AS ESQUERDAS E O MERCADO
por Paulo G. M. de Moura, cientista político
Blog Diego Casagrande, 11 de dezembro 2006
Existem dois paradigmas econômicos básicos. Por um lado, o paradigma liberal/capitalista, que tem como vértice central o princípio da liberdade de mercado e, conseqüentemente, a não intromissão do Estado nos assuntos econômicos de caráter privado; e, por outro, o paradigma marxista/socialista, que preconiza o planejamento estatal e o comando centralizado e planejado sobre as atividades econômicas e, no limite, a impossibilidade de qualquer atividade econômica de caráter privado.
Considero a experiência da social-democracia um modelo variante do paradigma liberal, visto que pressupõe a liberdade de mercado, embora regulada pelo Estado mediante o recurso ao controle ou à intervenção estatal sobre segmentos das atividades de mercado, ou ainda, mediante a atuação do Estado como empreendedor monopolista ou competidor com as atividades econômicas privadas. Sob esse ponto de vista, portanto, a própria emergência da Social-Democracia na cena política do século XX é aqui interpretada como um indicador da correlação de forças entre os dois paradigmas (liberal e marxista), que desde o final do século XIX disputavam a hegemonia política e ideológica sobre a sociedade contemporânea. Os marxistas começaram a perder essa briga bem mais cedo do parece.
O surgimento da Social-Democracia como corrente política no final do século XIX e primeira metade do século XX é expressão do abandono da perspectiva revolucionária preconizada por Marx e da rendição da burocracia operária e sindical, notadamente na Alemanha e depois em outros países europeus, ao capitalismo. Na prática, esse fenômeno representou um processo de cooptação e integração social e econômica das bases sociais do movimento socialista mundial, ao paradigma capitalista. Ainda que aceitando diferentes graus de ingerência do Estado na economia, a evolução do pensamento econômico da Social-Democracia no mundo contemporâneo revela muito mais um processo contínuo de concessão das esquerdas ao pensamento liberal em matéria econômica e política do que seu inverso.
Esse processo de caráter político-ideológico encontrou correspondência no âmbito social, através de um mecanismo lento e gradual de concessão de benefícios econômicos (melhorias salariais e nas condições de trabalho, participação nos lucros das empresas, acesso a postos de direção das empresas, seguro desemprego, previdência social, etc.), que aos poucos criou condições para a integração das bases sociais dos sindicatos e partidos operários à lógica do sistema capitalista e da economia de mercado. Como conseqüência disso, arrefeceu-se o ímpeto revolucionário do proletariado, classe social que, na teoria marxista, deveria ser agente ativo da transformação do capitalismo em direção ao socialismo.
Não obstante a ocorrência desse processo econômico, social e político, especialmente na Europa no decorrer da primeira metade do século XX, o socialismo de inspiração marxista também avançou globalmente. Esse avanço político do paradigma socialista, no entanto, somente ocorreu, inclusive contra o que pensava Marx, na Rússia, um país que passou do feudalismo ao socialismo praticamente sem “escala”. Sua expansão posterior, com exceção talvez da Hungria, resultou da ocupação da Europa do Leste pelo Exército Vermelho, durante e após a Segunda Guerra Mundial. Somente Vietnã, Coréia, Cuba, China 50 e a Nicarágua reproduziram processos revolucionários de cunho socialista após a Revolução Russa de 1917. Nenhuma dessas revoluções aconteceu segundo o manual previsto por Marx. Todos esses casos têm destino político e econômico conhecido.
Por essa razão, fica extremamente difícil (para quem o pretenda) defender a idéia de que a expansão do paradigma socialista sobre quase dois terços do território mundial do início do século XX até a década de 80, decorra do sucesso e da superioridade qualitativa (em termos de produtividade e competitividade) desse sistema econômico e desse regime político sobre o sistema capitalista de livre mercado econômico e político. Pelo contrário, o que o mundo testemunhou, foi a progressiva burocratização e atrofia do socialismo como sistema social, político e econômico; sua integração gradual e progressiva ao sistema de mercado no âmbito mundial; sua perda de competitividade na corrida pelo desenvolvimento científico e tecnológico e pela produção dos novos conhecimentos (em termos gerais e em relação aos conhecimentos aplicados ao gerenciamento da produção); a corrosão social e econômica das condições de vida da população dos países em que vigorava o paradigma da economia de comando estatal centralizado; e por fim, sua derrota política na virada da década de oitenta para a década de noventa do século XX, tendo como ícones maiores a desintegração da URSS e a queda do Muro de Berlim.
Interessante observar que, embora a burocratização e decadência do socialismo realmente existente tenham gerado dissidências políticas em relação ao modelo implantado na URSS desde cedo, sendo o trotskismo surgido já na década de vinte sua expressão pioneira e mais persistente, nenhuma das correntes políticas dissidentes do socialismo real divergiu do paradigma marxista no que diz respeito à sua orientação para a economia de comando estatal centralizado. As tentativas de buscar formulações alternativas a esse paradigma, tanto no campo do socialismo oficialista como no campo dissidente, sempre foram execradas e caracterizadas como desvios revisionistas e, ao serem dogmaticamente rotuladas, tiveram seus formuladores desqualificados (senão severamente punidos e até assassinados pelos governos comunistas) como defensores dessas posições no pensamento econômico de esquerda. Dessa forma, ainda que a dissidência seja uma marca constante entre as esquerdas no que diz respeito à condução dos rumos políticos do movimento em direção ao socialismo teoricamente almejado, em matéria econômica, o debate jamais cogitou qualquer tipo de questionamento aos dogmas da ortodoxia marxista.
Ambas as partes, oficialista e dissidente, acusavam-se mutuamente de trair a classe operária e os princípios básicos da teoria marxista no que diz respeito aos seus aspectos políticos. Para os dois lados, no entanto, questionar o paradigma do controle total do Estado sobre a economia e aceitar qualquer formulação de teorias econômicas que admitissem um modelo de socialismo compatível com a liberdade de mercado era algo visto, com razão, como heresia.
Somente depois do fim a URSS, quando a decadência econômica, social e política do socialismo realmente existente se revelou aguda e quando a perda de capacidade competitiva desse sistema em relação às economias capitalistas ocidentais se tornou demasiado evidente, surgiram tentativas insipientes no sentido de buscar alternativas de compatibilização entre socialismo e mercado.
Embora a experiência do socialismo realmente existente tenha produzido um movimento de contestação aos regimes implantados em algumas partes do mundo sob essa bandeira, e com eles tenham surgido formulações críticas a aspectos políticos desses regimes (denúncia da burocratização, do autoritarismo, etc.), as tentativas de intelectuais de esquerda no sentido de compatibilizar socialismo e mercado são bastante recentes e a produção teórica nesse campo é igualmente escassa. Um dos autores contemporâneos que se dedicou a revisar a bibliografia existente e a sistematizar conhecimentos nesse campo, foi Alec Nove. Nove assim define seu conceito de socialismo possível: “(. . .) por possível ou factível quero dizer um estado de coisas que possa existir na maior parte do mundo desenvolvido, no decorrer da vida de uma criança já concebida, sem termos de fazer ou aceitar suposições plausíveis ou artificiais acerca da sociedade, dos seres humanos e da economia. Isso significa sem dúvida, excluir a abundância (no sentido de que a oferta se equilibra com a demanda a preço zero, desaparece o custo oportunidade). Naturalmente supomos a existência do Estado; na verdade, ele terá importantes funções políticas e econômicas. O Estado não pode ser comandado, de maneira que funcione, por todos os cidadãos, o que significa que haverá divisão entre governantes e governados. Ainda, navios terão capitães, jornais terão editores, fábricas terão gerentes, escritórios de planificação terão chefes, de modo que haverá abuso de poder e que, portanto, será preciso criar instituições que minimizem este perigo.“
Do ponto de vista político, ao contrário do ocorrido no socialismo real, Nove reconhece a necessidade da existência do pluralismo partidário, a realização de eleições periódicas, e a existência de um parlamento. Do ponto de vista econômico são parcas as tentativas de formular um modelo de socialismo de mercado. Os poucos registros na história, de iniciativas dos autores clássicos do marxismo no sentido de buscar formular conhecimentos novos sobre o funcionamento da economia sob o regime socialista, quando existem, são de pouca relevância, senão equivocados. O próprio Marx não só jamais formulou qualquer descrição sistemática sobre a sociedade comunista em funcionamento, como considerava tolas, ineficientes e reacionárias quaisquer tentativas nesse sentido. Marx nunca apresentou uma visão coerente sobre como o capitalismo chegaria ao fim. Nunca avançou uma vírgula sequer, na direção de afirmar se ele iria despedaçar-se repentinamente e parar de funcionar de uma hora para outra; se mergulharia em um nível de crise crônica como Kautski acreditou por muitos anos, ou se a revolução socialista iria bloquear e reverter essa crise após ela atingir seu nível crônico mais crítico, como pensava Rosa Luxemburgo.
Como conseqüência, a definição de socialismo, tal como se tornou predominante entre as esquerdas sempre trouxe como pressuposto implícito o fato de que os problemas econômicos não existiriam sob a vigência do socialismo. A pressuposição da abundância de recursos a serem distribuídos na sociedade - inerente às teorias socialistas - sugere a possibilidade da inexistência dos custos de oportunidade, implícitas à realidade do mercado, visto que, a teoria socialista entende que sob essas circunstâncias não haveria escolhas mutuamente exclusivas a serem feitas pelos integrantes dessa sociedade.
O homem da sociedade socialista, idealizado pela teoria, seria racional, intelectualmente brilhante, desprovido das ambições e motivações características da sociedade de mercado, ou dos desvios de conduta ética e moral que tentam a alma humana. Um santo. O “novo homem” de que falava Guevara e fala Frei Beto. Tendo suas necessidades básicas satisfeitas, dispensaria a necessidade de qualquer tipo de incentivo, o que faria com que desaparecem os problemas relativos ao conflito de interesses, à disciplina e à motivação. Na medida em que os membros da sociedade socialista teriam condições de saber com antecedência o que precisa ser produzido para satisfazer as necessidades de todos os indivíduos a qualquer tempo e sob quaisquer circunstâncias, assim como a maneira correta de produzir, distribuir e utilizar todos os produtos, eliminar-se-ia a necessidade de verificação posterior da eficácia e equanimidade do processo de distribuição. Dessa forma, o vínculo indireto entre o valor de uso e o valor de troca, que no sistema capitalista realiza-se de forma desigual no mercado, poderia ser substituído por decisões humanas diretas e conscientes sobre a produção e o uso planejados pelo Estado.
Do ponto de vista econômico, desapareceria a divisão social do trabalho e a desigualdade social característica da sociedade capitalista e, do ponto de vista político, desapareceria a clássica divisão entre governantes e governados, visto que todos seriam governantes. Sem interesses competitivos e conflitantes, extinguir-se-iam quaisquer direitos; a necessidade das leis, regras, e de mecanismos e de instituições que regulam a vida humana em sociedade, como o próprio Estado. Seria o fim da política. Governar resumir-se-ia a auto-administração das coisas. Na formulação de Bukharin: “A economia política é uma ciência da economia nacional não-organizada. Somente numa sociedade onde a produção tem um caráter anárquico é que as leis da vida social parecem ‘naturais’, ‘espontâneas’, independentes da vontade dos indivíduos e grupos, leis que agem com a cega necessidade da lei da gravidade. Na verdade, ao tratar de uma economia nacional organizada, todos os ‘problemas’ básicos da economia política desaparecem. Aqui as relações entre os homens não são mais expressas como ‘relações entre coisas’, pois aqui a economia não é regulada pelas forças cegas do mercado e da concorrência, mas pelo plano conscientemente executado. O fim da sociedade capitalista, da mercadoria, significa o fim da economia política.”
Opiniões semelhantes, são encontradas também, por exemplo, em formulações de Preobrajenski durante as discussões com economistas como Skovortsov-Stepanov na década de vinte. De maneira geral, os economistas soviéticos dessa época reconheciam que a lei do valor sobrevivia na URSS no período inicial da revolução (vigência da Nova Política Econômica – NEP), devido à sobrevivência da propriedade privada e da relação mercantil com o campesinato. Esse tipo de relação, no entanto, por definição, tenderia a ser eliminada com a evolução do socialismo, quando a economia política seria substituída pela administração científica ou pela ciência da produção socialmente organizada, segundo a terminologia então empregada. O próprio Lênin, já em 1920, comentando escritos de Bukharin (em notas marginais a Economics of the transition period), já apontava para a insuficiência e/ou imprecisão dessas formulações.
Alguns economistas, posteriormente, inclusive apoiados em uma passagem de “O Capital” em que Marx afirma que após a abolição do capitalismo sob a produção socialmente organizada, a determinação do valor continua dominante, no sentido de que a regulação do tempo de trabalho e a distribuição social entre os diferentes setores da produção, e a contabilidade que abrange tudo isso se tornam mais importantes do que nunca; embora reconhecendo que todas as sociedades precisam distribuir trabalho social em determinadas proporções para satisfazer suas necessidades, negam que Marx não tenha tido em mente uma lei econômica de validade universal. Para efeito prático, a polêmica sobre a posição de Marx é irrelevante, dados os resultados práticos e a influência dessa lacuna nas formulações teóricas do marxismo sobre a economia, ao longo da história recente.
Um ponto de vista inovador em relação às formulações clássicas das esquerdas sobre a economia, sugere Nove, seria aquele que tentasse colocar-se a partir da posição de quem tenta descobrir que tipos de problemas econômicos podem ser encontrados em qualquer modelo de socialismo, tal como esse pode estabelecer-se com base na dinâmica da vida real, e não com base nas teorias econômicas de Marx e suas lacunas. A partir das respostas encontradas, poder-se-ia elaborar novos conhecimentos na busca de soluções capazes de suprir as insuficiências, imprecisões ou incorreções dos pontos de vista das esquerdas com relação à economia. O próprio Alec Nove ensaia a busca de respostas nessa direção, a partir de um ponto de vista de quem pretendia reformar o socialismo realmente existente até o final da década de 80, nos países da hoje ex-URSS. Nove censura os críticos do socialismo real, que atribuem os percalços da economia planificada de comando estatal a um problema de ordem política, ao mostrar como esses críticos desconhecem a existência da escassez na URSS, componente que introduz na economia planificada, inevitavelmente, a competição pelo acesso e controle dos recursos limitados.
A competição, por sua vez, sob essas circunstâncias, causa distorções no sistema, geradas em função da burocratização do controle das informações sobre a gestão e distribuição desses recursos escassos, por parte de gestores do sistema, diretamente interessados no resultado da distribuição. O próprio Marx nutria visões utópicas sobre a teoria do valor, que nada teriam a contribuir na busca de formulações teóricas capazes de apontar soluções para os impasses criados pela teoria marxista para o socialismo real, especialmente quando seus economistas tiveram que lidar com a realidade da dinâmica de mercado que, ao contrário do esperado por eles, não se enquadrou nos planos econômicos centralizados e comandados pelo Estado. Ilusão, é como melhor se podem definir as utopias e equívocos em que Marx teria metido seus seguidores, ao não definir, ou ao definir erradamente, alguns pressupostos básicos e implicações de sua teoria, sobre a tentativa de colocar em prática o socialismo como sistema econômico de transição para o comunismo.
