro de Agronegócios da FGV-SP.
O fisiologista Frederico Durães, diretor da Embrapa Agroenergia, é um dos mentores de uma iniciativa fundamental para nosso futuro tecnológico. Ele articula uma parceria com o setor privado para criar a primeira Empresa de Propósito Específico (EPE), voltada para pesquisas sobre o álcool. Será uma empresa independente da Embrapa, com a missão de repetir o modelo mais usado no Primeiro Mundo: unir o dinheiro privado ao conhecimento público. De um lado, um Q.G. com 2.200 doutores e laboratórios avaliados em mais de US$ 1 milhão, da Embrapa. Do outro, empresas ávidas por inovação, representadas pela Fiesp, a federação paulista de indústrias. Durães planeja colocar a Embrapa na rota de novas pesquisas que vão se somar aos programas de melhoramento genético em outros laboratórios. “Não se pode ter competição em agroenergia. Não existe razão para duplicar esforços”, diz.
Durães é um idealista. Quando circula pela Embrapa, em Brasília, despreza os dois elevadores do prédio. É uma forma de economizar energia. “Desculpe a falta de gentileza, é meu hábito.” Ele está há 25 anos na Embrapa. Diz que, quando recebeu um convite para o setor privado, pelo triplo do que ganhava, estava com o doutorado engatilhado. “Uma empresa privada não me liberaria. Eu não sairia nem para ganhar cinco vezes mais.”
A contrapartida desse idealismo é a movimentação que a iniciativa privada está começando. A CanaVialis, empresa de melhoramento genético do grupo Votorantim, acaba de anunciar uma parceria para troca de tecnologia com a multinacional Monsanto. Agora, testa uma espécie transgênica que contém 80% mais de sacarose (o açúcar da cana) e permite produzir álcool a mais na mesma proporção. “Se ela fosse plantada de uma hora para outra em todo o país, praticamente dobraria a produção de álcool”, diz Fernando Reinach, diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios. A planta ficará em testes por dois anos e precisará de uma autorização especial para entrar no mercado. A CanaVialis já investiu mais de US$ 50 milhões em pesquisas, dobra o faturamento todo ano e se tornou um dos lugares mais atraentes para doutores especializados no ramo, com salários superiores aos pagos por universidades.
Investir em centros assim é uma forma de segurar os pesquisadores no Brasil. Como Nei Pereira Jr., da UFRJ. Aos 54 anos, ele é de uma geração que diz ter optado pelo Brasil por ideologia. Ele estuda álcool há 29 anos. Diz que, quando cursava doutorado em Engenharia Bioquímica na Universidade de Manchester, na Inglaterra, foi convidado para se juntar ao ETH, na Suíça, um dos maiores centros internacionais de pesquisa em sua área. De lá já saíram, até hoje, 21 prêmios Nobel. “Eu era professor licenciado da UFRJ e tinha a obrigação moral de voltar”, diz Nei, sem hesitar. “Só vamos conseguir resolver nossos gargalos tecnológicos quando pesquisa for prioridade absoluta e as parcerias entre empresas e centros acadêmicos funcionarem.”
4. APOSTAR NA TECNOLOGIA INDUSTRIAL
Isso é importante para que o país não perca a dianteira numa linha de pesquisas fundamental: o processo para tirar álcool das folhas e do bagaço das plantas – o álcool celulósico. O processo existe em laboratório, mas é caro e ineficiente. O álcool celulósico elevará a produtividade dos canaviais sem um pé de cana a mais ao utilizar a palha, hoje queimada. Se outro país dominar o ciclo primeiro, nossa cana poderá perder a vantagem comparativa de produtividade para obtenção de álcool.
Os pesquisadores brasileiros encontram-se em diferentes estágios nessa corrida. E nem sempre trabalham juntos. A Petrobras, através do Cenpes, seu centro de pesquisa, inaugura, em algumas semanas, uma usina piloto para produzir álcool celulósico. “Conseguimos obter 220 litros por tonelada de bagaço em laboratório. A planta vai facilitar a avaliação econômica do processo, que precisa ser barateado”, diz Lídia Santa Anna, consultora para biotecnologia do Cenpes. Ela desenvolve o projeto em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro. “O que estamos pesquisando aqui não servirá só para a palha. Poderemos recorrer a outras matérias-primas, como resíduos agrícolas e industriais.” A CanaVialis informa ter sócios americanos donos de patentes importantes para a produção de álcool celulósico. “Temos as peças, mas é como montar um carro que ninguém fez ainda”, diz Fernando Reinach.
Made in Brazil
Duas questões em aberto podem definir o futuro de nosso álcool no mercado internacional
1 – Quanto os EUA vão comprar?
Os EUA produzem um volume de álcool equivalente ao nosso. Mas essa produção só atende a 2% do consumo de combustíveis dos americanos. Se eles aumentarem a mistura de álcool na gasolina para 20%, vão ter de importar. Quanto nós vamos conseguir vender para eles?
Produção de álcool Participação nos combustíveis
EUA (milho)
20 bilhões de toneladas
2%
Brasil (cana)
20 bilhões de toneladas
40%
2– Quantos concorrentes teremos?
A cana é a planta mais eficiente na produção de álcool. São 76 os países com clima apropriado para cultivá-la. E 31 estão na África. Plantar lá pode ser mais barato que no Brasil?
O consumo americano, de 20 bilhões de litros de álcool, poderá chegar a 132 bilhões até 2017. É improvável que os produtores locais forneçam isso tudo sozinhos
BARREIRA
Processamento de milho nos EUA. O país subsidia a produção de etanol local a partir dos grãos. Com isso, barra a venda do álcool brasileiro
5. MELHORAR A INFRA-ESTRUTURA
O álcool brasileiro chega a quase todos os postos de combustível do país. Mas a rede para exportar em larga escala precisa de melhorias. A produção de álcool deverá dobrar até 2012. A questão é como escoar essa produção. A maneira mais eficaz e barata de transportar o combustível são os alcooldutos, dutos que levam álcool. Só existe um no país, ligando instalações da Petrobras em Paulínia, no interior de São Paulo, ao terminal marítimo da empresa na Ilha D’Água, no Rio de Janeiro. Por ele pode passar 1,2 bilhão de litros por ano, mas apenas 25% dessa capacidade está sendo usada. A Petrobras é a promessa mais concreta para resolver a infra-estrutura. A estatal tem US$ 600 milhões para investir na construção de alcooldutos s que interliguem as principais regiões produtoras e compradoras. O projeto prevê a participação de sócios estratégicos, mas ainda não começou. É essencial que saia do papel.