Lênin, ao contrário, foi bastante preciso ao formular como via a acomodação das diferenças de interesses pela sociedade socialista transitória, ao afirmar que: O conjunto da sociedade terá de ser transformado num único escritório e numa única fábrica (...)”; “Todos os cidadãos serão empregados e trabalhadores de um único sindicato estatal nacional. As implicações práticas, tanto econômicas quanto políticas, das teorias de Lênin sobre o socialismo serão consideradas aqui, suficientemente conhecidas, razão pela qual dispensar-se-á maiores comentários, devido ao fato de essas teorias terem sido frontalmente contestadas pela realidade e pela falência do modelo implantado na URSS sob sua inspiração e liderança. Tivesse sido outro o destino do socialismo soviético, isto é, tivessem sido os comunistas os vencedores, a sociedade contemporânea teria grandes probabilidades de se ver funcionando hoje, segundo o modelo sugerido por Marx e depois por Lênin, como uma fábrica do século XIX, cuja estrutura organizativa deveria ser o contraponto à anarquia capitalista da época.
Questões vitais como centralização e descentralização, plano e mercado, os interesses das partes e os interesses do todo, a identificação do bem público, a alienação dos indivíduos, a necessidade e os perigos da hierarquia e da burocracia e, incidentalmente, a maior parte dos problemas que a economia soviética precisou enfrentar e não conseguiu fazê-lo de forma satisfatória, todas decorrem direta ou indiretamente da grande escala e das inúmeras interdependências da moderna economia industrial, hoje, pós-industrial. A realidade comprovou que a economia não pode ser planejada e conduzida com uma agência de correio. Não é apenas uma questão de técnica mas de aritmética contábil, como Lênin (antes de 1918) parecia acreditar.
As ilusões e equívocos de Marx e dos marxistas não se resumem a isso. Suas formulações supõem também que, em uma sociedade industrial complexa, seria possível, entre outras coisas, alocar e decidir por antecipação, através do planejamento do uso dos recursos e da alocação do trabalho, as inúmeras e diversificadas tarefas implícitas a uma cadeia de produção e consumo extremamente sofisticada como é a das sociedades contemporâneas. A tradição marxista do planejamento econômico centralizado erra também ao referenciar-se predominantemente, senão exclusivamente, nos aspectos quantitativos, quando a lógica do mercado indica que produtos de melhor qualidade tendem a ter maior preço.
O planejamento econômico centralizado pelo Estado em um país das dimensões e complexidade da ex-URSS, muito antes de a economia mundial assumir suas novas feições, demonstrou cabalmente que um núcleo planejador não tem como controlar uma composição de produtos totalmente desagregada, nem de qualidade, pelo simples fato de que é praticamente impossível considerar especificações detalhadas quando se trata de contemplar milhões de produtos para milhões de consumidores potenciais e, também, porque qualidade não é um conceito fácil de definir (freqüentemente associa-se às conveniências e gostos de quem consome), visto tratar-se de um valor em uso, valorizado por quem usa.
Segundo a ortodoxia marxista, tudo se passaria como se todos os insumos necessários ao sistema produtivo de uma sociedade estariam permanente, imutável e gratuitamente disponíveis. Sob essa ótica, o planejamento centralizado nunca falharia. A demanda social por produtos seria sempre suprida conforme as necessidades, dispensando o uso da moeda, das relações de troca, de compra ou venda. No limite da utopia comunista, o próprio Estado e sua corporação burocrática de planejadores e distribuidores centralizados se tornaria desnecessário, tendendo a auto-extinção.
Mesmo críticos do socialismo real como Bahro reconhecem esse problema ao perceberem o imperativo hierárquico inerente às complexas economias modernas. No entanto, a alternativa que propõe – vida em pequenas comunas – é, no mínimo, romântica e não soluciona o problema real, visto que exigiria um processo praticamente impensável de reorganização da sociedade contemporânea, nos moldes preconizados por Rousseau, ou pela utópica democracia grega. Não obstante, Bahro não consegue, mesmo nessa escala, conceber um sistema econômico que elimine as relações de troca (na medida em que essas comunas não têm como ser auto-suficientes), o que recoloca a questão do planejamento centralizado com vistas a satisfazer as necessidades da sociedade. Volta-se, assim, ao mesmo problema por outra via.
Marx também revelou seu lado romântico e utópico ao formular seus pontos de vista sobre a necessidade do socialismo transcender a divisão do trabalho, nas suas três dimensões: a) especialização entre diferentes unidades produtivas; b) especialização entre pessoas (profissões); e, por fim, c) a especialização vertical implícita à hierarquia existente entre as diferentes funções (comandantes e comandados) dentro das estruturas produtivas. Nem o próprio Marx, nem nenhuma das experiências do socialismo real, nem nenhum de seus críticos marxistas contemporâneos, conseguiu formular, descontadas proposições românticas e absolutamente irrealistas, qualquer alternativa transcendente à divisão social do trabalho tal como ocorreu na sociedade capitalista da época de “O Capital”, muito menos tal como essa se reorganiza e sofistica sob impacto da revolução tecnológica em curso.
O problema da remuneração pelo trabalho realizado é outro terreno movediço em que incursionou a teoria econômica marxista. Marx admite, em “Crítica ao programa de Gotha” que, nos primeiros estágios de uma sociedade socialista, as recompensas ainda deveriam vincular-se ao tempo trabalhado, ainda que esse critério incorporasse valores remanescentes do direito burguês. Não há, no entanto, qualquer referência no sentido de precisar quais deveriam ser os critérios desse tipo de recompensa, consideradas as diferenças entre as várias atividades e tarefas implícitas a uma cadeia produtiva; a intensidade e a qualidade do trabalho demandado de cada trabalhador, em um contexto em que a produção e a produtividade de cada membro de uma cadeia produtiva encadeiam-se de forma a afetar a quantidade e a qualidade do produto final. Da mesma forma, não há qualquer referência ao problema da alocação do trabalho em estruturas produtivas complexas. Trotski e Bukharin chegam a defender a militarização da produção, até que os trabalhadores se tornassem tão conscientes do que era necessário fazer e tão dedicados ao trabalho, que a noção de obrigatoriedade se extinguisse quando se tornasse desnecessária.
Economistas socialistas contemporâneos, ante a iminência da falência do socialismo real, chegaram ao absurdo de imaginarem a possibilidade de criação de uma espécie de simulação de um “modelo virtual e artificial de mercado” que, tal como um programa de computador, permitisse aos burocratas do planejamento central resolver o problema da impossibilidade do cálculo econômico que todos fazemos quando processamos nossas escolhas racionais ao buscarmos a satisfação de necessidades no mercado. Ludwig Von Mises destrói essas ilusão, passo a passo no livro “Socialism – An Economic and sociological analysis”. Não obstante, a simples tentativa de incursionar por aí, é mais um indicador da rendição dos economistas socialistas à superioridade da lógica do mercado livre sobre a lógica da economia planejada.
Igualmente, a teoria marxista, invariavelmente menospreza (senão despreza), a questão das atitudes e vontades individuais em relação ao trabalho socialmente requerido (exemplo: lixeiro) e individualmente desejado (exemplo: artista de televisão). Desconhece as implicações da hierarquia entre os que executam as tarefas diretamente ligadas à produção e aqueles que coordenam a alocação dos recursos humanos a partir do planejamento centralizado. Além disso, avalia incorretamente as predisposições humanas no que diz respeito ao comportamento diferenciado com relação aos incentivos morais e materiais, supondo fácil a possibilidade de substituir o sistema de preços e salários por um sistema baseado em símbolos que não circulam, isto é, de uma espécie de pseudo-moeda que, embora recebida como recompensa pelo trabalhador em função do trabalho realizado, não possa ser trocada por produtos e serviços, visto que esses são monopólio do Estado, provedor perfeito de todas as demandas e necessidades da sociedade.
Parece incrível, mas é real. Na América Latina têm gente que não estuda, não lê e não sabe de nada disso. E, pior, eles estão chegando ao poder legitimados pelo voto das maiorias ignorantes.
terça-feira, dezembro 12, 2006
segunda-feira, dezembro 11, 2006
167) Os novos demagogos...
Os novos demagogos
Niall Ferguson
O Estado de São Paulo, 10/12/2006
Eles surgiram com a democracia, na Grécia; se fortaleceram no entre-guerras, quando Hitler era o expoente. Agora, eles ressurgem em países como Irã e Venezuela, e com um trunfo: petróleo
'Estamos enfrentando o demônio - e vamos derrotá-lo de lavada !' O presidente venezuelano, Hugo Chávez, voltou na semana retrasada a demonizar seu arquiinimigo diante de uma multidão de seguidores em Caracas. Esqueçam seu oponente na eleição presidencial de domingo passado - não era este o 'demônio' que ele tinha em mente. Seguindo o exemplo de outro grande demagogo latino-americano, Fidel Castro, Chávez dirige seu furor retórico contra os Estados Unidos e o presidente George W. Bush.
No mundo todo, os demagogos estão de volta, gritando seus slogans inflamados. Na América Latina, o boliviano Evo Morales e o mexicano Andrés Manuel López Obrador uniram-se a Chávez para cobrir de infâmia os diabólicos gringos imperialistas. No Oriente Médio, o iraniano Mahmud Ahmadinejad e Hassan Nasrallah, do Hezbollah, denunciam os cruzados ianques demoníacos e seus confederados sionistas com igual fervor. Outros têm alvos diferentes, mas sua linguagem não é menos incendiária. Na Alemanha, Udo Pastoers, do xenófobo Partido Democrático Nacional, venceu uma e leição regional depois de chamar a Europa de 'espaço cultural para brancos'. Na África do Sul, o ex-vice-presidente Jacob Zuma canta 'Mshini Wami', um hino antiapartheid que inclui o verso 'Tragam-me minha metralhadora'.
Sua retórica pode parecer exagerada, mas ninguém deveria subestimar a ameaça que esses novos demagogos representam - especialmente para os Estados Unidos. Irrelevantes na América Latina, impotentes no Oriente Médio, ignorados na África e isolados na Europa, os EUA podem estar diante de sua maior crise de política externa desde o fim dos anos 70, quando a revolução iraniana e a invasão soviética do Afeganistão sacudiram a presidência de Jimmy Carter. E esta nova geração de agitadores das massas aproveita o momento. Quanto mais impopulares os Estados Unidos se tornam, mais fácil é para eles ganhar votos xingando o Tio Sam.
Já vimos isso antes - e não foi agradável. Quando um presidente eleito manifesta ceticismo sobre o Holocausto e ameaça varrer do mapa o Estado de Israel, não é exagero retórico fazer comparações com aquele que foi o mais desastroso dos demagogos, Adolf Hitler. Como Hitler, Ahmadinejad sabe que o anti-semitismo é um dos trunfos na manga do demagogo, um método testado e comprovado de inspirar o ódio e a suspeita em relação aos outros - e de permanecer no poder. Hitler também expressava com freqüência seu desprezo pelos Estados Unidos, que rejeitava como 'um país decaído', racial e culturalmente inferior à Alemanha - e, é claro, governado por judeus. Para uma reprise do tema, leiam a última carta de Ahmadinejad ao 'povo americano', divulgada na semana retrasada.
E as condições para o surgimento de demagogos verdadeiramente perigosos são hoje quase ideais.
Os meios clássicos para a cultura da demagogia são a guerra e a revolução. Não é coincidência o fato de Ahmadinejad ser um veterano da Revolução Islâmica de 1979 e da guerra com o Iraque. Num novo estado de espírito 'realista', os Estados Unidos agora gostariam que o Irã ajudasse a evitar que seu vizinho Iraque mergulhe na guerra civil. Doce ilusão. Ahmadinejad aposta na hegemonia iraniana no Oriente Médio. A última coisa de que ele precisa é ser visto ajudando o 'Grande Satã'.
A grave volatilidade econômica também pode criar um apetite popular pela retórica incendiária. É significativo que o crescimento econômico dos últimos 20 anos tenha sido muito mais variável na América Latina e no Oriente Médio do que nos Estados Unidos. Quando afligidas por variações turbulentas da renda, dos preços e da segurança no trabalho, as pessoas são mais propensas a perder a confiança no status quo político e dar ouvidos às palavras de líderes messiânicos como Chávez e Morales.
Também é relevante o nível da renda média. Hoje, as rendas per capita dos países mais pobres da América Latina e d a maior parte do Oriente Médio são similares às da Europa Central entre as guerras (isto é importante, pois estudos indicam que as chances de sobrevivência de uma democracia são muito mais altas quando a renda per capita está acima de US$ 6 mil). Os índices de analfabetismo provavelmente são mais altos do que eram na Europa Central. Os de urbanização certamente são mais altos. É um ambiente ideal para a demagogia: massas aprisionadas entre a pobreza sufocante de sociedades agrárias e a afluência dos países ricos de hoje, vivendo em cidades superlotadas com escolas péssimas. Em tais condições, o centro raramente se mantém por muito tempo. Logo surge um orador dissidente cobrindo-se de regalias presidenciais.
Isto ajuda a explicar por que tantos demagogos subiram ao poder na Europa Central e Oriental nos anos 20 e 30. Hitler foi apenas um de um bando de ditadores que combinaram retórica inflamada com camisas coloridas, botas lustrosas e um completo desprezo pel as liberdades civis, especialmente aquelas das minorias étnicas. E este é o ponto crítico.
PRIMEIRA VÍTIMA
A lição histórica é que a liberdade pessoal torna-se com muita freqüência a primeira vítima do demagogo, especialmente quando o sentimento popular é lançado contra algum inimigo interno ou externo.
A palavra grega antiga demagogós significa apenas um porta-voz do povo ou, mais pejorativamente, um líder da ralé. O uso moderno implica talentos retóricos e a capacidade de incitar uma audiência, usualmente com a promessa de medidas radicais. É aos impulsos mais básicos do público que um demagogo normalmente apela - daí a tendência de identificar e denunciar inimigos do povo.
A demagogia é tão antiga quanto a democracia, mas nem todas as democracias produzem demagogos. O mais conhecido dos demagogos da Grécia antiga foi Alcibíades, que vendeu aos atenienses a (má) idéia de conquistar a Sicília. A re pública romana produziu Marco Túlio Cícero, cujas Filípicas devastadoras procuraram deter as ambições de Marco Antônio, amigo de Júlio César e amante de Cleópatra (Cícero qualificava Antônio como um 'louco' que queria um 'banho de sangue' em Roma).
O termo ganhou um novo significado no século 17. Se a Guerra Civil inglesa teve seu demagogo, foi o parlamentar puritano John Pym, o crítico mais veemente de Charles I na Câmara dos Comuns - embora quem emergiu como ditador tenha sido o franco e pragmático Oliver Cromwell.
Nem todas as revoluções produzem demagogos. A Revolução Americana deve mais a redatores de leis e soldados amadores que a mestres da retórica.
Na França, contudo, o discurso imoderado foi a essência da revolução.
Demagogos como Georges Danton - apelidado de 'Júpiter, o trovejante' e um dos líderes do Terror - deram má fama à retórica incendiária durante quase um século.
Dos anos 1880 em di ante, a ampliação dos direitos para a inclusão dos eleitores mais pobres e menos educados somou-se a um grande declínio econômico para produzir um novo tipo de demagogo: não tanto um fomentador da guerra ou um revolucionário quanto um conquistador de votos. O momento fundamental foi a campanha de William Ewart Gladstone em Midlothian, em 1878, quando o líder liberal britânico fez uma série de discursos inspiradores dirigidos não só aos eleitores locais, mas à nação.
No entanto, à medida que os anos prósperos da era industrial deram lugar à deflação e à depressão, os demagogos voltaram-se contra o liberalismo. Tanto na esquerda quanto na direita, dos socialistas aos anti-semitas, os políticos radicais descobriram que a melhor maneira de mobilizar novos eleitores era culpar inimigos do povo pela volatilidade econômica. Na Áustria, o anti-semita Karl Lueger culpou os judeus supostamente todo-poderosos de Viena pelos problemas da pequena burguesia vien ense depois do colapso do mercado de ações de 1873. Na Rússia, socialistas radicais como Leon Trotski fulminaram com igual veemência o czarismo e o capitalismo. Em todos os casos, o demagogo apontou um dedo acusador, culpando este ou aquele grupo pelos sofrimentos das massas. O sucesso significava poder para o demagogo e perseguição para seus alvos.