6. GARANTIR A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
Se todo mundo começar a plantar cana, não vai faltar comida? Na teoria, não. A cana ocupa 6,2 milhões de hectares no Brasil. Outros 200 milhões de hectares são pastagens. Um ganho de 10% de produtividade no pasto liberaria 20 milhões de hectares para a expansão dos canaviais. Para atender à demanda mundial por álcool, caso o planeta resolva adicionar 5% de álcool à gasolina, precisaremos de pouco mais que 10 milhões de hectares plantados. O problema é que a vida real não funciona assim. Hoje, não há estímulo para a pecuária aumentar sua produtividade. E a produção de bois do país também tende a crescer. Também há pressão para plantar mais de outros alimentos. É pouco provável que alguém deixe de plantar. O que se teme é que plantadores de cana, pecuaristas e outros agricultores busquem a abertura de novas terras, pressionando as áreas de preservação ambiental.
7. EVITAR O CUSTO AMBIENTAL
Boa parte do prestígio do álcool tem razões ambientais. O combustível natural é uma alternativa à gasolina, cuja combustão gera gases que contribuem para o aquecimento global. “Mas essa vantagem é anulada se, para plantar cana, for necessário desmatar”, diz Christopher Flavin, do instituto Worldwatch, dos EUA. “Ninguém sério estabelece relação direta entre o desmatamento na Amazônia e a expansão da cana. O que existe é o risco para a Mata Atlântica e o Cerrado das regiões canavieiras.” E o perigo de uma compensação indireta: a plantação de cana sobre as pastagens do Sudeste e Centro-Oeste pode aumentar a pressão dos pecuaristas na Amazônia, onde eles já são os principais responsáveis pelo desmatamento ilegal e a grilagem.
A socióloga Laura Tetti, consultora da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), diz que é questionada sobre isso três vezes por semana. Sua melhor resposta é o que vem ocorrendo em São Paulo, Estado que concentra 70% da produção de álcool do país. Em um gráfico, Laura mostra como a área de cana quase dobrou no Estado nos últimos 15 anos. Outro gráfico, com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, sugere que, no mesmo período, a área de remanescentes florestais do Estado cresceu. “Os dados mostram como São Paulo não perdeu florestas para a expansão da cana”, diz Laura. Como? Existem projetos bem-sucedidos de corredores ecológicos em torno de canaviais na região de Piracicaba, em São Paulo. Espécies da Mata Atlântica foram usadas para reflorestar á reas próximas às plantações.
Mas o destino da floresta ainda é incerto em outros Estados, como em Mato Grosso do Sul. Lá, existem projetos para expandir a área de canaviais de 200.000 para 1,2 milhão de hectares. “Só há um compromisso verbal de que o crescimento ocorrerá em áreas de pastagens, mas ninguém garante as reservas de Cerrado e Mata Atlântica da região”, diz Miguel Milano, da ONG Avina. “Claro que dá para plantar com cuidado. Mas não é o que temos visto.” O Ministério Público do Estado ainda está negociando salvaguardas ambientais com os representantes de 41 projetos de novas usinas para a região. Segundo o promotor Alexandre Raslan, eles ainda não concordam em assinar um termo se comprometendo a seguir a legislação ambiental para as s áreas arrendadas. “Isso garantiria a preservação de 20% da vegetação nativa em cada propriedade, como estabelece a lei”, diz.
8. OBTER GANHOS SOCIAIS
A indústria da cana, com pretensões a vôos internacionais, ainda se vê às voltas com problemas constrangedores, como a existência de trabalhadores em condições degradantes. O número de propriedades envolvidas é pequeno, mas a quantidade de trabalhadores libertados em alguns casos pelos fiscais do Ministério do Trabalho não. O caso mais estrondoso até agora foi a libertação de mil trabalhadores na fazenda Gameleira, em Mato Grosso, em 2005.
Mais do que melhorar as condições de trabalho, será preciso mudar o sistema de produção para atender às exigências do mercado externo. Além do trabalho degradante, a colheita da cana pressupõe a queima da plantação. Ela é feita para acabar com a palha da cana, cortante, que pode provocar lesões na pele e nos olhos. O fogo também reduz o risco de acidentes com animais, como cobras, no canavial.
A saída é mecanizar a colheita. Neste ano, 40% dos canaviais paulistas serão cortados à máquina. “Até 2017, esperamos não ter mais áreas queimadas e cortadas à mão no Estado”, diz Antônio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da Única. As máquinas não servem para terrenos inclinados ou plantações pequenas, mas devem substituir a maior parte da mão-de-obra empregada no setor. É um aumento da produtividade. Mas, também, num primeiro momento, um aumento do desemprego no campo. Os cortadores representam metade do 1 milhão de trabalhadores que a cana emprega. Cada colheitadeira substituirá pelo menos cem deles.
Se a mecanização deverá tirar muitos trabalhadores do campo, o estudo poderá colocar parte deles para dentro das usinas ou criar outras oportunidades de emprego. A pedido da associação de produtores, o Centro Paula Souza, a maior rede de escolas técnicas do Estado de São Paulo, criou um curso técnico em açúcar e álcool há seis anos. A idéia inicial era capacitar quem já havia concluído o ensino médio e trabalhava nas usinas. De lá para cá, escolas técnicas espalhadas pelo Estado oferecem o curso, que dura dois anos. Em Osvaldo Cruz, a cerca de 600 quilômetros da capital, a Escola Técnica Amin Jundi está formando 40 alunos neste ano.
Luciano Soares, de 18 anos, está terminando o curso técnico em açúcar e álcool. Trabalha há dois meses no laboratório da usina Clealco, em Clementina, cidade a 60 quilômetros de Osvaldo Cruz. Desde a infância, vivida em parte num sítio onde o pai criava bicho-da-seda, ele queria ser veterinário. Agora, Luciano acredita que a especialização em álcool é sua chance de crescer. “O que está movendo o Brasil é o combustível renovável. O curso é a chave do momento.”
Luciano mora em uma casa com outros cinco rapazes. Todos estão estudando para trabalhar nos laboratórios das usinas da região. A Clealco, que surgiu nos anos 80 com os incentivos do ProÁlcool, hoje cresce 20% ao ano. Já recruta profissionais mais qualificados para a safra do ano que vem. A empresa tem planos de expansão e deverá abrir nos próximos anos mais duas unidades em cidades próximas. Em todo o Oeste Paulista, devem ser abertas 40 usinas até 2010. Dos 160 mil postos de trabalho previstos, pelo menos 27 mil serão para técnicos. É o trabalho mais especializado tornando o lugar do trabalho braçal.