Não surpreende, portanto, que a época entre as duas guerras mundiais tenha sido o auge da política demagógica. A partir de 1914, o mundo foi varrido primeiro pela guerra, depois por revoluções e finalmente pela pior depressão da história econômica. Hitler foi, é claro, o arquidemagogo, um monstro cheio de ódio e um falso Messias que prometeu ao povo alemão a redenção depois de anos de humilhação. Mas Benito Mussolini também se pavoneou e inflamou na Itália; Oswald Mosley, o socialista renegado que fundou a União Britânica dos Fascistas, tentou os mesmos truques na Inglaterra. A Europa Centra l ressoou com as diatribes de uma horda de incitadores da plebe. Na Polônia, o líder democrático nacional Roman Dmowski profetizou um 'pogrom internacional dos judeus'. Na Romênia, o fundador da Legião de São Miguel Arcanjo, Corneliu Codreanu, prometeu 'destruir os judeus antes que eles nos destruam'. Hitler estava longe de ser o único demagogo dos anos 30 a transformar os judeus em bodes expiatórios. Quando levou a Europa à guerra, ele encontrou colaboradores à disposição em todo o continente.
A boa notícia sobre os demagogos é que eles freqüentemente acham mais difícil cumprir promessas eleitorais que fazer discursos eleitorais. Em setembro, o vice de Morales, Álvaro García Linera, conclamou o povo indígena da Bolívia a defender o governo do presidente 'com seu peito, com sua mão, com seu Mauser' em resposta à oposição na cidade de Santa Cruz, no leste do país. Tal linguagem esconde a realidade de que o governo de Morales foi forçado a mod ificar seu plano de nacionalização do setor energético (embora tenha conseguido, na semana retrasada, a aprovação de uma lei radical de reforma agrária). A instabilidade e o atraso econômicos podem levar os demagogos ao poder. Mas eles também os restringem assim que chegam lá.
Ainda assim, o fato de Chávez e Ahmadinejad controlarem 6% e 11% das reservas de petróleo mundiais comprovadas deve nos fazer pensar. Talvez a maior fraqueza estratégica dos demagogos do período entre as guerras fosse sua falta de combustível. Esta foi, de fato, uma de suas motivações para a conquista daquilo que Hitler chamava de 'espaço vital' nos países vizinhos.
Os demagogos de hoje, em contraste, governam países ricos em petróleo.
Isso pode reduzir sua necessidade de adquirir território. No entanto, com os preços do petróleo acima de US$ 60 o barril, isso também lhes garante grandes pagamentos de países importadores de petróleo, como os Estados Unido s, dando-lhes os meios para apoiar suas palavras com ações. E não é preciso ter grande conhecimento histórico para saber que discurso inflamado e petróleo são uma combinação potencialmente explosiva.
TRADUÇÃO DE ALEXANDRE MOSCHELLA
*Niall Ferguson é professor de história da Universidade de Harvard e autor de 'The War of the World: Twentieth-Century Conflict and the Descent of the West' (A guerra do mundo: o conflito no século 20 e o declínio do Ocidente). Escreveu este artigo para 'The Washington Post
Niall Ferguson
O Estado de São Paulo, 10/12/2006
Eles surgiram com a democracia, na Grécia; se fortaleceram no entre-guerras, quando Hitler era o expoente. Agora, eles ressurgem em países como Irã e Venezuela, e com um trunfo: petróleo
'Estamos enfrentando o demônio - e vamos derrotá-lo de lavada !' O presidente venezuelano, Hugo Chávez, voltou na semana retrasada a demonizar seu arquiinimigo diante de uma multidão de seguidores em Caracas. Esqueçam seu oponente na eleição presidencial de domingo passado - não era este o 'demônio' que ele tinha em mente. Seguindo o exemplo de outro grande demagogo latino-americano, Fidel Castro, Chávez dirige seu furor retórico contra os Estados Unidos e o presidente George W. Bush.
No mundo todo, os demagogos estão de volta, gritando seus slogans inflamados. Na América Latina, o boliviano Evo Morales e o mexicano Andrés Manuel López Obrador uniram-se a Chávez para cobrir de infâmia os diabólicos gringos imperialistas. No Oriente Médio, o iraniano Mahmud Ahmadinejad e Hassan Nasrallah, do Hezbollah, denunciam os cruzados ianques demoníacos e seus confederados sionistas com igual fervor. Outros têm alvos diferentes, mas sua linguagem não é menos incendiária. Na Alemanha, Udo Pastoers, do xenófobo Partido Democrático Nacional, venceu uma e leição regional depois de chamar a Europa de 'espaço cultural para brancos'. Na África do Sul, o ex-vice-presidente Jacob Zuma canta 'Mshini Wami', um hino antiapartheid que inclui o verso 'Tragam-me minha metralhadora'.
Sua retórica pode parecer exagerada, mas ninguém deveria subestimar a ameaça que esses novos demagogos representam - especialmente para os Estados Unidos. Irrelevantes na América Latina, impotentes no Oriente Médio, ignorados na África e isolados na Europa, os EUA podem estar diante de sua maior crise de política externa desde o fim dos anos 70, quando a revolução iraniana e a invasão soviética do Afeganistão sacudiram a presidência de Jimmy Carter. E esta nova geração de agitadores das massas aproveita o momento. Quanto mais impopulares os Estados Unidos se tornam, mais fácil é para eles ganhar votos xingando o Tio Sam.
Já vimos isso antes - e não foi agradável. Quando um presidente eleito manifesta ceticismo sobre o Holocausto e ameaça varrer do mapa o Estado de Israel, não é exagero retórico fazer comparações com aquele que foi o mais desastroso dos demagogos, Adolf Hitler. Como Hitler, Ahmadinejad sabe que o anti-semitismo é um dos trunfos na manga do demagogo, um método testado e comprovado de inspirar o ódio e a suspeita em relação aos outros - e de permanecer no poder. Hitler também expressava com freqüência seu desprezo pelos Estados Unidos, que rejeitava como 'um país decaído', racial e culturalmente inferior à Alemanha - e, é claro, governado por judeus. Para uma reprise do tema, leiam a última carta de Ahmadinejad ao 'povo americano', divulgada na semana retrasada.
E as condições para o surgimento de demagogos verdadeiramente perigosos são hoje quase ideais.
Os meios clássicos para a cultura da demagogia são a guerra e a revolução. Não é coincidência o fato de Ahmadinejad ser um veterano da Revolução Islâmica de 1979 e da guerra com o Iraque. Num novo estado de espírito 'realista', os Estados Unidos agora gostariam que o Irã ajudasse a evitar que seu vizinho Iraque mergulhe na guerra civil. Doce ilusão. Ahmadinejad aposta na hegemonia iraniana no Oriente Médio. A última coisa de que ele precisa é ser visto ajudando o 'Grande Satã'.
A grave volatilidade econômica também pode criar um apetite popular pela retórica incendiária. É significativo que o crescimento econômico dos últimos 20 anos tenha sido muito mais variável na América Latina e no Oriente Médio do que nos Estados Unidos. Quando afligidas por variações turbulentas da renda, dos preços e da segurança no trabalho, as pessoas são mais propensas a perder a confiança no status quo político e dar ouvidos às palavras de líderes messiânicos como Chávez e Morales.
Também é relevante o nível da renda média. Hoje, as rendas per capita dos países mais pobres da América Latina e d a maior parte do Oriente Médio são similares às da Europa Central entre as guerras (isto é importante, pois estudos indicam que as chances de sobrevivência de uma democracia são muito mais altas quando a renda per capita está acima de US$ 6 mil). Os índices de analfabetismo provavelmente são mais altos do que eram na Europa Central. Os de urbanização certamente são mais altos. É um ambiente ideal para a demagogia: massas aprisionadas entre a pobreza sufocante de sociedades agrárias e a afluência dos países ricos de hoje, vivendo em cidades superlotadas com escolas péssimas. Em tais condições, o centro raramente se mantém por muito tempo. Logo surge um orador dissidente cobrindo-se de regalias presidenciais.
Isto ajuda a explicar por que tantos demagogos subiram ao poder na Europa Central e Oriental nos anos 20 e 30. Hitler foi apenas um de um bando de ditadores que combinaram retórica inflamada com camisas coloridas, botas lustrosas e um completo desprezo pel as liberdades civis, especialmente aquelas das minorias étnicas. E este é o ponto crítico.
PRIMEIRA VÍTIMA
A lição histórica é que a liberdade pessoal torna-se com muita freqüência a primeira vítima do demagogo, especialmente quando o sentimento popular é lançado contra algum inimigo interno ou externo.
A palavra grega antiga demagogós significa apenas um porta-voz do povo ou, mais pejorativamente, um líder da ralé. O uso moderno implica talentos retóricos e a capacidade de incitar uma audiência, usualmente com a promessa de medidas radicais. É aos impulsos mais básicos do público que um demagogo normalmente apela - daí a tendência de identificar e denunciar inimigos do povo.
A demagogia é tão antiga quanto a democracia, mas nem todas as democracias produzem demagogos. O mais conhecido dos demagogos da Grécia antiga foi Alcibíades, que vendeu aos atenienses a (má) idéia de conquistar a Sicília. A re pública romana produziu Marco Túlio Cícero, cujas Filípicas devastadoras procuraram deter as ambições de Marco Antônio, amigo de Júlio César e amante de Cleópatra (Cícero qualificava Antônio como um 'louco' que queria um 'banho de sangue' em Roma).
O termo ganhou um novo significado no século 17. Se a Guerra Civil inglesa teve seu demagogo, foi o parlamentar puritano John Pym, o crítico mais veemente de Charles I na Câmara dos Comuns - embora quem emergiu como ditador tenha sido o franco e pragmático Oliver Cromwell.
Nem todas as revoluções produzem demagogos. A Revolução Americana deve mais a redatores de leis e soldados amadores que a mestres da retórica.
Na França, contudo, o discurso imoderado foi a essência da revolução.
Demagogos como Georges Danton - apelidado de 'Júpiter, o trovejante' e um dos líderes do Terror - deram má fama à retórica incendiária durante quase um século.
Dos anos 1880 em di ante, a ampliação dos direitos para a inclusão dos eleitores mais pobres e menos educados somou-se a um grande declínio econômico para produzir um novo tipo de demagogo: não tanto um fomentador da guerra ou um revolucionário quanto um conquistador de votos. O momento fundamental foi a campanha de William Ewart Gladstone em Midlothian, em 1878, quando o líder liberal britânico fez uma série de discursos inspiradores dirigidos não só aos eleitores locais, mas à nação.
No entanto, à medida que os anos prósperos da era industrial deram lugar à deflação e à depressão, os demagogos voltaram-se contra o liberalismo. Tanto na esquerda quanto na direita, dos socialistas aos anti-semitas, os políticos radicais descobriram que a melhor maneira de mobilizar novos eleitores era culpar inimigos do povo pela volatilidade econômica. Na Áustria, o anti-semita Karl Lueger culpou os judeus supostamente todo-poderosos de Viena pelos problemas da pequena burguesia vien ense depois do colapso do mercado de ações de 1873. Na Rússia, socialistas radicais como Leon Trotski fulminaram com igual veemência o czarismo e o capitalismo. Em todos os casos, o demagogo apontou um dedo acusador, culpando este ou aquele grupo pelos sofrimentos das massas. O sucesso significava poder para o demagogo e perseguição para seus alvos.
Não surpreende, portanto, que a época entre as duas guerras mundiais tenha sido o auge da política demagógica. A partir de 1914, o mundo foi varrido primeiro pela guerra, depois por revoluções e finalmente pela pior depressão da história econômica. Hitler foi, é claro, o arquidemagogo, um monstro cheio de ódio e um falso Messias que prometeu ao povo alemão a redenção depois de anos de humilhação. Mas Benito Mussolini também se pavoneou e inflamou na Itália; Oswald Mosley, o socialista renegado que fundou a União Britânica dos Fascistas, tentou os mesmos truques na Inglaterra. A Europa Centra l ressoou com as diatribes de uma horda de incitadores da plebe. Na Polônia, o líder democrático nacional Roman Dmowski profetizou um 'pogrom internacional dos judeus'. Na Romênia, o fundador da Legião de São Miguel Arcanjo, Corneliu Codreanu, prometeu 'destruir os judeus antes que eles nos destruam'. Hitler estava longe de ser o único demagogo dos anos 30 a transformar os judeus em bodes expiatórios. Quando levou a Europa à guerra, ele encontrou colaboradores à disposição em todo o continente.
A boa notícia sobre os demagogos é que eles freqüentemente acham mais difícil cumprir promessas eleitorais que fazer discursos eleitorais. Em setembro, o vice de Morales, Álvaro García Linera, conclamou o povo indígena da Bolívia a defender o governo do presidente 'com seu peito, com sua mão, com seu Mauser' em resposta à oposição na cidade de Santa Cruz, no leste do país. Tal linguagem esconde a realidade de que o governo de Morales foi forçado a mod ificar seu plano de nacionalização do setor energético (embora tenha conseguido, na semana retrasada, a aprovação de uma lei radical de reforma agrária). A instabilidade e o atraso econômicos podem levar os demagogos ao poder. Mas eles também os restringem assim que chegam lá.
Ainda assim, o fato de Chávez e Ahmadinejad controlarem 6% e 11% das reservas de petróleo mundiais comprovadas deve nos fazer pensar. Talvez a maior fraqueza estratégica dos demagogos do período entre as guerras fosse sua falta de combustível. Esta foi, de fato, uma de suas motivações para a conquista daquilo que Hitler chamava de 'espaço vital' nos países vizinhos.
Os demagogos de hoje, em contraste, governam países ricos em petróleo.
Isso pode reduzir sua necessidade de adquirir território. No entanto, com os preços do petróleo acima de US$ 60 o barril, isso também lhes garante grandes pagamentos de países importadores de petróleo, como os Estados Unido s, dando-lhes os meios para apoiar suas palavras com ações. E não é preciso ter grande conhecimento histórico para saber que discurso inflamado e petróleo são uma combinação potencialmente explosiva.
TRADUÇÃO DE ALEXANDRE MOSCHELLA
*Niall Ferguson é professor de história da Universidade de Harvard e autor de 'The War of the World: Twentieth-Century Conflict and the Descent of the West' (A guerra do mundo: o conflito no século 20 e o declínio do Ocidente). Escreveu este artigo para 'The Washington Post
quinta-feira, dezembro 07, 2006
166) New Deal chines...
Estrada de ferro para o Tibete é apenas um entre muitos grandes projetos
Craig Simons
Em Golmud, China, 27/11/2006
Quando Zhang Luxin começou a trabalhar na construção da linha ferroviária entre a província de Qinghai, no noroeste da China, e Lhasa, a capital do Tibete, em 1973, a tarefa parecia impossível.
A estrada de ferro, aberta finalmente em julho de 2006, atravessa uma fenda entre montanhas de cerca de 5.200 metros de altura, em grande parte construída sobre a neve permanente que forma ondulações enquanto derrete e congela, em meio a tempestades que irrompem freqüentemente na região.
Mao Tsé-Tung, primeiro líder de China comunista, foi quem a idealizou, prometendo conectar a China com o vizinho Nepal. "Era um grande desafio", diz Zhang, agora com 59 anos, em seu escritório minúsculo em Golmud, uma desolada cidade da fronteira aos pés da cadeia de montanhas coberta de neve de Kunlun, em Qinghai. "Eu quis ajudar a construir nossa nação e acreditei que a estrada poderia ser feita."