As transformações são um bom exemplo daquilo que o economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) chamou de “destruição criadora”. Segundo ele, “a abertura de novos mercados e o desenvolvimento de formas de organização da mão-de-obra e de produção revolucionam incessantemente a estrutura econômica nacional, destruindo a velha ordem e criando uma nova”. Essa dinâmica seria não apenas a essência do capitalismo, como também a do desenvolvimento econômico.
Os EUA gastam US$ 1,6 bilhão em tecnologia todo ano. O Brasil precisa investir
Em São Paulo, que concentra 70% da produção nacional, as florestas estão crescendo. Mas os usineiros de Mato Grosso do Sul ainda não assinaram compromissos ambientais
Os 8 passos para o Brasil virar uma potência
Isabel Clemente, Alexandre Mansur e Renata Leal
DIANTEIRA
Frederico Durães, mentor da parceria público-privada em tecnologia do álcool, num laboratório da Embrapa. As pesquisas são a chave para aumentar a competitividdae brasileira
A Coréia do Sul é citada à exaustão como exemplo de milagre econômico operado pela alta tecnologia. Na década de 60, era tão pobre quanto as nações miseráveis da África. Em quatro décadas, esse país asiático construiu marcas como Samsung, LG e Hyundai. Os coreanos viraram especialistas em celulares, computadores e carros. Mas, quando o assunto é tecnologia agroindustrial, eles vêm buscar as lições do Brasil. Na semana passada, uma missão de autoridades e empresários coreanos concluiu uma série de reuniões na Embrapa, a estatal de pesquisa agropecuária. Os visitantes estavam interessados em parcerias em energia renovável, como álcool e biodiesel. Não são os únicos: na lista dos estrangeiros de olho na tecnologia brasileira para o campo estão suecos, americanos, franceses, holandeses, indianos e chineses.
O prestígio internacional dá orgulho ao empresariado e ao governo do Brasil. Desde as privatizações não se via tanto investimento privado novo num mesmo setor. Até Pedro Paulo Diniz, ex-piloto de Fórmula 1 e empresário do ramo de entretenimento, e sua irmã, Lucila Diniz, herdeiros do grupo Pão de Açúcar, chegaram ao combustível natural. Vão investir cerca de US$ 200 milhões em duas usinas de álcool em Goiás. Para ter uma idéia do fascínio que o álcool vem exercendo, basta contar as liberações de crédito do BNDES.
Até a metade de maio, o BNDES aprovou R$ 1,24 bilhão para projetos no setor. É mais que todo o financiamento de 2005. E há os investimentos internacionais. O mais vultoso anunciado até agora são os US$ 2 bilhões reunidos pelo empresário Ricardo Semler e pelo ex-presidente da Petrobras Henri Philippe Reichstul, na Brazil Renewable Energy (Brenco). A empresa, lançada oficialmente no início do ano, já começou a plantar. Seus planos são construir quatro usinas, no Centro-Oeste, e exportar todo o álcool combustível produzido. Entre os sócios, empresários como Steve Case, fundador da AOL, Vinod Khosla, o multimilionário empreendedor indiano radicado nos Estados Unidos, e James Wolfenson, ex-presidente do Banco Mundial.
Segundo analistas, o Brasil tem potencial para se tornar uma Arábia Saudita verde. Os sauditas faturam US$ 154 bilhões por ano com petróleo. Ninguém arrisca quanto o Brasil ganharia exportando álcool. Mas poderíamos ir até mais longe porque, além de matéria-prima, dominamos a tecnologia da principal energia alternativa das próximas décadas. Receberíamos um volume de investimento sem comparação em nossa história, gerando fortunas empresariais e empregos em massa. Seria uma chance de dar um salto de desenvolvimento.
Essa chance existe porque o alto preço do petróleo e a preocupação com o aquecimento do planeta incentivam a busca por fontes de energia renováveis. O álcool, que o Brasil chegou a abandonar na década de 90, se encaixou nessa história. Embora a trajetória futura do álcool pareça brilhante, e o Brasil esteja na primeira classe, nada garante que não vamos ficar em alguma curva do caminho. Alguns desafios precisam ser enfrentados para o país não repetir o triste enredo de outros ciclos econômicos, como o da borracha, do café e do açúcar.
A borracha guarda curiosas semelhanças com a cana-de-açúcar de hoje. Como a cana, nenhuma seringueira era tão produtiva quanto a brasileira. A Amazônia abastecia o mundo, com uma produção a partir do extrativismo. Durante anos, os ingleses tentaram adaptar a árvore em outros paí ses, onde seria cultivada em grandes plantações. Os cientistas brasileiros não acreditavam no sucesso dessa empreitada, conta o historiador Almir Diniz de Carvalho Junior, professor de História da Universidade Federal do Amazonas. O governo do Brasil chegou a enviar missões à Malásia e recebeu sugestões para também fazer as plantações aqui. Não fez. Em 1910, os ingleses colhiam ótimas safras de borracha de suas plantações na Ásia. Terminava mais um ciclo de exploração das riquezas naturais brasileiras.
INOVAÇÃO
Fernando Reinach, da Votorantim, em um viveiro com variedades de cana. Uma delas, transgênica, pode aumentar em até 80% a produção de álcool
Que erros marcaram esse episódio histórico? Primeiro: o lucro da atividade não foi usado para aprimorar o cultivo, essencialmente extrativista. Segundo: as relações de trabalho primavam pela exploração de mão-de-obra barata, sem a preocupação de criar uma classe consumidora. Terceiro: os exportadores da borracha subestimaram a concorrência internacional. Quarto: o investimento em pesquisas foi irrelevante. Quinto: as exportações estavam concentradas nas mãos de empresas estrangeiras, para quem não fazia diferença onde a seringueira crescia. “A história não se repete, mas passa muito perto disso às vezes”, diz o historiador Carvalho Junior.
Desta vez, no entanto, poderá ser diferente. Para começar, pela primeira vez o Brasil está diante de um ciclo amparado por um grande mercado interno, que por muito tempo será mais importante que o externo. Cerca de 20% da frota nacional roda com álcool (3 milhões de veículos). Esse número tende a aumentar porque 80% dos veículos novos saem das fábricas adaptados para mais de um combustível, incluindo o álcool. Somando o que vai misturado à gasolina, 40% do combustível dos carros nacionais é álcool.
Outra vantagem dos novos tempos é a supremacia brasileira na tecnologia necessária, da agricultura aos motores de carros. Até avião está voando com combustível verde. Essa tecnologia toda é nacional. Para completar, nenhum lugar tem condições naturais tão favoráveis, de clima, luz, solo, e área disponível. “A natureza já fez metade do serviço para a gente. Cabe a nós fazer a outra metade”, diz o consultor Mário Veiga, especialista no mercado de energia.
As perspectivas do álcool serão discutidas no Ethanol Summit, um encontro internacional de empresários, investidores e pesquisadores realizado nesta semana em São Paulo. Na pauta estão os principais desafios que o Brasil precisa enfrentar para virar uma potência do álcool e se desenvolver com ele. São os seguintes:
O que o Brasil tem?
- Nossa cana é a melhor matéria-prima para a produção de álcool
- Há investimentos privados importantes que sustentam a expansão do negócio
- A tecnologia usada no setor é toda nacional, do cultivo à produção de álcool
- O aquecimento global é uma preocupação de todos e o álcool ajuda a reduzir esse efeito
- O mercado interno sustenta a maior parte da demanda por álcool
- Temos as melhores condições de clima e solo
TECNOLOGIA
Nei Pereira Jr. e Lídia Santa Anna, nos laboratórios do centro de pesquisas da Petrobras: liderança tecnológica nacional
1. PADRONIZAR O PRODUTO
O primeiro passo é criar um tipo de álcool que vire referência internacional. Hoje, há várias formulações para o álcool, ou etanol, como é chamado no exterior. Nos Estados Unidos, ele tem uma proporção maior de água que no Brasil. Na Europa, menos. A dificuldade não é técnica. Depende apenas de acordos. Na semana que vem, eles serão debatidos por executivos de 46 empresas de oito países associadas à International Ethanol Trade Association, um órgão privado criado no ano passado para incentivar o comércio do álcool. O grupo tentará eleger o primeiro padrão internacional de etanol, a partir de uma fórmula apresentada por engenheiros brasileiros.
Além disso, os preços oscilam muito em razão da safra, que vai de abril a dezembro em São Paulo, principal região produtora do país. As variações chegam a 30% em um único mês. “Todos perdem, do usineiro ao consumidor”, diz o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura (CBIE). A solução, segundo Pires, passa por decisões governamentais. As negociações hoje têm amarras impostas pelo órgão regulador, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Uma distribuidora não pode vender para outra, o que restringe o fechamento de contratos de longo prazo, de acordo com Pires. Se, na época da entrega da mercadoria, o comprador não precisar mais de tanto combustível, terá dificuldades para revendê-lo no mercado.
2. ABRIR OS MERCADOS INTERNACIONAIS
O entusiasmo em torno do álcool como alternativa ao petróleo não significa que o mundo queira comprar nosso produto. Os americanos, os maiores produtores mundiais de álcool com os brasileiros, temem a concorrência. O processo deles, a partir do milho, é mais caro e menos eficiente do ponto de vista energético. Hoje, eles estão protegidos por subsídios à produção e uma sobretaxa no álcool importado, que está projetada para acabar no início de 2009. O lobby do setor agrícola americano pretende renovar a sobretaxa. O único álcool que entra nos EUA sem taxa extra é o que vem do Caribe. Empresários brasileiros têm vendido usinas e matéria-prima para o Caribe, aproveitando a brecha. Mas isso não basta.
Vijay Vaitheeswaran, especialista em Energia da revista The Economist e autor do livro Power to the People, relata que a imprensa americana está começando a questionar a eficiência do álcool a partir do milho. “Isso está ajudando a aumentar a consciência do cidadão médio sobre as vantagens do álcool brasileiro, mas, de concreto, nada acontecerá enquanto não caírem as barreiras”, diz Vijay. Especialistas afirmam que a pressão da opinião pública pode ajudar. “O Brasil tem de atacar em todas as frentes, inclusive no marketing”, diz Mario Veiga. “Alguém tem de chegar ao programa da Oprah Winfrey para vender a idéia da gasolina livre de carbono devido à mistura de álcool.”
Fora o marketing, abrir o mercado americano depende de dois fatores. Um é a habilidade da diplomacia para negociar reduções na barreira comercial. Outro está mais nas mãos dos políticos americanos. O presidente George W. Bush anunciou que pretende aumentar o consumo de biocombustíveis, a fim de reduzir a dependência em relação a fornecedores de petróleo instáveis, como a Venezuela. Isso significa que o consumo de álcool, previsto para 20 bilhões de litros neste ano, poderá chegar a 132 bilhões até 2017. É improvável que os produtores americanos dêem conta sozinhos. Precisarão importar. E o Brasil tem o melhor preço.
FUTURO
Luciano Soares num canavial em São Paulo. Filho de pequenos agricultores, ele estuda Química para trabalhar no laboratório das novas usinas
3. MANTER A DIANTEIRA NA AGRICULTURA
Nos anos 70, início do Proálcool, 1 hectare de cana rendia 3.000 litros de álcool. Hoje dá 7.000. É uma conquista do desenvolvimento no campo. Dos laboratórios nacionais saem variedades de plantas cada vez mais produtivas, resistentes à praga e à seca. Para continuar progredindo, o país precisa multiplicar suas iniciativas na área científica, que são boas, mas poucas. “Os americanos investem US$ 1,6 bilhão em tecnologia todo ano. Se não colocarmos dinheiro, amanhã a gente perde a vantagem tecnológica”, diz o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, do Centro de Agronegócios da FGV-SP.
O fisiologista Frederico Durães, diretor da Embrapa Agroenergia, é um dos mentores de uma iniciativa fundamental para nosso futuro tecnológico. Ele articula uma parceria com o setor privado para criar a primeira Empresa de Propósito Específico (EPE), voltada para pesquisas sobre o álcool. Será uma empresa independente da Embrapa, com a missão de repetir o modelo mais usado no Primeiro Mundo: unir o dinheiro privado ao conhecimento público. De um lado, um Q.G. com 2.200 doutores e laboratórios avaliados em mais de US$ 1 milhão, da Embrapa. Do outro, empresas ávidas por inovação, representadas pela Fiesp, a federação paulista de indústrias. Durães planeja colocar a Embrapa na rota de novas pesquisas que vão se somar aos programas de melhoramento genético em outros laboratórios. “Não se pode ter competição em agroenergia. Não existe razão para duplicar esforços”, diz.
Durães é um idealista. Quando circula pela Embrapa, em Brasília, despreza os dois elevadores do prédio. É uma forma de economizar energia. “Desculpe a falta de gentileza, é meu hábito.” Ele está há 25 anos na Embrapa. Diz que, quando recebeu um convite para o setor privado, pelo triplo do que ganhava, estava com o doutorado engatilhado. “Uma empresa privada não me liberaria. Eu não sairia nem para ganhar cinco vezes mais.”