Combinado com uma tendência para investimentos maciços em engenharia, essa atitude otimista marcou a expansão econômica da China ao longo das últimas duas décadas. Os tecnocratas chineses já construíram a maior represa do mundo em terreno irregular, o mais caro projeto isolado de engenharia no mundo - um sistema de Us$62 bilhões para bombear água do sul ao norte da China - e agora planeja construir um dos trens mais rápidos do mundo.
Mais projetos de engenharia civil estão sendo construídos, em uma escala recorde. Desde 1996, o sistema da estradas da China aumentou seis vezes em tamanho e agora só perde para o dos Estados Unidos em termos de quilometragem total.
Desde 1950 os governos nacionais e regionais construíram 28.000 represas com diques de altura acima de 15 metros, mais do que metade do total mundial de obras do gênero, segundo Tan Wanlin, especialista em represas do escritório de Pequim do World Wildlife Fund, fundo mundial em defesa dos animais selvagens.
Desde 1970, a China construiu oito usinas hidrelétricas, e Pequim tem planos para a construção de mais 30 até 2020, de acordo com fontes oficiais.
Em termos de ambição, dimensões e velocidade, o ritmo de construção faz lembrar o New Deal norte-americano. Entre 1933, três anos após o início da Grande Depressão, e 1942, o governo de Washington empreendeu o mais consistente programa de obras públicas da história dos Estados Unidos, erguendo edifícios e criando parques nacionais.
A ascensão dos Estados Unidos, após o desespero da Grande Depressão, faz lembrar a guinada da China para o capitalismo após o caos da Revolução Cultural, que descarrilhou numerosos projetos, incluindo a ligação ferroviária até Lhasa. Em 1979, um governo sem dinheiro decidiu terminar a linha em Golmud, que na época era "apenas uma estação numa estrada poeirenta", segundo Zhang.
Mas Pequim nunca abandonou por completo o plano para a estrada. Zhang e um punhado de outros coordenadores e cientistas atravessaram o platô tibetano a pé no final dos anos setenta mapeando a melhor rota para o percurso do trem.
O trajeto era muito difícil. Mesmo durante o verão, as temperaturas frequentemente baixavam de zero, e por diversas vezes, lembra Zhang, ele quase morreu durante tempestades repentinas. "A vida era muito dura e muito solitária", constata o empreiteiro. "Mas para ser bem sucedido uma pessoa deve se esforçar. Não importa qual seja o trabalho que você está fazendo."
O mais difícil era descobrir como construir trilhos estáveis em solo constantemente movediço. Com grandes variações de temperatura em pleno verão, o solo sob a metade da rota de 1.148 quilômetros a partir de Golmud congela à noite e derrete durante o dia, fazendo com que a terra se eleve e caia "alguns centímetros", diz Zhang, acrescentando que com o tempo os deslocamentos podem elevar o solo em até alguns metros. Para resolver o problema, Zhang passou boa parte dos anos oitenta e noventa estudando técnicas usadas em estradas de ferro na Sibéria, no Canadá e no Alasca para manter a chamada neve permanente congelada indefinidamente.
Um dos métodos exigiu o empilhamento de pedras do tamanho de bolas de beisebol na terra, para permitir que o ar frio circule livremente. Outra técnica consistiu na utilização de tubos subterrâneos cheios de amônia. No fundo de cada tubulação a amônia esfria, torna-se gasosa e dela se extrai o calor do solo enquanto ocorre a elevação do solo.
Num percurso de mais de 100 quilômetros onde a terra era menos estável, Zhang e seu grupo decidiram elevar o trem acima do solo, como num monotrilho.
"Todos os grandes dirigentes queriam construir a estrada de ferro, mas questionaram se poderia realmente ser feita", recorda.
A confiança de Zhang era grande o bastante para convencer os maiores líderes de Pequim. Ao longo de quatro anos a estrada custou $ 4,2 bilhões e mais de 100.000 pessoas trabalharam no projeto.
Sua conclusão em julho - um ano antes do programado - foi louvada em meios de comunicação da China.
A ferrovia também ressalta as ambições grandiosas da China de incrementar o comércio com os países vizinhos. Em agosto, a China anunciou que estenderia a linha de Lhasa a Nepal, embora nenhum cronograma tenha sido estipulado.
Quando a linha for construída até o Nepal, "nós abriremos o comércio com o todo o Sudeste Asiático", diz Zhang.
Os detratores, entretanto, vêem intenções sinistras na iniciativa.
Uma queixa diz respeito ao fato de que Pequim está tentando solidificar o controle sobre o Tibete incentivando os chineses Han, grupo étnico dominante na China, a migrarem para a região. O Tibete existiu como um estado independente de facto durante a primeira metade do século 20, mas esteve sob o domínio chinês desde que o exército vermelho comunista ocupou o território, em 1950. De acordo com Pequim, o número de pessoas Han que vive no Tibete aumentou de 70.000 para mais de 105.000 desde 1985, cifras oficiais que são muito inferiores ao número real porque não incluem soldados e trabalhadores que estão lá por curto prazo.
Muitos tibetanos se opuseram particularmente à estrada de ferro porque trará mais gente Han ao Tibete. "O trem fará o Tibete mais rico mas não ajudará muito os tibetanos", disse um trabalhador tibetano que, em Golmud, pediu para seu nome não ser citado porque poderia ser perseguido pelas críticas ao governo. "Trará mais gente Han que vai querer tomar nossa terra."
Alguns cientistas preocupam-se também com o aquecimento global, que poderia tornar o trem inoperável se o custo de manter o solo congelado se tornar demasiado elevado.
"Por volta de 2050, a operação segura da estrada de ferro de Qinghai-Tibete ficará afetada se as temperaturas mantiverem o aumento considerável observado nas décadas passadas", disse Luo Yong, vice-diretor do Centro de Metereologia Nacional da China, conforme o jornal "China Daily" relatou no ano passado. Mas Zhang descarta essas críticas como sendo alarmistas e enganadoras.
Assim como os projetos de engenharia já o fizeram pela China, o trem irá incrementar a economia tibetana e abrir a região ao desenvolvimento, segundo o empreiteiro. "Os Estados Unidos tiveram seu New Deal. Agora é a nossa vez".
Projetos
Represa de Três Gorges: A maior do mundo - cinco vezes mais ampla que a represa de Hoover - conteve o fluxo do rio Yangtze em 2003. Quando estiver operando plenamente em 2009, irá gerar eletricidade o bastante para atender toda a Shanghai de hoje.
Projeto de Transferência de Águas do Sul ao Norte: Projeto isolado mais caro da engenharia mundial, este sistema orçado em US$ 62 bilhões, formado por canais e estações de bombeamento, tem conclusão prevista para em torno do ano 2050, quando moverá 12 trilhões de galões de água - igual a aproximadamente 10 por cento das águas do lago Erie - anualmente do rio de Yangtze em direção ao norte, ao ressecado Rio Amarelo.
Estrada de Ferro Pequim-Xangai: Até 2010 Pequim irá construir uma ferrovia de alta velocidade orçada em US$ 25 bilhões, entre Pequim e Shanghai. Trens viajando a até cerca de 350 quilômetros por hora irão fazer a viagem de 1.320 quilômetros durar menos de 6 horas.
Craig Simons
Em Golmud, China, 27/11/2006
Quando Zhang Luxin começou a trabalhar na construção da linha ferroviária entre a província de Qinghai, no noroeste da China, e Lhasa, a capital do Tibete, em 1973, a tarefa parecia impossível.
A estrada de ferro, aberta finalmente em julho de 2006, atravessa uma fenda entre montanhas de cerca de 5.200 metros de altura, em grande parte construída sobre a neve permanente que forma ondulações enquanto derrete e congela, em meio a tempestades que irrompem freqüentemente na região.
Mao Tsé-Tung, primeiro líder de China comunista, foi quem a idealizou, prometendo conectar a China com o vizinho Nepal. "Era um grande desafio", diz Zhang, agora com 59 anos, em seu escritório minúsculo em Golmud, uma desolada cidade da fronteira aos pés da cadeia de montanhas coberta de neve de Kunlun, em Qinghai. "Eu quis ajudar a construir nossa nação e acreditei que a estrada poderia ser feita."
Combinado com uma tendência para investimentos maciços em engenharia, essa atitude otimista marcou a expansão econômica da China ao longo das últimas duas décadas. Os tecnocratas chineses já construíram a maior represa do mundo em terreno irregular, o mais caro projeto isolado de engenharia no mundo - um sistema de Us$62 bilhões para bombear água do sul ao norte da China - e agora planeja construir um dos trens mais rápidos do mundo.
Mais projetos de engenharia civil estão sendo construídos, em uma escala recorde. Desde 1996, o sistema da estradas da China aumentou seis vezes em tamanho e agora só perde para o dos Estados Unidos em termos de quilometragem total.
Desde 1950 os governos nacionais e regionais construíram 28.000 represas com diques de altura acima de 15 metros, mais do que metade do total mundial de obras do gênero, segundo Tan Wanlin, especialista em represas do escritório de Pequim do World Wildlife Fund, fundo mundial em defesa dos animais selvagens.
Desde 1970, a China construiu oito usinas hidrelétricas, e Pequim tem planos para a construção de mais 30 até 2020, de acordo com fontes oficiais.
Em termos de ambição, dimensões e velocidade, o ritmo de construção faz lembrar o New Deal norte-americano. Entre 1933, três anos após o início da Grande Depressão, e 1942, o governo de Washington empreendeu o mais consistente programa de obras públicas da história dos Estados Unidos, erguendo edifícios e criando parques nacionais.
A ascensão dos Estados Unidos, após o desespero da Grande Depressão, faz lembrar a guinada da China para o capitalismo após o caos da Revolução Cultural, que descarrilhou numerosos projetos, incluindo a ligação ferroviária até Lhasa. Em 1979, um governo sem dinheiro decidiu terminar a linha em Golmud, que na época era "apenas uma estação numa estrada poeirenta", segundo Zhang.
Mas Pequim nunca abandonou por completo o plano para a estrada. Zhang e um punhado de outros coordenadores e cientistas atravessaram o platô tibetano a pé no final dos anos setenta mapeando a melhor rota para o percurso do trem.
O trajeto era muito difícil. Mesmo durante o verão, as temperaturas frequentemente baixavam de zero, e por diversas vezes, lembra Zhang, ele quase morreu durante tempestades repentinas. "A vida era muito dura e muito solitária", constata o empreiteiro. "Mas para ser bem sucedido uma pessoa deve se esforçar. Não importa qual seja o trabalho que você está fazendo."
O mais difícil era descobrir como construir trilhos estáveis em solo constantemente movediço. Com grandes variações de temperatura em pleno verão, o solo sob a metade da rota de 1.148 quilômetros a partir de Golmud congela à noite e derrete durante o dia, fazendo com que a terra se eleve e caia "alguns centímetros", diz Zhang, acrescentando que com o tempo os deslocamentos podem elevar o solo em até alguns metros. Para resolver o problema, Zhang passou boa parte dos anos oitenta e noventa estudando técnicas usadas em estradas de ferro na Sibéria, no Canadá e no Alasca para manter a chamada neve permanente congelada indefinidamente.
Um dos métodos exigiu o empilhamento de pedras do tamanho de bolas de beisebol na terra, para permitir que o ar frio circule livremente. Outra técnica consistiu na utilização de tubos subterrâneos cheios de amônia. No fundo de cada tubulação a amônia esfria, torna-se gasosa e dela se extrai o calor do solo enquanto ocorre a elevação do solo.
Num percurso de mais de 100 quilômetros onde a terra era menos estável, Zhang e seu grupo decidiram elevar o trem acima do solo, como num monotrilho.
"Todos os grandes dirigentes queriam construir a estrada de ferro, mas questionaram se poderia realmente ser feita", recorda.
A confiança de Zhang era grande o bastante para convencer os maiores líderes de Pequim. Ao longo de quatro anos a estrada custou $ 4,2 bilhões e mais de 100.000 pessoas trabalharam no projeto.
Sua conclusão em julho - um ano antes do programado - foi louvada em meios de comunicação da China.
A ferrovia também ressalta as ambições grandiosas da China de incrementar o comércio com os países vizinhos. Em agosto, a China anunciou que estenderia a linha de Lhasa a Nepal, embora nenhum cronograma tenha sido estipulado.
Quando a linha for construída até o Nepal, "nós abriremos o comércio com o todo o Sudeste Asiático", diz Zhang.
Os detratores, entretanto, vêem intenções sinistras na iniciativa.
Uma queixa diz respeito ao fato de que Pequim está tentando solidificar o controle sobre o Tibete incentivando os chineses Han, grupo étnico dominante na China, a migrarem para a região. O Tibete existiu como um estado independente de facto durante a primeira metade do século 20, mas esteve sob o domínio chinês desde que o exército vermelho comunista ocupou o território, em 1950. De acordo com Pequim, o número de pessoas Han que vive no Tibete aumentou de 70.000 para mais de 105.000 desde 1985, cifras oficiais que são muito inferiores ao número real porque não incluem soldados e trabalhadores que estão lá por curto prazo.
Muitos tibetanos se opuseram particularmente à estrada de ferro porque trará mais gente Han ao Tibete. "O trem fará o Tibete mais rico mas não ajudará muito os tibetanos", disse um trabalhador tibetano que, em Golmud, pediu para seu nome não ser citado porque poderia ser perseguido pelas críticas ao governo. "Trará mais gente Han que vai querer tomar nossa terra."
Alguns cientistas preocupam-se também com o aquecimento global, que poderia tornar o trem inoperável se o custo de manter o solo congelado se tornar demasiado elevado.
"Por volta de 2050, a operação segura da estrada de ferro de Qinghai-Tibete ficará afetada se as temperaturas mantiverem o aumento considerável observado nas décadas passadas", disse Luo Yong, vice-diretor do Centro de Metereologia Nacional da China, conforme o jornal "China Daily" relatou no ano passado. Mas Zhang descarta essas críticas como sendo alarmistas e enganadoras.
Assim como os projetos de engenharia já o fizeram pela China, o trem irá incrementar a economia tibetana e abrir a região ao desenvolvimento, segundo o empreiteiro. "Os Estados Unidos tiveram seu New Deal. Agora é a nossa vez".
Projetos
Represa de Três Gorges: A maior do mundo - cinco vezes mais ampla que a represa de Hoover - conteve o fluxo do rio Yangtze em 2003. Quando estiver operando plenamente em 2009, irá gerar eletricidade o bastante para atender toda a Shanghai de hoje.
Projeto de Transferência de Águas do Sul ao Norte: Projeto isolado mais caro da engenharia mundial, este sistema orçado em US$ 62 bilhões, formado por canais e estações de bombeamento, tem conclusão prevista para em torno do ano 2050, quando moverá 12 trilhões de galões de água - igual a aproximadamente 10 por cento das águas do lago Erie - anualmente do rio de Yangtze em direção ao norte, ao ressecado Rio Amarelo.
Estrada de Ferro Pequim-Xangai: Até 2010 Pequim irá construir uma ferrovia de alta velocidade orçada em US$ 25 bilhões, entre Pequim e Shanghai. Trens viajando a até cerca de 350 quilômetros por hora irão fazer a viagem de 1.320 quilômetros durar menos de 6 horas.
165) Políticas para o futuro da agricultura, por Marcos Jank
Políticas para o futuro da agricultura
Marcos S. Jank
O Estado de São Paulo, Quarta-feira, 6 de dezembro de 2006 - Espaço Aberto, pág. A-2.