A contrapartida desse idealismo é a movimentação que a iniciativa privada está começando. A CanaVialis, empresa de melhoramento genético do grupo Votorantim, acaba de anunciar uma parceria para troca de tecnologia com a multinacional Monsanto. Agora, testa uma espécie transgênica que contém 80% mais de sacarose (o açúcar da cana) e permite produzir álcool a mais na mesma proporção. “Se ela fosse plantada de uma hora para outra em todo o país, praticamente dobraria a produção de álcool”, diz Fernando Reinach, diretor-executivo da Votorantim Novos Negócios. A planta ficará em testes por dois anos e precisará de uma autorização especial para entrar no mercado. A CanaVialis já investiu mais de US$ 50 milhões em pesquisas, dobra o faturamento todo ano e se tornou um dos lugares mais atraentes para doutores especializados no ramo, com salários superiores aos pagos por universidades.
Investir em centros assim é uma forma de segurar os pesquisadores no Brasil. Como Nei Pereira Jr., da UFRJ. Aos 54 anos, ele é de uma geração que diz ter optado pelo Brasil por ideologia. Ele estuda álcool há 29 anos. Diz que, quando cursava doutorado em Engenharia Bioquímica na Universidade de Manchester, na Inglaterra, foi convidado para se juntar ao ETH, na Suíça, um dos maiores centros internacionais de pesquisa em sua área. De lá já saíram, até hoje, 21 prêmios Nobel. “Eu era professor licenciado da UFRJ e tinha a obrigação moral de voltar”, diz Nei, sem hesitar. “Só vamos conseguir resolver nossos gargalos tecnológicos quando pesquisa for prioridade absoluta e as parcerias entre empresas e centros acadêmicos funcionarem.”
4. APOSTAR NA TECNOLOGIA INDUSTRIAL
Isso é importante para que o país não perca a dianteira numa linha de pesquisas fundamental: o processo para tirar álcool das folhas e do bagaço das plantas – o álcool celulósico. O processo existe em laboratório, mas é caro e ineficiente. O álcool celulósico elevará a produtividade dos canaviais sem um pé de cana a mais ao utilizar a palha, hoje queimada. Se outro país dominar o ciclo primeiro, nossa cana poderá perder a vantagem comparativa de produtividade para obtenção de álcool.
Os pesquisadores brasileiros encontram-se em diferentes estágios nessa corrida. E nem sempre trabalham juntos. A Petrobras, através do Cenpes, seu centro de pesquisa, inaugura, em algumas semanas, uma usina piloto para produzir álcool celulósico. “Conseguimos obter 220 litros por tonelada de bagaço em laboratório. A planta vai facilitar a avaliação econômica do processo, que precisa ser barateado”, diz Lídia Santa Anna, consultora para biotecnologia do Cenpes. Ela desenvolve o projeto em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro. “O que estamos pesquisando aqui não servirá só para a palha. Poderemos recorrer a outras matérias-primas, como resíduos agrícolas e industriais.” A CanaVialis informa ter sócios americanos donos de patentes importantes para a produção de álcool celulósico. “Temos as peças, mas é como montar um carro que ninguém fez ainda”, diz Fernando Reinach.
Made in Brazil
Duas questões em aberto podem definir o futuro de nosso álcool no mercado internacional
1 – Quanto os EUA vão comprar?
Os EUA produzem um volume de álcool equivalente ao nosso. Mas essa produção só atende a 2% do consumo de combustíveis dos americanos. Se eles aumentarem a mistura de álcool na gasolina para 20%, vão ter de importar. Quanto nós vamos conseguir vender para eles?
Produção de álcool Participação nos combustíveis
EUA (milho)
20 bilhões de toneladas
2%
Brasil (cana)
20 bilhões de toneladas
40%
2– Quantos concorrentes teremos?
A cana é a planta mais eficiente na produção de álcool. São 76 os países com clima apropriado para cultivá-la. E 31 estão na África. Plantar lá pode ser mais barato que no Brasil?
O consumo americano, de 20 bilhões de litros de álcool, poderá chegar a 132 bilhões até 2017. É improvável que os produtores locais forneçam isso tudo sozinhos
BARREIRA
Processamento de milho nos EUA. O país subsidia a produção de etanol local a partir dos grãos. Com isso, barra a venda do álcool brasileiro
5. MELHORAR A INFRA-ESTRUTURA
O álcool brasileiro chega a quase todos os postos de combustível do país. Mas a rede para exportar em larga escala precisa de melhorias. A produção de álcool deverá dobrar até 2012. A questão é como escoar essa produção. A maneira mais eficaz e barata de transportar o combustível são os alcooldutos, dutos que levam álcool. Só existe um no país, ligando instalações da Petrobras em Paulínia, no interior de São Paulo, ao terminal marítimo da empresa na Ilha D’Água, no Rio de Janeiro. Por ele pode passar 1,2 bilhão de litros por ano, mas apenas 25% dessa capacidade está sendo usada. A Petrobras é a promessa mais concreta para resolver a infra-estrutura. A estatal tem US$ 600 milhões para investir na construção de alcooldutos s que interliguem as principais regiões produtoras e compradoras. O projeto prevê a participação de sócios estratégicos, mas ainda não começou. É essencial que saia do papel.
6. GARANTIR A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS
Se todo mundo começar a plantar cana, não vai faltar comida? Na teoria, não. A cana ocupa 6,2 milhões de hectares no Brasil. Outros 200 milhões de hectares são pastagens. Um ganho de 10% de produtividade no pasto liberaria 20 milhões de hectares para a expansão dos canaviais. Para atender à demanda mundial por álcool, caso o planeta resolva adicionar 5% de álcool à gasolina, precisaremos de pouco mais que 10 milhões de hectares plantados. O problema é que a vida real não funciona assim. Hoje, não há estímulo para a pecuária aumentar sua produtividade. E a produção de bois do país também tende a crescer. Também há pressão para plantar mais de outros alimentos. É pouco provável que alguém deixe de plantar. O que se teme é que plantadores de cana, pecuaristas e outros agricultores busquem a abertura de novas terras, pressionando as áreas de preservação ambiental.
7. EVITAR O CUSTO AMBIENTAL
Boa parte do prestígio do álcool tem razões ambientais. O combustível natural é uma alternativa à gasolina, cuja combustão gera gases que contribuem para o aquecimento global. “Mas essa vantagem é anulada se, para plantar cana, for necessário desmatar”, diz Christopher Flavin, do instituto Worldwatch, dos EUA. “Ninguém sério estabelece relação direta entre o desmatamento na Amazônia e a expansão da cana. O que existe é o risco para a Mata Atlântica e o Cerrado das regiões canavieiras.” E o perigo de uma compensação indireta: a plantação de cana sobre as pastagens do Sudeste e Centro-Oeste pode aumentar a pressão dos pecuaristas na Amazônia, onde eles já são os principais responsáveis pelo desmatamento ilegal e a grilagem.
A socióloga Laura Tetti, consultora da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Única), diz que é questionada sobre isso três vezes por semana. Sua melhor resposta é o que vem ocorrendo em São Paulo, Estado que concentra 70% da produção de álcool do país. Em um gráfico, Laura mostra como a área de cana quase dobrou no Estado nos últimos 15 anos. Outro gráfico, com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, sugere que, no mesmo período, a área de remanescentes florestais do Estado cresceu. “Os dados mostram como São Paulo não perdeu florestas para a expansão da cana”, diz Laura. Como? Existem projetos bem-sucedidos de corredores ecológicos em torno de canaviais na região de Piracicaba, em São Paulo. Espécies da Mata Atlântica foram usadas para reflorestar á reas próximas às plantações.
Mas o destino da floresta ainda é incerto em outros Estados, como em Mato Grosso do Sul. Lá, existem projetos para expandir a área de canaviais de 200.000 para 1,2 milhão de hectares. “Só há um compromisso verbal de que o crescimento ocorrerá em áreas de pastagens, mas ninguém garante as reservas de Cerrado e Mata Atlântica da região”, diz Miguel Milano, da ONG Avina. “Claro que dá para plantar com cuidado. Mas não é o que temos visto.” O Ministério Público do Estado ainda está negociando salvaguardas ambientais com os representantes de 41 projetos de novas usinas para a região. Segundo o promotor Alexandre Raslan, eles ainda não concordam em assinar um termo se comprometendo a seguir a legislação ambiental para as s áreas arrendadas. “Isso garantiria a preservação de 20% da vegetação nativa em cada propriedade, como estabelece a lei”, diz.
8. OBTER GANHOS SOCIAIS
A indústria da cana, com pretensões a vôos internacionais, ainda se vê às voltas com problemas constrangedores, como a existência de trabalhadores em condições degradantes. O número de propriedades envolvidas é pequeno, mas a quantidade de trabalhadores libertados em alguns casos pelos fiscais do Ministério do Trabalho não. O caso mais estrondoso até agora foi a libertação de mil trabalhadores na fazenda Gameleira, em Mato Grosso, em 2005.
Mais do que melhorar as condições de trabalho, será preciso mudar o sistema de produção para atender às exigências do mercado externo. Além do trabalho degradante, a colheita da cana pressupõe a queima da plantação. Ela é feita para acabar com a palha da cana, cortante, que pode provocar lesões na pele e nos olhos. O fogo também reduz o risco de acidentes com animais, como cobras, no canavial.
A saída é mecanizar a colheita. Neste ano, 40% dos canaviais paulistas serão cortados à máquina. “Até 2017, esperamos não ter mais áreas queimadas e cortadas à mão no Estado”, diz Antônio de Padua Rodrigues, diretor-técnico da Única. As máquinas não servem para terrenos inclinados ou plantações pequenas, mas devem substituir a maior parte da mão-de-obra empregada no setor. É um aumento da produtividade. Mas, também, num primeiro momento, um aumento do desemprego no campo. Os cortadores representam metade do 1 milhão de trabalhadores que a cana emprega. Cada colheitadeira substituirá pelo menos cem deles.
Se a mecanização deverá tirar muitos trabalhadores do campo, o estudo poderá colocar parte deles para dentro das usinas ou criar outras oportunidades de emprego. A pedido da associação de produtores, o Centro Paula Souza, a maior rede de escolas técnicas do Estado de São Paulo, criou um curso técnico em açúcar e álcool há seis anos. A idéia inicial era capacitar quem já havia concluído o ensino médio e trabalhava nas usinas. De lá para cá, escolas técnicas espalhadas pelo Estado oferecem o curso, que dura dois anos. Em Osvaldo Cruz, a cerca de 600 quilômetros da capital, a Escola Técnica Amin Jundi está formando 40 alunos neste ano.
Luciano Soares, de 18 anos, está terminando o curso técnico em açúcar e álcool. Trabalha há dois meses no laboratório da usina Clealco, em Clementina, cidade a 60 quilômetros de Osvaldo Cruz. Desde a infância, vivida em parte num sítio onde o pai criava bicho-da-seda, ele queria ser veterinário. Agora, Luciano acredita que a especialização em álcool é sua chance de crescer. “O que está movendo o Brasil é o combustível renovável. O curso é a chave do momento.”
Luciano mora em uma casa com outros cinco rapazes. Todos estão estudando para trabalhar nos laboratórios das usinas da região. A Clealco, que surgiu nos anos 80 com os incentivos do ProÁlcool, hoje cresce 20% ao ano. Já recruta profissionais mais qualificados para a safra do ano que vem. A empresa tem planos de expansão e deverá abrir nos próximos anos mais duas unidades em cidades próximas. Em todo o Oeste Paulista, devem ser abertas 40 usinas até 2010. Dos 160 mil postos de trabalho previstos, pelo menos 27 mil serão para técnicos. É o trabalho mais especializado tornando o lugar do trabalho braçal.
As transformações são um bom exemplo daquilo que o economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950) chamou de “destruição criadora”. Segundo ele, “a abertura de novos mercados e o desenvolvimento de formas de organização da mão-de-obra e de produção revolucionam incessantemente a estrutura econômica nacional, destruindo a velha ordem e criando uma nova”. Essa dinâmica seria não apenas a essência do capitalismo, como também a do desenvolvimento econômico.
Os EUA gastam US$ 1,6 bilhão em tecnologia todo ano. O Brasil precisa investir
Em São Paulo, que concentra 70% da produção nacional, as florestas estão crescendo. Mas os usineiros de Mato Grosso do Sul ainda não assinaram compromissos ambientais
domingo, maio 27, 2007
213) Morte de Eugen Weber, historiador da Franca
Eugen Weber, Authority on Modern France, Dies at 82
ANDREW L. YARROW
New York Times, May 22, 2007
Eugen Weber, the Romanian-born, English-educated American historian who was one of the world’s foremost interpreters of modern France and an authority on modern Europe, died Thursday at his home in Los Angeles, where he had taught at U.C.L.A. and was a former dean of its College of Letters and Science. He was 82.