Formuladores de políticas deveriam antecipar tendências de longo prazo revendo paradigmas, eliminando políticas conflitivas e reestruturando os seus mecanismos de ação. O agronegócio é uma das raras áreas em que o Brasil conseguiu antecipar tendências globais e plantar o seu futuro à frente dos demais países. A competitividade do agronegócio nasceu nos anos 70 com pesados investimentos em pesquisa, defesa sanitária, infra-estrutura e extensão rural. Na mesma época, sem qualquer planejamento sistemático, conseguimos antecipar o atual dilema energético com investimentos em etanol de cana-de-açúcar, que hoje colocam o Brasil na dianteira do mundo em combustíveis renováveis de baixo custo.
A reeleição do Presidente Lula tem raízes profundas no sucesso do agronegócio. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da ESALQ-USP estima que os preços dos alimentos caíram 40% em termos reais desde o Plano Real. Comida barata é o benefício mais notável que a população pobre do País recebeu na última década. O Cepea calcula que o agronegócio transferiu mais de R$ 1 trilhão para a sociedade brasileira na última década, via ganhos da produtividade e conseqüente queda de preços, além de gerar US$ 40 bilhões anuais em divisas com exportações.
De 1965 a 1985, o objetivo básico da política agrícola era “segurança alimentar”, obtida via políticas altamente intervencionistas. De 1985 a 1995, a tônica foi “desregulamentação e liberalização”. Nos últimos dez anos, o foco voltou-se para “reforma agrária e agricultura familiar”. Antes de antecipar as prioridades que deveriam ser doravante buscadas, é fundamental analisar as tendências globais do agronegócio na próxima década.
O lado mais radiante do agronegócio será o crescimento exponencial da demanda mundial por alimentos, fibras e bioenergia no futuro próximo. Milhões de novos consumidores vão emergir em regiões com enormes limitações de recursos naturais (principalmente água e terras aráveis), como o Leste da Ásia e o Oriente Médio. A explosão do consumo segue em três direções: aumento da renda per capita dos mais pobres, urbanização acelerada e mudança de hábitos de consumo. A renda per capita de China, Índia e países do Sudeste Asiático (Asean) cresce 7% ao ano. Esses países ainda têm 63% da população em zona rural vivendo basicamente de autoconsumo. A urbanização aumenta a renda per capita, muda os hábitos de consumo (substituição de dietas baseadas em vegetais e arroz por carnes, lácteos e frutas) e gera maiores importações de produtos agropecuários. O novo patamar dos preços do petróleo acima de US$ 40 por barril aumenta a corrida por combustíveis alternativos, como o etanol de cana-de-açúcar e milho e o biodiesel de dendê, soja, girassol, colza e pinhão manso. O consumo crescerá mais pelo lado das quantidades que dos preços, que continuarão com um comportamento cíclico em função dos desequilíbrios temporais entre a oferta e a demanda.
O lado mais preocupante do futuro do agronegócio deriva do fato de que a sobrevivência dos produtores será determinada pela sua capacidade de reduzir custos em escala global. Williard Cochrane, professor emérito da Universidade de Minnesota, propôs nos anos 1950 a célebre analogia da “esteira rolante” que a tecnologia impõe aos produtores. Para não caírem da “esteira” da competição global, os agricultores são forçados a correr cada vez mais rápido nos ganhos de produtividade e exploração de economias de escala e escopo.
Além disso, o agricultor do futuro tende a ser cada vez mais um gerenciador de contratos complexos com indústrias fornecedoras de máquinas e insumos - mecanização, agricultura de precisão, irrigação, biotecnologia, etc. Contratos complexos e maior coordenação vertical também marcarão as relações entre o varejo, a agroindústria processadora e os agricultores, em decorrência da pressão por novos atributos de qualidade e sanidade de produtos, classificação, etiquetagem, certificação e rastreabilidade, entre outros.
As barreiras não-tarifárias vão crescer, seja na esfera pública, seja por pressão direta de consumidores e empresas privadas. Os países desenvolvidos tendem a ampliar o seu leque de restrições sanitárias, laborais e religiosas, controle de resíduos, pressões contra o desmatamento, critérios para o bem-estar dos animais e protocolos privados como o EurepGAP. Legítimas ou não, tais barreiras farão parte do cotidiano do agronegócio na próxima década, exigindo profissionalismo, conteúdo técnico para um diálogo maduro e maior coordenação dos agentes públicos e privados.
O novo objetivo das políticas agrícolas na próxima década é a inserção dos produtores no agronegócio global e sua sustentabilidade econômica, social e ambiental. O estudo Repensando as políticas agrícola e agrária do Brasil, que Fabio Chaddad, Sidney Nakahodo e eu publicamos na Revista Digesto Econômico da Associação Comercial de São Paulo (disponível em www.iconebrasil.org.br), mostra que não estamos conseguindo olhar para a frente. Nos últimos anos houve forte redução dos gastos públicos com agricultura, uma pulverização de programas em dois ministérios com visões antagônicas sobre o setor e a lamentável deterioração dos gastos com os bens públicos que construíram a competitividade brasileira.
Os casos mais dramáticos são a pesquisa agropecuária, a defesa sanitária e a extensão rural, áreas que receberam apenas 3% do orçamento total do setor, muito aquém dos recursos alocados nos programas de reforma agrária, agricultura familiar, crédito rural, renegociação de dívidas e outros. Essas três áreas formam o tripé dos ganhos de eficiência que baratearam os alimentos no mercado doméstico e geraram as divisas na exportação.
Política agrícola é uma das raras áreas em que não é necessário seguir nenhum exemplo importado. Basta olharmos para dentro e resgatarmos os bens públicos que geraram a fantástica revolução agrícola que interiorizou o desenvolvimento do Brasil.
Marcos S. Jank
O Estado de São Paulo, Quarta-feira, 6 de dezembro de 2006 - Espaço Aberto, pág. A-2.
Formuladores de políticas deveriam antecipar tendências de longo prazo revendo paradigmas, eliminando políticas conflitivas e reestruturando os seus mecanismos de ação. O agronegócio é uma das raras áreas em que o Brasil conseguiu antecipar tendências globais e plantar o seu futuro à frente dos demais países. A competitividade do agronegócio nasceu nos anos 70 com pesados investimentos em pesquisa, defesa sanitária, infra-estrutura e extensão rural. Na mesma época, sem qualquer planejamento sistemático, conseguimos antecipar o atual dilema energético com investimentos em etanol de cana-de-açúcar, que hoje colocam o Brasil na dianteira do mundo em combustíveis renováveis de baixo custo.
A reeleição do Presidente Lula tem raízes profundas no sucesso do agronegócio. O Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da ESALQ-USP estima que os preços dos alimentos caíram 40% em termos reais desde o Plano Real. Comida barata é o benefício mais notável que a população pobre do País recebeu na última década. O Cepea calcula que o agronegócio transferiu mais de R$ 1 trilhão para a sociedade brasileira na última década, via ganhos da produtividade e conseqüente queda de preços, além de gerar US$ 40 bilhões anuais em divisas com exportações.
De 1965 a 1985, o objetivo básico da política agrícola era “segurança alimentar”, obtida via políticas altamente intervencionistas. De 1985 a 1995, a tônica foi “desregulamentação e liberalização”. Nos últimos dez anos, o foco voltou-se para “reforma agrária e agricultura familiar”. Antes de antecipar as prioridades que deveriam ser doravante buscadas, é fundamental analisar as tendências globais do agronegócio na próxima década.
O lado mais radiante do agronegócio será o crescimento exponencial da demanda mundial por alimentos, fibras e bioenergia no futuro próximo. Milhões de novos consumidores vão emergir em regiões com enormes limitações de recursos naturais (principalmente água e terras aráveis), como o Leste da Ásia e o Oriente Médio. A explosão do consumo segue em três direções: aumento da renda per capita dos mais pobres, urbanização acelerada e mudança de hábitos de consumo. A renda per capita de China, Índia e países do Sudeste Asiático (Asean) cresce 7% ao ano. Esses países ainda têm 63% da população em zona rural vivendo basicamente de autoconsumo. A urbanização aumenta a renda per capita, muda os hábitos de consumo (substituição de dietas baseadas em vegetais e arroz por carnes, lácteos e frutas) e gera maiores importações de produtos agropecuários. O novo patamar dos preços do petróleo acima de US$ 40 por barril aumenta a corrida por combustíveis alternativos, como o etanol de cana-de-açúcar e milho e o biodiesel de dendê, soja, girassol, colza e pinhão manso. O consumo crescerá mais pelo lado das quantidades que dos preços, que continuarão com um comportamento cíclico em função dos desequilíbrios temporais entre a oferta e a demanda.
O lado mais preocupante do futuro do agronegócio deriva do fato de que a sobrevivência dos produtores será determinada pela sua capacidade de reduzir custos em escala global. Williard Cochrane, professor emérito da Universidade de Minnesota, propôs nos anos 1950 a célebre analogia da “esteira rolante” que a tecnologia impõe aos produtores. Para não caírem da “esteira” da competição global, os agricultores são forçados a correr cada vez mais rápido nos ganhos de produtividade e exploração de economias de escala e escopo.
Além disso, o agricultor do futuro tende a ser cada vez mais um gerenciador de contratos complexos com indústrias fornecedoras de máquinas e insumos - mecanização, agricultura de precisão, irrigação, biotecnologia, etc. Contratos complexos e maior coordenação vertical também marcarão as relações entre o varejo, a agroindústria processadora e os agricultores, em decorrência da pressão por novos atributos de qualidade e sanidade de produtos, classificação, etiquetagem, certificação e rastreabilidade, entre outros.
As barreiras não-tarifárias vão crescer, seja na esfera pública, seja por pressão direta de consumidores e empresas privadas. Os países desenvolvidos tendem a ampliar o seu leque de restrições sanitárias, laborais e religiosas, controle de resíduos, pressões contra o desmatamento, critérios para o bem-estar dos animais e protocolos privados como o EurepGAP. Legítimas ou não, tais barreiras farão parte do cotidiano do agronegócio na próxima década, exigindo profissionalismo, conteúdo técnico para um diálogo maduro e maior coordenação dos agentes públicos e privados.
O novo objetivo das políticas agrícolas na próxima década é a inserção dos produtores no agronegócio global e sua sustentabilidade econômica, social e ambiental. O estudo Repensando as políticas agrícola e agrária do Brasil, que Fabio Chaddad, Sidney Nakahodo e eu publicamos na Revista Digesto Econômico da Associação Comercial de São Paulo (disponível em www.iconebrasil.org.br), mostra que não estamos conseguindo olhar para a frente. Nos últimos anos houve forte redução dos gastos públicos com agricultura, uma pulverização de programas em dois ministérios com visões antagônicas sobre o setor e a lamentável deterioração dos gastos com os bens públicos que construíram a competitividade brasileira.
Os casos mais dramáticos são a pesquisa agropecuária, a defesa sanitária e a extensão rural, áreas que receberam apenas 3% do orçamento total do setor, muito aquém dos recursos alocados nos programas de reforma agrária, agricultura familiar, crédito rural, renegociação de dívidas e outros. Essas três áreas formam o tripé dos ganhos de eficiência que baratearam os alimentos no mercado doméstico e geraram as divisas na exportação.
Política agrícola é uma das raras áreas em que não é necessário seguir nenhum exemplo importado. Basta olharmos para dentro e resgatarmos os bens públicos que geraram a fantástica revolução agrícola que interiorizou o desenvolvimento do Brasil.
domingo, dezembro 03, 2006
164) Correios e telecomunicacoes: tese francesa
Vingtcinquante@cines.fr , Liste de diffusion en Histoire Politique
SOUTENANCE DE THESE
M. Léonard LABORIE soutiendra sa thèse de Doctorat (Université de Paris IV) sur le sujet suivant:
Une Europe des communications. La France et la coopération internationale dans le domaine des postes et des télécommunications, des années 1850 aux années 1960.
Mardi 12 décembre 2006
14 heures
Institut Finlandais, l’Auditorium
60, rue des Ecoles 75005 Paris
En présence du Jury :
M. BUSSIERE (PARIS 4)
M. FRANK (PARIS 1)
M. GRISET (PARIS 4)
Mme GUILLAUME (BORDEAUX 4)
M. GUINTINI (MODENA)
Mme LE ROUX (CNRS)
Résumés :
Les flux télégraphiques et postaux internationaux sont régulés à partir de la seconde moitié du XIXe siècle par le biais d’organisations internationales spécifiquement créées à cet effet : l’Union télégraphique internationale (1865 ; qui devient en 1932 Union internationale des télécommunications) et l’Union générale des postes (1874 ; qui devient en 1878 Union postale universelle). Ces arènes de coopération sont le lieu d’élaboration de normes tarifaires et techniques, assurant l’interconnexion des réseaux nationaux. L’objet de cette thèse est de retracer l’histoire de la politique de la France à leur égard. Ceci afin de mieux cerner la manière dont se construit et évolue un ordre international des communications du milieu du XIXe siècle au milieu du XXe siècle, autour d’institutions, de règles et de valeurs partagées par les partenaires de la coopération. La coopération technique est un objet d’histoire européen -à la fois international et transnational-, permettant d’aborder la question de l’articulation entre universalisme et régionalisme ainsi qu’entre ordre européen issu du XIXe siècle et construction européenne amorcée au lendemain de la Seconde Guerre mondiale.
Since the middle of the XIXth Century, international connexions between national postal and telecommunication networks have been regulated through multilateral cooperation. This thesis aims at analysing the policy of France towards the International Telegraph Union (then renamed International Telecommunications Union) and the Universal Postal Union, from their creation to the foundation of the European Conference of Postal and Telecommunication Administrations in 1959. These institutions were arenas where international regulation (with both technical and commercial standards) was debated and cast by specific professional communities. The history of technical cooperation provides an international and transnational perspective for a history of European communication networks. It tackles the questions of the articulation between universalism and regionalism as well as between European order inherited from the XIXth Century and the European construction launched after the Second World War.
Position de thèse :
Les flux télégraphiques et postaux internationaux sont régulés à partir de la seconde moitié du XIXe siècle par le biais d’organisations internationales spécifiquement créées à cet effet. Ces arènes de coopération sont le lieu d’élaboration de normes tarifaires et techniques, assurant l’interconnexion des réseaux nationaux. L’objet de cette thèse est de retracer l’histoire de la politique de la France à leur égard. Ceci afin de mieux cerner la manière dont se construit et évolue un ordre international des communications d’un milieu de siècle à l’autre, autour d’institutions, de règles et de valeurs partagées par les partenaires de la coopération. Notre étude débute avec la formation de l’Union télégraphique internationale en 1865, suivie par son équivalent postal, l’Union générale des postes en 1874. Elle s’achève avec la constitution de la Conférence européenne des administrations des postes et des télécommunications en 1959, nouvelle institution ne remplaçant pas les précédentes mais représentant à partir de cet instant, pour la France, l’arène privilégiée de coopération technique internationale. L’absence d’étude sur la politique de coopération postale française et les quelques jalons posés jusqu’alors dans le domaine des télécommunications ouvrent un champ d’étude d’autant plus stimulant qu’il touche à des processus originaux. Sources
Les sources utilisées sont présentées de manière classique. Les sources imprimées sont tout à fait importantes pour notre travail, en particulier les documents officiels, c’est-à-dire les conventions et les règlements internationaux. Ce corpus juridique est accompagné par les procès-verbaux des congrès et des conférences, publiés sous le sceau des Unions. Pour épais qu’ils soient, ces volumes ne disent pas tout. Les administrateurs et les ingénieurs qui composent les instances internationales n’écrivent malheureusement pas leurs mémoires, à la différence des diplomates. Certains périodiques seront extrêmement utiles pour suivre l’actualité de la coopération, et tout particulièrement les journaux qu’ont eu à publier dès leur création les bureaux permanents des Unions télégraphique et postale. Les cartes des réseaux et les recueils statistiques seront aussi mobilisés. Les sources archivistiques sont d’abord les archives de l’administration des postes, télégraphes et téléphones, versées, pour le principal, aux Archives nationales et celles de l’administration centrale du ministère des Affaires étrangères. Les dossiers diplomatiques ont l’avantage d’être fort bien classés et d’être souvent le point de collecte et de coordination des vues des différents acteurs impliqués. Nous tirerons partie de la richesse de la série des Unions internationales (centre des archives diplomatiques de Nantes). Hors de France nous avons sondé les archives britanniques équivalentes, sur les points les plus sensibles, et avons constaté que les bureaux des Unions sont un centre de documentation extrêmement riche sur le plan des imprimés mais plus pauvre sur le plan archivistique. Résumé La thèse s’organise en trois parties, l’originalité de chacune étant le produit du sens donné à la coopération internationale par les acteurs et de son cadre spatial d’organisation. Le sens alterne selon qu’il est orienté par une logique d’ouverture ou une logique de fermeture. L’organisation spatiale combine l’échelle continentale et l’échelle universelle. Le croisement de ces deux variables caractérise l’évolution de ce que nous avons dénommé le pacte de coopération.