The cause was pancreatic cancer, the university said.
Mr. Weber’s accessible style made him popular among students, historians and the public in the United States as well as in France, where his books on modern French history are considered classics. Over the years, hundreds of thousands of students got their first taste of modern European history from Mr. Weber’s best-selling textbooks like “A Modern History of Europe” (1971) and “Europe Since 1715: A Modern History” (1972).
And he was a familiar, charming presence to Americans who saw his acclaimed 52-part lecture series, “The Western Tradition,” produced by WGBH in Boston for public television in 1989. It became the basis of a video instructional series with companion books that students have used ever since.
Mr. Weber wrote about French history and taught it in the United States for more than 40 years. He published more than a dozen distinguished books, which have been translated into more than half a dozen languages. He was a professor of modern European history at the University of California at Los Angeles, and his classes were so popular that he became a campus celebrity. A chair there was endowed in his name.
Mr. Weber was encyclopedic in his depiction of an era, a movement or a social trend, focusing more on the many facets of everyday life than on historical theories. History, he wrote in “Europe Since 1715,” was “not just the epic of collective deeds, but the tissue of the times; not just what happened, but to whom and how; not just wars and politics, the doings of a relatively restricted group, but the way people lived — humbler and middling people, and the rich as well — their food, their housing, the warp and woof of their existence.”
Mr. Weber’s work was admired in the country that so fascinated him. Tony Judt, a professor of history at New York University and a leading writer on French history, once observed:
“On the whole, the French write their own history and write it with much sophistication. But occasionally they come across a foreigner who does it differently or better, and then, with much fanfare and generosity, they adopt him for their own. Such is the case of Eugen Weber.”
At least two of Mr. Weber’s works have become standard reading in France: “Action Française: Royalism and Reaction in Twentieth-Century France” (1962), a history of the royalist movement, which dominated the French right from the Dreyfus Affair until 1940; and “Peasants Into Frenchmen: The Modernization of Rural France, 1870-1914” (1976), an account of how a country that was still largely rural, “inhabited by savages” and a hodgepodge of cultures was transformed in the half-century after the Franco-Prussian War of 1870-71.
Mr. Weber maintained that before the 20th century, France was largely “a Parisian political project rather than a national reality.” Modern French identity, he said, was a relatively recent creation, a product of mass education, conscription and the coming of modern communications. After “Peasants” was published, Mr. Judt said, Mr. Weber’s thesis became the new orthodoxy.
Several of Mr. Weber’s books explored the development of right-wing nationalism in Europe. To Mr. Weber, nationalism had changed from a humanitarian, Enlightenment-based movement in the early 19th century into an angry, “tribal” and “exclusivist” movement in the 20th century. Despite its affinities with the historic right, the virulent, xenophobic and radical nationalism of the 20th century, he concluded, was statist and anti-individualistic.
In “The Nationalist Revival in France: 1905-1914,” published in 1959, Mr. Weber traced French right-wing nationalism from its royalist roots during the Third Republic beginning in the 1870s to the fascism of the Vichy regime in World War II.
Mr. Weber took a pragmatic approach to history. “Nothing is more concrete than history, nothing less interested in theories or in abstract ideas,” he once wrote. “The great historians have fewer ideas about history than amateurs do; they merely have a way of ordering their facts to tell their story. It isn’t theories they look for, but information, documents, and ideas about how to find and handle them.”
Eugen Joseph Weber was born in Bucharest, Romania, on April 24, 1925, the son of Sonia and Emmanuel Weber, an industrialist. At age 12, he was sent to boarding school in Herne Bay, in southeastern England, and later to Ashville College in the Lake District.
After graduating in 1943, he joined the British Army and was stationed in Belgium, India and occupied Germany. He rose to captain in the King’s Own Scottish Borderers, one of Britain’s oldest regiments. After his service ended in 1947, he attended Cambridge.
While at Cambridge, Mr. Weber spent two yearlong interludes in Paris, studying at the Institut d’Études Politiques and teaching English at the suburban Lycée Lakanal. He fell for France, he said, “just as one falls into love.”
While in London he met Jacqueline Brument, who was taking classes in art history. They married in 1950. Mr. Weber always said that he wrote for his wife, who is his only immediate survivor.
Mr. Weber spent a year as a visiting lecturer at U.C.L.A. and decided in 1954 to move permanently to North America. He taught at the University of Alberta in Edmonton and the University of Iowa before rejoining the U.C.L.A. faculty in 1956. The move began a tenure that was to last the rest of his life, interrupted only by visiting professorships and other academic work in France and the United States.
Mr. Weber helped to build the U.C.L.A. history department into one of the nation’s best. He was also dean of social sciences in 1976 and dean of the College of Letters and Sciences from 1977 to 1982.
Among his other books are “Paths to the Present: Aspects of European Thought From Romanticism to Existentialism” (1960); “Varieties of Fascism: Doctrines of Revolution in the Twentieth Century” (1964); “The European Right: A Historical Profile” (1965), which he edited and wrote with Hans Rogger, a colleague at U.C.L.A.; “La Fin des Terroirs” (1983); “France: Fin de Siècle” (1986); “The Hollow Years: France in the 1930s” (1994); and “Apocalypses: Prophecies, Cults and Millennial Beliefs Through the Ages” (1999).
Mr. Weber was a Fulbright and Guggenheim fellow and in 1977 was decorated with the Ordre National des Palmes Académiques for his contribution to French culture.
In his introduction to a book of collected essays, “My France: Politics, Culture, Myth” (1991), Mr. Weber admitted to having a mind that was “more like a jumbly hayloft than an orderly library.” Tireless in pursuit of detail, he delighted in sharing the fruits of a lifetime spent in provincial archives.
In a review of “My France” for The New York Times Book Review, Mr. Judt gave an example of Mr. Weber’s feel for France and his “richly textured sense of the complex otherness of the recent past” by noting his discussion of why it took “La Marseillaise” almost a century to emerge from a Strasbourg drawing room on April 26, 1792, as the battle song of the Rhine Army to become the French national anthem.
“Mr. Weber reminds the reader that in 1790 only about three million people could speak French; as late as 1893, about one-quarter of the population of 30 million still had not mastered the national language,” Mr. Judt wrote. “Small wonder that it took so long for the ‘Marseillaise’ to catch on — many of those trying to learn the words could not understand them.”
ANDREW L. YARROW
New York Times, May 22, 2007
Eugen Weber, the Romanian-born, English-educated American historian who was one of the world’s foremost interpreters of modern France and an authority on modern Europe, died Thursday at his home in Los Angeles, where he had taught at U.C.L.A. and was a former dean of its College of Letters and Science. He was 82.
The cause was pancreatic cancer, the university said.
Mr. Weber’s accessible style made him popular among students, historians and the public in the United States as well as in France, where his books on modern French history are considered classics. Over the years, hundreds of thousands of students got their first taste of modern European history from Mr. Weber’s best-selling textbooks like “A Modern History of Europe” (1971) and “Europe Since 1715: A Modern History” (1972).
And he was a familiar, charming presence to Americans who saw his acclaimed 52-part lecture series, “The Western Tradition,” produced by WGBH in Boston for public television in 1989. It became the basis of a video instructional series with companion books that students have used ever since.
Mr. Weber wrote about French history and taught it in the United States for more than 40 years. He published more than a dozen distinguished books, which have been translated into more than half a dozen languages. He was a professor of modern European history at the University of California at Los Angeles, and his classes were so popular that he became a campus celebrity. A chair there was endowed in his name.
Mr. Weber was encyclopedic in his depiction of an era, a movement or a social trend, focusing more on the many facets of everyday life than on historical theories. History, he wrote in “Europe Since 1715,” was “not just the epic of collective deeds, but the tissue of the times; not just what happened, but to whom and how; not just wars and politics, the doings of a relatively restricted group, but the way people lived — humbler and middling people, and the rich as well — their food, their housing, the warp and woof of their existence.”
Mr. Weber’s work was admired in the country that so fascinated him. Tony Judt, a professor of history at New York University and a leading writer on French history, once observed:
“On the whole, the French write their own history and write it with much sophistication. But occasionally they come across a foreigner who does it differently or better, and then, with much fanfare and generosity, they adopt him for their own. Such is the case of Eugen Weber.”
At least two of Mr. Weber’s works have become standard reading in France: “Action Française: Royalism and Reaction in Twentieth-Century France” (1962), a history of the royalist movement, which dominated the French right from the Dreyfus Affair until 1940; and “Peasants Into Frenchmen: The Modernization of Rural France, 1870-1914” (1976), an account of how a country that was still largely rural, “inhabited by savages” and a hodgepodge of cultures was transformed in the half-century after the Franco-Prussian War of 1870-71.
Mr. Weber maintained that before the 20th century, France was largely “a Parisian political project rather than a national reality.” Modern French identity, he said, was a relatively recent creation, a product of mass education, conscription and the coming of modern communications. After “Peasants” was published, Mr. Judt said, Mr. Weber’s thesis became the new orthodoxy.
Several of Mr. Weber’s books explored the development of right-wing nationalism in Europe. To Mr. Weber, nationalism had changed from a humanitarian, Enlightenment-based movement in the early 19th century into an angry, “tribal” and “exclusivist” movement in the 20th century. Despite its affinities with the historic right, the virulent, xenophobic and radical nationalism of the 20th century, he concluded, was statist and anti-individualistic.
In “The Nationalist Revival in France: 1905-1914,” published in 1959, Mr. Weber traced French right-wing nationalism from its royalist roots during the Third Republic beginning in the 1870s to the fascism of the Vichy regime in World War II.
Mr. Weber took a pragmatic approach to history. “Nothing is more concrete than history, nothing less interested in theories or in abstract ideas,” he once wrote. “The great historians have fewer ideas about history than amateurs do; they merely have a way of ordering their facts to tell their story. It isn’t theories they look for, but information, documents, and ideas about how to find and handle them.”
Eugen Joseph Weber was born in Bucharest, Romania, on April 24, 1925, the son of Sonia and Emmanuel Weber, an industrialist. At age 12, he was sent to boarding school in Herne Bay, in southeastern England, and later to Ashville College in the Lake District.
After graduating in 1943, he joined the British Army and was stationed in Belgium, India and occupied Germany. He rose to captain in the King’s Own Scottish Borderers, one of Britain’s oldest regiments. After his service ended in 1947, he attended Cambridge.
While at Cambridge, Mr. Weber spent two yearlong interludes in Paris, studying at the Institut d’Études Politiques and teaching English at the suburban Lycée Lakanal. He fell for France, he said, “just as one falls into love.”
While in London he met Jacqueline Brument, who was taking classes in art history. They married in 1950. Mr. Weber always said that he wrote for his wife, who is his only immediate survivor.
Mr. Weber spent a year as a visiting lecturer at U.C.L.A. and decided in 1954 to move permanently to North America. He taught at the University of Alberta in Edmonton and the University of Iowa before rejoining the U.C.L.A. faculty in 1956. The move began a tenure that was to last the rest of his life, interrupted only by visiting professorships and other academic work in France and the United States.
Mr. Weber helped to build the U.C.L.A. history department into one of the nation’s best. He was also dean of social sciences in 1976 and dean of the College of Letters and Sciences from 1977 to 1982.
Among his other books are “Paths to the Present: Aspects of European Thought From Romanticism to Existentialism” (1960); “Varieties of Fascism: Doctrines of Revolution in the Twentieth Century” (1964); “The European Right: A Historical Profile” (1965), which he edited and wrote with Hans Rogger, a colleague at U.C.L.A.; “La Fin des Terroirs” (1983); “France: Fin de Siècle” (1986); “The Hollow Years: France in the 1930s” (1994); and “Apocalypses: Prophecies, Cults and Millennial Beliefs Through the Ages” (1999).
Mr. Weber was a Fulbright and Guggenheim fellow and in 1977 was decorated with the Ordre National des Palmes Académiques for his contribution to French culture.
In his introduction to a book of collected essays, “My France: Politics, Culture, Myth” (1991), Mr. Weber admitted to having a mind that was “more like a jumbly hayloft than an orderly library.” Tireless in pursuit of detail, he delighted in sharing the fruits of a lifetime spent in provincial archives.
In a review of “My France” for The New York Times Book Review, Mr. Judt gave an example of Mr. Weber’s feel for France and his “richly textured sense of the complex otherness of the recent past” by noting his discussion of why it took “La Marseillaise” almost a century to emerge from a Strasbourg drawing room on April 26, 1792, as the battle song of the Rhine Army to become the French national anthem.
“Mr. Weber reminds the reader that in 1790 only about three million people could speak French; as late as 1893, about one-quarter of the population of 30 million still had not mastered the national language,” Mr. Judt wrote. “Small wonder that it took so long for the ‘Marseillaise’ to catch on — many of those trying to learn the words could not understand them.”
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