Première partie - Un pacte d’expansion Plusieurs associations télégraphiques sous-régionales apparues en Europe dans le cours des années 1850, dont l’une autour de la France, s’assemblent en 1865 lors d’une conférence organisée à Paris (Union télégraphique internationale). La France n’entre en revanche qu’à contretemps dans l’Union générale des postes fondée à Berne en 1874, principalement pour des raisons financières. En 1878, l’Union générale est rebaptisée Union postale universelle. L’ordre qui se construit en Europe se mondialise, principalement par l’intégration des territoires qui sont sous le contrôle des empires. Il procède d’une démarche d’ouverture des réseaux nationaux aux flux internationaux, traduisant une solidarité économique et, de la part des hommes qui bâtissent ces règlements, une solidarité professionnelle. Il s’agit de développer la correspondance internationale en proposant des services moins coûteux et plus simples. L’uniformisation des dispositions réglementaires est la voie d’accès à cette dynamique. Les Unions se dotent de bureaux permanents. La réalité du pouvoir revient aux délégations nationales réunies périodiquement en congrès et en conférences. Deuxième partie - Un pacte protecteur Un ensemble de forces à la fois techniques et politiques ouvre une période d’instabilité et de recomposition des équilibres au début du XXe siècle. Mondialisée, la coopération se recentre sur les espaces continentaux. Dans le même temps elle s’affirme comme un moyen de contrôle efficace pour les monopoles publics nationaux face à des dynamiques déstabilisatrices. La France est une composante active de ces évolutions (1903-début des années 1930).
Elle participe à la réaction internationale que suscite la tentative de monopolisation des radiocommunications par l’entreprise Marconi. Les administrations produisent un nouveau pan de la réglementation internationale des communications, autour du problème fondamental de la gestion des fréquences. Jusqu’à la fin des années 1920 se pose la question de son articulation avec les principes régulateurs établis antérieurement. Les intérêts économiques et stratégiques en cause, le caractère très évolutif des techniques compliquent les choix. Le débat fait apparaître l’émergence d’un nouvel acteur, les Etats-Unis, jusqu’alors absents de l’Union télégraphique. Dans le même temps, les réseaux téléphoniques (création du comité consultatif international des communications téléphoniques en 1924, avec le français Georges Valensi comme secrétaire général), aéropostaux et de radiodiffusion se mettent en place à l’échelle continentale et des formules adaptées sont élaborées. Un équilibre s’établit à la fin de la période, qui fait apparaître une restructuration de l’ordre international autour de pôles continentaux.
Troisième partie -Quel pacte européen ? S’ouvre alors une dernière phase, durant laquelle l’équilibre établi entre le régional et l’universel est soumis à de fortes tensions, cette fois essentiellement politiques. La politisation de la coopération technique internationale pose notamment la question de l’identité du pôle européen. Les projets politiques d’unification de l’Europe sollicitent les réseaux, pour construire un marché intégré et pour symboliser le processus d’union (projet d’Union postale européenne attenant au plan Briand ; union européenne des postes et des télécommunications nazie, 1942 ; projets du Conseil de l’Europe ; plan Bonnefous). Contre leur gré, les Unions sont rattachées au système des Nations Unies. La Guerre froide contamine le travail de coopération. En Europe orientale, une organisation est spécifiquement mise en place autour de l’URSS en 1957. L’ordre international des communications est plus que jamais un enjeu politique international. Face à ces forces multiples et contradictoires, la période se clôt en 1959 avec la création d’une nouvelle institution, la Conférence européenne des administrations des postes et des télécommunications (CEPT). Déliée des institutions de la construction européenne, la CEPT ne remplace pas les Unions internationales mais devient pour l’administration française comme pour ses homologues d’Europe occidentale le lieu privilégié de coopération et de préparation des conférences mondiales.
Conclusion
La conclusion attire l’attention sur trois phénomènes :
la coopération technique internationale n’est pas déterminée par une raison technique abstraite. Elle est le fruit de l’interaction de variables techniques et de variables politiques. Le consensus technique et commercial international intègre les rapports de force internationaux ;
la coopération internationale est prise en charge par une communauté d’experts, de professionnels qui ont pour valeur l’universalisme, l’apolitisme et l’efficacité mais qui ont aussi à coeur de défendre les monopoles et la souveraineté des nations. Les relations avec l’appareil diplomatique sont compliquées ;
l’ordre international des communications est de nature confédérale. Il permet d’aborder la question de l’articulation entre universalisme et régionalisme ainsi qu’entre ordre européen issu du XIXe siècle et construction européenne amorcée au lendemain de la Seconde Guerre mondiale. En cela, c’est un objet d’histoire européen.
SOUTENANCE DE THESE
M. Léonard LABORIE soutiendra sa thèse de Doctorat (Université de Paris IV) sur le sujet suivant:
Une Europe des communications. La France et la coopération internationale dans le domaine des postes et des télécommunications, des années 1850 aux années 1960.
Mardi 12 décembre 2006
14 heures
Institut Finlandais, l’Auditorium
60, rue des Ecoles 75005 Paris
En présence du Jury :
M. BUSSIERE (PARIS 4)
M. FRANK (PARIS 1)
M. GRISET (PARIS 4)
Mme GUILLAUME (BORDEAUX 4)
M. GUINTINI (MODENA)
Mme LE ROUX (CNRS)
Résumés :
Les flux télégraphiques et postaux internationaux sont régulés à partir de la seconde moitié du XIXe siècle par le biais d’organisations internationales spécifiquement créées à cet effet : l’Union télégraphique internationale (1865 ; qui devient en 1932 Union internationale des télécommunications) et l’Union générale des postes (1874 ; qui devient en 1878 Union postale universelle). Ces arènes de coopération sont le lieu d’élaboration de normes tarifaires et techniques, assurant l’interconnexion des réseaux nationaux. L’objet de cette thèse est de retracer l’histoire de la politique de la France à leur égard. Ceci afin de mieux cerner la manière dont se construit et évolue un ordre international des communications du milieu du XIXe siècle au milieu du XXe siècle, autour d’institutions, de règles et de valeurs partagées par les partenaires de la coopération. La coopération technique est un objet d’histoire européen -à la fois international et transnational-, permettant d’aborder la question de l’articulation entre universalisme et régionalisme ainsi qu’entre ordre européen issu du XIXe siècle et construction européenne amorcée au lendemain de la Seconde Guerre mondiale.
Since the middle of the XIXth Century, international connexions between national postal and telecommunication networks have been regulated through multilateral cooperation. This thesis aims at analysing the policy of France towards the International Telegraph Union (then renamed International Telecommunications Union) and the Universal Postal Union, from their creation to the foundation of the European Conference of Postal and Telecommunication Administrations in 1959. These institutions were arenas where international regulation (with both technical and commercial standards) was debated and cast by specific professional communities. The history of technical cooperation provides an international and transnational perspective for a history of European communication networks. It tackles the questions of the articulation between universalism and regionalism as well as between European order inherited from the XIXth Century and the European construction launched after the Second World War.
Position de thèse :
Les flux télégraphiques et postaux internationaux sont régulés à partir de la seconde moitié du XIXe siècle par le biais d’organisations internationales spécifiquement créées à cet effet. Ces arènes de coopération sont le lieu d’élaboration de normes tarifaires et techniques, assurant l’interconnexion des réseaux nationaux. L’objet de cette thèse est de retracer l’histoire de la politique de la France à leur égard. Ceci afin de mieux cerner la manière dont se construit et évolue un ordre international des communications d’un milieu de siècle à l’autre, autour d’institutions, de règles et de valeurs partagées par les partenaires de la coopération. Notre étude débute avec la formation de l’Union télégraphique internationale en 1865, suivie par son équivalent postal, l’Union générale des postes en 1874. Elle s’achève avec la constitution de la Conférence européenne des administrations des postes et des télécommunications en 1959, nouvelle institution ne remplaçant pas les précédentes mais représentant à partir de cet instant, pour la France, l’arène privilégiée de coopération technique internationale. L’absence d’étude sur la politique de coopération postale française et les quelques jalons posés jusqu’alors dans le domaine des télécommunications ouvrent un champ d’étude d’autant plus stimulant qu’il touche à des processus originaux. Sources
Les sources utilisées sont présentées de manière classique. Les sources imprimées sont tout à fait importantes pour notre travail, en particulier les documents officiels, c’est-à-dire les conventions et les règlements internationaux. Ce corpus juridique est accompagné par les procès-verbaux des congrès et des conférences, publiés sous le sceau des Unions. Pour épais qu’ils soient, ces volumes ne disent pas tout. Les administrateurs et les ingénieurs qui composent les instances internationales n’écrivent malheureusement pas leurs mémoires, à la différence des diplomates. Certains périodiques seront extrêmement utiles pour suivre l’actualité de la coopération, et tout particulièrement les journaux qu’ont eu à publier dès leur création les bureaux permanents des Unions télégraphique et postale. Les cartes des réseaux et les recueils statistiques seront aussi mobilisés. Les sources archivistiques sont d’abord les archives de l’administration des postes, télégraphes et téléphones, versées, pour le principal, aux Archives nationales et celles de l’administration centrale du ministère des Affaires étrangères. Les dossiers diplomatiques ont l’avantage d’être fort bien classés et d’être souvent le point de collecte et de coordination des vues des différents acteurs impliqués. Nous tirerons partie de la richesse de la série des Unions internationales (centre des archives diplomatiques de Nantes). Hors de France nous avons sondé les archives britanniques équivalentes, sur les points les plus sensibles, et avons constaté que les bureaux des Unions sont un centre de documentation extrêmement riche sur le plan des imprimés mais plus pauvre sur le plan archivistique. Résumé La thèse s’organise en trois parties, l’originalité de chacune étant le produit du sens donné à la coopération internationale par les acteurs et de son cadre spatial d’organisation. Le sens alterne selon qu’il est orienté par une logique d’ouverture ou une logique de fermeture. L’organisation spatiale combine l’échelle continentale et l’échelle universelle. Le croisement de ces deux variables caractérise l’évolution de ce que nous avons dénommé le pacte de coopération.
Première partie - Un pacte d’expansion Plusieurs associations télégraphiques sous-régionales apparues en Europe dans le cours des années 1850, dont l’une autour de la France, s’assemblent en 1865 lors d’une conférence organisée à Paris (Union télégraphique internationale). La France n’entre en revanche qu’à contretemps dans l’Union générale des postes fondée à Berne en 1874, principalement pour des raisons financières. En 1878, l’Union générale est rebaptisée Union postale universelle. L’ordre qui se construit en Europe se mondialise, principalement par l’intégration des territoires qui sont sous le contrôle des empires. Il procède d’une démarche d’ouverture des réseaux nationaux aux flux internationaux, traduisant une solidarité économique et, de la part des hommes qui bâtissent ces règlements, une solidarité professionnelle. Il s’agit de développer la correspondance internationale en proposant des services moins coûteux et plus simples. L’uniformisation des dispositions réglementaires est la voie d’accès à cette dynamique. Les Unions se dotent de bureaux permanents. La réalité du pouvoir revient aux délégations nationales réunies périodiquement en congrès et en conférences. Deuxième partie - Un pacte protecteur Un ensemble de forces à la fois techniques et politiques ouvre une période d’instabilité et de recomposition des équilibres au début du XXe siècle. Mondialisée, la coopération se recentre sur les espaces continentaux. Dans le même temps elle s’affirme comme un moyen de contrôle efficace pour les monopoles publics nationaux face à des dynamiques déstabilisatrices. La France est une composante active de ces évolutions (1903-début des années 1930).
Elle participe à la réaction internationale que suscite la tentative de monopolisation des radiocommunications par l’entreprise Marconi. Les administrations produisent un nouveau pan de la réglementation internationale des communications, autour du problème fondamental de la gestion des fréquences. Jusqu’à la fin des années 1920 se pose la question de son articulation avec les principes régulateurs établis antérieurement. Les intérêts économiques et stratégiques en cause, le caractère très évolutif des techniques compliquent les choix. Le débat fait apparaître l’émergence d’un nouvel acteur, les Etats-Unis, jusqu’alors absents de l’Union télégraphique. Dans le même temps, les réseaux téléphoniques (création du comité consultatif international des communications téléphoniques en 1924, avec le français Georges Valensi comme secrétaire général), aéropostaux et de radiodiffusion se mettent en place à l’échelle continentale et des formules adaptées sont élaborées. Un équilibre s’établit à la fin de la période, qui fait apparaître une restructuration de l’ordre international autour de pôles continentaux.
Troisième partie -Quel pacte européen ? S’ouvre alors une dernière phase, durant laquelle l’équilibre établi entre le régional et l’universel est soumis à de fortes tensions, cette fois essentiellement politiques. La politisation de la coopération technique internationale pose notamment la question de l’identité du pôle européen. Les projets politiques d’unification de l’Europe sollicitent les réseaux, pour construire un marché intégré et pour symboliser le processus d’union (projet d’Union postale européenne attenant au plan Briand ; union européenne des postes et des télécommunications nazie, 1942 ; projets du Conseil de l’Europe ; plan Bonnefous). Contre leur gré, les Unions sont rattachées au système des Nations Unies. La Guerre froide contamine le travail de coopération. En Europe orientale, une organisation est spécifiquement mise en place autour de l’URSS en 1957. L’ordre international des communications est plus que jamais un enjeu politique international. Face à ces forces multiples et contradictoires, la période se clôt en 1959 avec la création d’une nouvelle institution, la Conférence européenne des administrations des postes et des télécommunications (CEPT). Déliée des institutions de la construction européenne, la CEPT ne remplace pas les Unions internationales mais devient pour l’administration française comme pour ses homologues d’Europe occidentale le lieu privilégié de coopération et de préparation des conférences mondiales.
Conclusion
La conclusion attire l’attention sur trois phénomènes :
la coopération technique internationale n’est pas déterminée par une raison technique abstraite. Elle est le fruit de l’interaction de variables techniques et de variables politiques. Le consensus technique et commercial international intègre les rapports de force internationaux ;
la coopération internationale est prise en charge par une communauté d’experts, de professionnels qui ont pour valeur l’universalisme, l’apolitisme et l’efficacité mais qui ont aussi à coeur de défendre les monopoles et la souveraineté des nations. Les relations avec l’appareil diplomatique sont compliquées ;
l’ordre international des communications est de nature confédérale. Il permet d’aborder la question de l’articulation entre universalisme et régionalisme ainsi qu’entre ordre européen issu du XIXe siècle et construction européenne amorcée au lendemain de la Seconde Guerre mondiale. En cela, c’est un objet d’histoire européen.
163) La Compagnie Maritime du Canal de Suez
Uma grande tese de história na França:
Vingtcinquante@cines.fr , Liste de diffusion en Histoire Politique
SOUTENANCE DE THESE
Mme Caroline PIQUET soutiendra sa thèse de Doctorat (Université de Paris IV) sur le sujet suivant:
La Compagnie universelle du canal maritime de Suez en Egypte, 1888-1956. Une concession française dans la tourmente d’une nation en marche
Lundi 11 décembre 2006
9 heures
En Sorbonne, Centre Administratif, Salle des Actes
1, rue Victor Cousin 75005 Paris
En présence du Jury :
Mme ALLEAUME (CNRS)
M. BARJOT (PARIS 4)
M. FREMEAUX (PARIS 4)
M. MARSEILLE (PARIS 1)
M. SAUL (QUEBEC)
Résumés :
Cette étude présente l’histoire de l’une des plus importantes entreprises de l’Égypte contemporaine, la Compagnie Universelle du Canal Maritime de Suez, de 1888 à 1956. Cette période correspond à l’émergence de l’État-nation égyptien et à la construction d’une économie nationale. Durant près d’un siècle, l’activité de la Compagnie de Suez se déroule en Égypte et sa concession constitue un véritable domaine privé. Cette présence marque durablement la région de l’isthme de Suez, en particulier dans le domaine du transfert de compétences et de technologies, du bassin d’emploi et des réalisations urbaines. Sous cet angle, l’entreprise peut être envisagée comme un acteur de développement économique de la région. Cependant, l’entreprise adopte un fonctionnement de type colonial et marginalise les intérêts de l’autorité concédante. Le gouvernement égyptien et les groupes nationalistes et syndicaux réagissent en réclamant une gestion nationale de la voie maritime. L’étude de Suez renvoie à l’action de l’État égyptien sur le capital étranger et plus largement aux contradictions de la concession européenne en Égypte.
The study examines the history of one of the biggest firm of Modern Egypt, the Suez Canal Company from 1888 to 1956. This period corresponds in Egypt to the emergence of the Nation-State and the build up of national economy. For over than a century, all the activity of the Suez Company set up on Egypt and its concession was a real preserve. Then, the economic and social impact of this Company on the region was enormous, especially on labour market, technology transfer and urban realisations ; it can be considered as an actor of development of the Suez Isthmus. However, at the same time, the firm adopted a colonial attitude and denied the country any benefit from these infrastructures : the canal had to serve financial and strategic interests, not to serve local economy. In this context, Egyptian government, nationalist and unionist groups demanded return of the canal to national management. Suez reflects the role of the Egyptian State on foreign business and, in the widest sense, the contradictions of the European concession system in Egypt.
Position de thèse :
Ce travail propose d’étudier la Compagnie Universelle du Canal Maritime de Suez, de 1888 à 1956, selon une approche nouvelle privilégiant l’étude de cette concession française dans son environnement égyptien, alors que l’historiographie a plutôt mis l’accent sur les aspects diplomatiques et stratégiques liés au canal de Suez. Au cœur de cette recherche, se pose la question de la concession outre-mer, qui représente à la fois un instrument d’expansion européenne et une opportunité de développement. L’interrogation porte en particulier sur la tension entre la logique commerciale de l’entreprise et les notions de service public et d’intérêt général. Le malentendu entre Suez et l’Égypte concerne tout particulièrement la fonction de la concession : Suez défend une mission internationale quand l’autorité concédante l’envisage sous l’angle de l’intérêt national. Ce dernier point s’avère essentiel dans une période de construction nationale : le canal doit participer au développement du pays et à l’émergence d’une économie égyptienne. Pour replacer la Compagnie dans cette dynamique, l’étude fait appel à une méthodologie spécifique relevant à la fois de l’histoire des entreprises, de l’histoire sociale et de l’histoire coloniale. Le plan retenu privilégie l’analyse de cette concession sous trois aspects : un enjeu politique, un lieu de travail et un territoire.
La première partie étudie la Compagnie dans son rapport à l’environnement politique du pays. Le premier chapitre analyse la Compagnie de 1888 à 1918, dans le contexte d’une Égypte soumise à l’occupation britannique. L’entreprise profite de la stabilité de l’Égypte coloniale pour se forger une tradition et acquérir un statut pour le moins particulier : entreprise concessionnaire égyptienne, elle est constituée, depuis 1876, pour l’essentiel de capitaux français et britanniques, avec un siège social installé à Paris. En 1888, la conférence de Constantinople en déclarant le canal de Suez international permet à l’entreprise de se revendiquer d’une mission mondiale, reléguant ainsi sa nationalité égyptienne au second plan. Par ailleurs, l’autorité concédante se fait très discrète et n’inquiète que peu les dirigeants de Suez. Toutefois, la légitimité de l’entreprise auprès de la population demeure bien fragile : une crise politique en 1909 portant sur la prolongation de la concession le souligne et révèle la triste réputation de parasite associée à l’entreprise.
Le second chapitre s’étend de 1918 à 1945, période marquée par la volonté d’indépendance du pays. Prise dans la tourmente d’un nationalisme économique, Suez se fait bousculer par la construction nationale égyptienne. En outre, la Compagnie doit affronter la nouvelle donne politique issue de l’accord anglo-égyptien de 1936 et de la liquidation du système des capitulations. L’autorité concédante est désormais en mesure d’exiger des gestes significatifs de la Compagnie. Cette dernière amorce dès lors une évolution notable de son statut financier et juridique : elle accepte le principe de la redistribution d’une partie de ses revenus tirés du canal et l’entrée d’Égyptiens dans son conseil d’administration. Elle reconnaît en outre sa fonction d’entreprise concessionnaire égyptienne, en admettant la nécessité de recruter et de former des employés nationaux. Toutefois, cette évolution vers une plus grande intégration de la Compagnie dans la société égyptienne se voit bloquée par la Seconde Guerre mondiale. Le canal se trouve de nouveau placé au devant de la scène internationale. Alors que Le Caire espère profiter de la crise pour étendre son contrôle sur l’entreprise, les Britanniques dénient au gouvernement égyptien toutes ses prétentions. Un repli s’effectue alors sur l’entreprise européenne disputée en coulisse entre Britanniques et Français. Cette tension sur la direction de l’entreprise explique, après la guerre, une ferme reprise en main de l’organisation par les Français. En outre, la nouvelle équipe dirigeante brise définitivement la dynamique de collaboration avec l’Égypte effectuée durant les années trente, en réorientant Suez vers une mission internationale et un statut d’exception.
Le troisième chapitre traite des dix dernières années de l’entreprise dans le pays, de 1945 à 1956, lorsque l’Égypte libérale connaît ses ultimes moments, balayée ensuite par l’Égypte militaire. Le pays, depuis les années trente, affirme sa volonté de préparer la transition vers une régie directe. Dans les années cinquante, l’Égypte est en outre placée devant la nécessité de trouver des moyens de financement pour ses projets de développement. Le Caire cherche donc à placer Suez, à l’image des autres sociétés étrangères, dans un processus d’égyptianisation. Cela se traduit pour l’entreprise par l’intensification de la pression de l’État sur sa gestion et sur sa trésorerie. Au début des années cinquante, la Compagnie prend conscience que la possibilité d’un renouvellement de la concession en 1968 est bel et bien enterrée, du moins en l’absence de pression internationale. Elle s’engage par conséquent dans une double stratégie : garder le canal par une offensive diplomatique tout en se préparant à l’éventualité de sa perte. La Compagnie défend son monopole sur le canal par son argument classique de société internationale garante de la navigation et, en parallèle, elle amorce sa mutation financière par une stratégie de placements à l’étranger.
Ainsi, souveraine jusque dans les années vingt, l’entreprise subit l’affirmation du nationalisme égyptien dans les années trente, puis la tourmente des dernières années de l’Égypte monarchique et libérale, pour connaître un renforcement des difficultés sous la période militaire. Cette périodisation ne correspond que peu à sa chronologie économique ; ses revenus dépendent en effet moins de ses rapports avec l’autorité concédante que des fluctuations de l’économie mondiale. Néanmoins, à la fin de la période d’exploitation, le renforcement de l’autorité concédante se fait sentir sur l’évolution de sa rentabilité. Mais ces dernières années correspondent aussi à un grand dynamisme financier avec une amorce d’internationalisation sur les places européennes et américaines.
Dans une seconde partie, la Compagnie est analysée sous l’angle de l’organisation du travail et des hommes de l’exploitation. La monographie sociale de l’entreprise permet de présenter le personnel comme un vecteur de changement de l’entreprise, jouant sur ses évolutions internes et externes, sous la pression de la question nationale. Le chapitre 4 s’attache à l’étude de l’organisation du travail de la Compagnie afin de souligner les spécificités de la main-d’œuvre. Le travail y présente un caractère hétérogène par la multiplicité des chantiers et des personnels. Cependant, on peut y dégager deux organisations dominantes : une première, assez sommaire, sur les chantiers de voirie et de terrassement et une autre, moderne et rationalisée, au sein des ateliers. Cela entraîne une distinction nette entre d’une part une main-d’œuvre sous-qualifiée, majoritairement égyptienne et employée dans le cadre du tâcheronnat et, d’autre part, une population ouvrière qualifiée pour l’essentiel européenne et bénéficiant d’avantages sociaux en tant qu’ouvriers inscrits. Cette distinction est renforcée par la politique de recrutement : la Compagnie privilégie le recrutement à partir de l’immigration d’ouvriers méditerranéens. Cette immigration au caractère permanent dès la fin du dix-neuvième siècle a permis d’assurer la transmission du métier au sein du cadre familial. La formation d’ouvriers spécialisés n’apparaît comme une préoccupation sociale que tardivement, dans les années vingt.
Dans le chapitre 5, il s’agit de voir comment la Compagnie répond aux spécificités de sa main-d’œuvre par une politique sociale paternaliste. Celle-ci est chargée de fidéliser le personnel et de créer un consensus au sein de l’entreprise ; or, ce consensus est progressivement fragilisé par les enjeux de la construction nationale. La politique sociale de Suez est née d’un souci de conserver une main-d’œuvre étrangère, après la désaffection des Égyptiens recrutés dans le cadre de la corvée. De la fin du dix-neuvième siècle au premier conflit mondial, l’entreprise procède à la mise en place d’une législation interne très en avance sur le reste du pays, en accordant un statut avantageux à ses ouvriers étrangers. Durant l’entre-deux-guerres, cette politique sociale connaît à la fois son apogée et ses limites. Le paternalisme triomphant des années vingt repose sur la distinction entre les ouvriers inscrits et non-inscrits. Grâce à cela, la Compagnie assure à la fois la paix sociale et une gestion efficace des coûts de personnel. Cependant, la crise des années trente montre les limites de l’encadrement ouvrier au moment où les préoccupations financières de l’entreprise l’emportent au sein de la direction. Les années trente constituent une période de rupture entre un paternalisme hérité du dix-neuvième siècle et des méthodes de gestion du personnel plus modernes. La Seconde Guerre mondiale représente une nouvelle étape puisque désormais la population égyptienne dépasse la population émigrée au sein du personnel : le consensus entre patrons et ouvriers s’en trouve profondément affecté. De plus, l’intervention de l’État constitue un frein à la politique sociale de l’entreprise. Le discours paternaliste traditionnel s’oriente désormais vers l’action psychologique et la diffusion d’un journal d’entreprise. En dépit de ces mesures, les autorités accusent le modèle social de l’entreprise de se réaliser au détriment des Égyptiens. Elles considèrent désormais avoir un rôle à jouer dans ce qui relevait jusqu’alors des affaires internes de l’entreprise, en particulier le niveau des salaires, la cadence de l’égyptianisation et la formation du personnel.
Le chapitre 6 s’intéresse à l’étude des conflits ouvriers ; ceux-ci replacent l’entreprise dans le cadre de ses relations avec les syndicats et les associations de la région et permettent de mesurer les conséquences de la montée du nationalisme égyptien sur l’entreprise. L’histoire du mouvement ouvrier de Suez est celle d’une rencontre entre les méthodes d’action des ouvriers européens et le nationalisme du personnel égyptien. La configuration du mouvement évolue selon la composition du personnel ouvrier et du contexte politique. Au dix-neuvième siècle, les Européens, alors majoritaires, apportent une tonalité anarcho-syndicaliste au mouvement. Durant l’entre-deux-guerres, un rééquilibrage s’effectue au sein du personnel entre les Européens et les Égyptiens tandis que le nationalisme égyptien devient le sentiment le mieux partagé du pays : le syndicat de la Compagnie associe alors la lutte ouvrière aux inégalités politiques. De leur côté, les ouvriers égyptiens, pour beaucoup non-inscrits dans le cadre, se mobilisent d’eux-mêmes pour revendiquer des droits similaires aux Européens inscrits. Après la Seconde Guerre mondiale, le personnel égyptien constitue l’écrasante majorité du personnel de Suez : l’accent est naturellement mis sur les problèmes spécifiques à cette catégorie. En outre, la Compagnie devient une des cibles privilégiées de la propagande nationaliste. Le personnel égyptien y est sensible et représente désormais un contre-pouvoir au sein de l’entreprise. Dans les dernières années de l’exploitation, les ouvriers ne luttent plus contre l’entreprise mais accompagnent l’action de l’État pour en disputer la direction aux étrangers.
Dans la troisième partie, l’étude s’attache à l’entreprise comme un acteur de développement de la région, en soulignant les ambiguïtés entre concession et colonisation. Suez représente une fusion des idéaux saint-simoniens et francs- maçons avec la pensée libérale, associée à l’expansion de l’Occident chrétien. La Compagnie entend lier son activité d’exploitation du canal à une mission de colonisation : elle entreprend la modélisation de son environnement sur le territoire de sa concession, en érigeant villes, hôpitaux, mais aussi écoles et églises. Le chapitre 7 met l’accent sur la concession de Suez entendue comme un prolongement de l’Empire français, une ambition toutefois contestée par d’autres puissances. Les premiers à s’y opposer sont les Britanniques : leur antagonisme se manifeste surtout dans la seconde moitié du dix-neuvième siècle. Avec l’entrée de leurs représentants au sein du conseil d’administration en 1883, l’hostilité franco-britannique s’apaise pour se transformer en une rivalité plus sournoise, mais sans incidence sur le fonctionnement de l’entreprise. Le fascisme, quant à lui, atteint l’entreprise en son cœur en divisant fortement son personnel ; le conflit se joue jusque dans les couloirs du Saint-Siège, avec pour cadre plus général la question de l’influence française et italienne en Afrique orientale. Par ailleurs, la Compagnie s’érige en véritable autorité politique. Elle n’est ni l’instrument de la France, ni celui des Anglais ; mais pragmatique, elle s’appuie sur l’occupation britannique contre le danger égyptien. Après l’évacuation britannique, la Compagnie souligne plus fortement son image d’entreprise française en espérant un soutien des autorités hexagonales. Cela l’entraîne dans une situation paradoxale : elle refuse des liens trop marqués avec la France au nom de son statut international, clé de son indépendance et de sa liberté d’action, tout en affirmant son identité française.
Le chapitre 8 se concentre sur l’organisation de la concession comme un domaine privé de l’entreprise. La Compagnie contribue à développer la région de l’isthme de Suez, bien qu’une tension demeure entre la logique d’extraterritorialité, découlant du statut international du canal, et celle de territoire égyptien. Sur l’ensemble de la période d’exploitation, la Compagnie impulse un élan plus qu’elle ne contrôle le développement de la région : celle-ci se construit de concert avec les populations et les autres activités commerciales et industrielles de l’isthme. Néanmoins, la Compagnie demeure un élément moteur de l’organisation de la région jusqu’à la nationalisation. Elle appose son sceau dans le paysan urbain et poursuit un idéal de société bien organisée.
Le chapitre 9 s’attache à l’entreprise sous sa dimension de colonie française. L’entreprise prolonge la mission de civilisatrice de la France outre-mer à travers sa politique sociale, en favorisant l’installation des missions catholiques et en développant la langue française dans la région. En outre, s’installe une colonie de cadres français qui présente les aspects de la plupart des sociétés coloniales : un style de vie petit bourgeois, des inégalités sociales, la vie entre soi et le culte de la patrie. L’action de la Compagnie encadre cette petite société par une généreuse politique de subventions et contribue à reproduire dans la vie sociale l’organisation de l’entreprise. Mais cette communauté française paraît à bien des égards anachronique après la Seconde Guerre mondiale, tant par rapport à la situation de l’Égypte qu’à celle de l’Europe.
L’étude de la Compagnie souligne ainsi une grande réussite financière qui bénéficie en premier lieu aux actionnaires européens alors que l’État égyptien, malgré les accords passés, demeure le grand perdant. Négligeant sa fonction de concessionnaire, Suez met un point d’honneur à affirmer sa vocation d’entreprise commerciale privée et indépendante. Par conséquent, d’un point de vue politique et financier, l’apport de cette entreprise à l’Égypte s’avère plutôt médiocre ; cette histoire est faite de pressions et de contraintes plutôt que de volonté de collaboration. De plus, l’entreprise fait preuve d’une difficulté d’adaptation aux nouveaux schémas politiques. Après la Seconde Guerre mondiale, la décolonisation est mal appréhendée. Suez vit toujours sur les principes du dix-neuvième siècle : statut d’exception et conférence de Constantinople. Cette adaptation ratée peut s’expliquer par la culture de ses dirigeants issus des milieux coloniaux et par une structure assez rigide, construite sur le modèle des administrations françaises et toujours dirigée depuis Paris. Mais se pose aussi une question de volonté et de choix quant à la stratégie de l’entreprise : Suez n’a jamais voulu se limiter à une entreprise égyptienne comme le prévoient ses statuts ; elle se définit comme une entreprise commerciale internationale. Cette attitude se traduit jusque dans le paysage : la Compagnie prend très vite l’allure d’une société coloniale, sorte de citadelle fermée sur l’extérieur. Toutefois, cette situation mérite d’être nuancée en raison de l’ampleur de son action sociale et de l’aménagement de la région. Aussi peut-on affirmer que la concession de Suez a représenté un moyen de développement de la région et de diffusion technique, mais ceci n’a pu se faire que grâce à la pression et au contrôle exercés par l’autorité concédante à partir des années trente.
Vingtcinquante@cines.fr , Liste de diffusion en Histoire Politique
SOUTENANCE DE THESE
Mme Caroline PIQUET soutiendra sa thèse de Doctorat (Université de Paris IV) sur le sujet suivant:
La Compagnie universelle du canal maritime de Suez en Egypte, 1888-1956. Une concession française dans la tourmente d’une nation en marche
Lundi 11 décembre 2006
9 heures
En Sorbonne, Centre Administratif, Salle des Actes
1, rue Victor Cousin 75005 Paris
En présence du Jury :
Mme ALLEAUME (CNRS)
M. BARJOT (PARIS 4)
M. FREMEAUX (PARIS 4)
M. MARSEILLE (PARIS 1)
M. SAUL (QUEBEC)
Résumés :
Cette étude présente l’histoire de l’une des plus importantes entreprises de l’Égypte contemporaine, la Compagnie Universelle du Canal Maritime de Suez, de 1888 à 1956. Cette période correspond à l’émergence de l’État-nation égyptien et à la construction d’une économie nationale. Durant près d’un siècle, l’activité de la Compagnie de Suez se déroule en Égypte et sa concession constitue un véritable domaine privé. Cette présence marque durablement la région de l’isthme de Suez, en particulier dans le domaine du transfert de compétences et de technologies, du bassin d’emploi et des réalisations urbaines. Sous cet angle, l’entreprise peut être envisagée comme un acteur de développement économique de la région. Cependant, l’entreprise adopte un fonctionnement de type colonial et marginalise les intérêts de l’autorité concédante. Le gouvernement égyptien et les groupes nationalistes et syndicaux réagissent en réclamant une gestion nationale de la voie maritime. L’étude de Suez renvoie à l’action de l’État égyptien sur le capital étranger et plus largement aux contradictions de la concession européenne en Égypte.
The study examines the history of one of the biggest firm of Modern Egypt, the Suez Canal Company from 1888 to 1956. This period corresponds in Egypt to the emergence of the Nation-State and the build up of national economy. For over than a century, all the activity of the Suez Company set up on Egypt and its concession was a real preserve. Then, the economic and social impact of this Company on the region was enormous, especially on labour market, technology transfer and urban realisations ; it can be considered as an actor of development of the Suez Isthmus. However, at the same time, the firm adopted a colonial attitude and denied the country any benefit from these infrastructures : the canal had to serve financial and strategic interests, not to serve local economy. In this context, Egyptian government, nationalist and unionist groups demanded return of the canal to national management. Suez reflects the role of the Egyptian State on foreign business and, in the widest sense, the contradictions of the European concession system in Egypt.
Position de thèse :
Ce travail propose d’étudier la Compagnie Universelle du Canal Maritime de Suez, de 1888 à 1956, selon une approche nouvelle privilégiant l’étude de cette concession française dans son environnement égyptien, alors que l’historiographie a plutôt mis l’accent sur les aspects diplomatiques et stratégiques liés au canal de Suez. Au cœur de cette recherche, se pose la question de la concession outre-mer, qui représente à la fois un instrument d’expansion européenne et une opportunité de développement. L’interrogation porte en particulier sur la tension entre la logique commerciale de l’entreprise et les notions de service public et d’intérêt général. Le malentendu entre Suez et l’Égypte concerne tout particulièrement la fonction de la concession : Suez défend une mission internationale quand l’autorité concédante l’envisage sous l’angle de l’intérêt national. Ce dernier point s’avère essentiel dans une période de construction nationale : le canal doit participer au développement du pays et à l’émergence d’une économie égyptienne. Pour replacer la Compagnie dans cette dynamique, l’étude fait appel à une méthodologie spécifique relevant à la fois de l’histoire des entreprises, de l’histoire sociale et de l’histoire coloniale. Le plan retenu privilégie l’analyse de cette concession sous trois aspects : un enjeu politique, un lieu de travail et un territoire.
La première partie étudie la Compagnie dans son rapport à l’environnement politique du pays. Le premier chapitre analyse la Compagnie de 1888 à 1918, dans le contexte d’une Égypte soumise à l’occupation britannique. L’entreprise profite de la stabilité de l’Égypte coloniale pour se forger une tradition et acquérir un statut pour le moins particulier : entreprise concessionnaire égyptienne, elle est constituée, depuis 1876, pour l’essentiel de capitaux français et britanniques, avec un siège social installé à Paris. En 1888, la conférence de Constantinople en déclarant le canal de Suez international permet à l’entreprise de se revendiquer d’une mission mondiale, reléguant ainsi sa nationalité égyptienne au second plan. Par ailleurs, l’autorité concédante se fait très discrète et n’inquiète que peu les dirigeants de Suez. Toutefois, la légitimité de l’entreprise auprès de la population demeure bien fragile : une crise politique en 1909 portant sur la prolongation de la concession le souligne et révèle la triste réputation de parasite associée à l’entreprise.
Le second chapitre s’étend de 1918 à 1945, période marquée par la volonté d’indépendance du pays. Prise dans la tourmente d’un nationalisme économique, Suez se fait bousculer par la construction nationale égyptienne. En outre, la Compagnie doit affronter la nouvelle donne politique issue de l’accord anglo-égyptien de 1936 et de la liquidation du système des capitulations. L’autorité concédante est désormais en mesure d’exiger des gestes significatifs de la Compagnie. Cette dernière amorce dès lors une évolution notable de son statut financier et juridique : elle accepte le principe de la redistribution d’une partie de ses revenus tirés du canal et l’entrée d’Égyptiens dans son conseil d’administration. Elle reconnaît en outre sa fonction d’entreprise concessionnaire égyptienne, en admettant la nécessité de recruter et de former des employés nationaux. Toutefois, cette évolution vers une plus grande intégration de la Compagnie dans la société égyptienne se voit bloquée par la Seconde Guerre mondiale. Le canal se trouve de nouveau placé au devant de la scène internationale. Alors que Le Caire espère profiter de la crise pour étendre son contrôle sur l’entreprise, les Britanniques dénient au gouvernement égyptien toutes ses prétentions. Un repli s’effectue alors sur l’entreprise européenne disputée en coulisse entre Britanniques et Français. Cette tension sur la direction de l’entreprise explique, après la guerre, une ferme reprise en main de l’organisation par les Français. En outre, la nouvelle équipe dirigeante brise définitivement la dynamique de collaboration avec l’Égypte effectuée durant les années trente, en réorientant Suez vers une mission internationale et un statut d’exception.
Le troisième chapitre traite des dix dernières années de l’entreprise dans le pays, de 1945 à 1956, lorsque l’Égypte libérale connaît ses ultimes moments, balayée ensuite par l’Égypte militaire. Le pays, depuis les années trente, affirme sa volonté de préparer la transition vers une régie directe. Dans les années cinquante, l’Égypte est en outre placée devant la nécessité de trouver des moyens de financement pour ses projets de développement. Le Caire cherche donc à placer Suez, à l’image des autres sociétés étrangères, dans un processus d’égyptianisation. Cela se traduit pour l’entreprise par l’intensification de la pression de l’État sur sa gestion et sur sa trésorerie. Au début des années cinquante, la Compagnie prend conscience que la possibilité d’un renouvellement de la concession en 1968 est bel et bien enterrée, du moins en l’absence de pression internationale. Elle s’engage par conséquent dans une double stratégie : garder le canal par une offensive diplomatique tout en se préparant à l’éventualité de sa perte. La Compagnie défend son monopole sur le canal par son argument classique de société internationale garante de la navigation et, en parallèle, elle amorce sa mutation financière par une stratégie de placements à l’étranger.
Ainsi, souveraine jusque dans les années vingt, l’entreprise subit l’affirmation du nationalisme égyptien dans les années trente, puis la tourmente des dernières années de l’Égypte monarchique et libérale, pour connaître un renforcement des difficultés sous la période militaire. Cette périodisation ne correspond que peu à sa chronologie économique ; ses revenus dépendent en effet moins de ses rapports avec l’autorité concédante que des fluctuations de l’économie mondiale. Néanmoins, à la fin de la période d’exploitation, le renforcement de l’autorité concédante se fait sentir sur l’évolution de sa rentabilité. Mais ces dernières années correspondent aussi à un grand dynamisme financier avec une amorce d’internationalisation sur les places européennes et américaines.
Dans une seconde partie, la Compagnie est analysée sous l’angle de l’organisation du travail et des hommes de l’exploitation. La monographie sociale de l’entreprise permet de présenter le personnel comme un vecteur de changement de l’entreprise, jouant sur ses évolutions internes et externes, sous la pression de la question nationale. Le chapitre 4 s’attache à l’étude de l’organisation du travail de la Compagnie afin de souligner les spécificités de la main-d’œuvre. Le travail y présente un caractère hétérogène par la multiplicité des chantiers et des personnels. Cependant, on peut y dégager deux organisations dominantes : une première, assez sommaire, sur les chantiers de voirie et de terrassement et une autre, moderne et rationalisée, au sein des ateliers. Cela entraîne une distinction nette entre d’une part une main-d’œuvre sous-qualifiée, majoritairement égyptienne et employée dans le cadre du tâcheronnat et, d’autre part, une population ouvrière qualifiée pour l’essentiel européenne et bénéficiant d’avantages sociaux en tant qu’ouvriers inscrits. Cette distinction est renforcée par la politique de recrutement : la Compagnie privilégie le recrutement à partir de l’immigration d’ouvriers méditerranéens. Cette immigration au caractère permanent dès la fin du dix-neuvième siècle a permis d’assurer la transmission du métier au sein du cadre familial. La formation d’ouvriers spécialisés n’apparaît comme une préoccupation sociale que tardivement, dans les années vingt.
Dans le chapitre 5, il s’agit de voir comment la Compagnie répond aux spécificités de sa main-d’œuvre par une politique sociale paternaliste. Celle-ci est chargée de fidéliser le personnel et de créer un consensus au sein de l’entreprise ; or, ce consensus est progressivement fragilisé par les enjeux de la construction nationale. La politique sociale de Suez est née d’un souci de conserver une main-d’œuvre étrangère, après la désaffection des Égyptiens recrutés dans le cadre de la corvée. De la fin du dix-neuvième siècle au premier conflit mondial, l’entreprise procède à la mise en place d’une législation interne très en avance sur le reste du pays, en accordant un statut avantageux à ses ouvriers étrangers. Durant l’entre-deux-guerres, cette politique sociale connaît à la fois son apogée et ses limites. Le paternalisme triomphant des années vingt repose sur la distinction entre les ouvriers inscrits et non-inscrits. Grâce à cela, la Compagnie assure à la fois la paix sociale et une gestion efficace des coûts de personnel. Cependant, la crise des années trente montre les limites de l’encadrement ouvrier au moment où les préoccupations financières de l’entreprise l’emportent au sein de la direction. Les années trente constituent une période de rupture entre un paternalisme hérité du dix-neuvième siècle et des méthodes de gestion du personnel plus modernes. La Seconde Guerre mondiale représente une nouvelle étape puisque désormais la population égyptienne dépasse la population émigrée au sein du personnel : le consensus entre patrons et ouvriers s’en trouve profondément affecté. De plus, l’intervention de l’État constitue un frein à la politique sociale de l’entreprise. Le discours paternaliste traditionnel s’oriente désormais vers l’action psychologique et la diffusion d’un journal d’entreprise. En dépit de ces mesures, les autorités accusent le modèle social de l’entreprise de se réaliser au détriment des Égyptiens. Elles considèrent désormais avoir un rôle à jouer dans ce qui relevait jusqu’alors des affaires internes de l’entreprise, en particulier le niveau des salaires, la cadence de l’égyptianisation et la formation du personnel.
Le chapitre 6 s’intéresse à l’étude des conflits ouvriers ; ceux-ci replacent l’entreprise dans le cadre de ses relations avec les syndicats et les associations de la région et permettent de mesurer les conséquences de la montée du nationalisme égyptien sur l’entreprise. L’histoire du mouvement ouvrier de Suez est celle d’une rencontre entre les méthodes d’action des ouvriers européens et le nationalisme du personnel égyptien. La configuration du mouvement évolue selon la composition du personnel ouvrier et du contexte politique. Au dix-neuvième siècle, les Européens, alors majoritaires, apportent une tonalité anarcho-syndicaliste au mouvement. Durant l’entre-deux-guerres, un rééquilibrage s’effectue au sein du personnel entre les Européens et les Égyptiens tandis que le nationalisme égyptien devient le sentiment le mieux partagé du pays : le syndicat de la Compagnie associe alors la lutte ouvrière aux inégalités politiques. De leur côté, les ouvriers égyptiens, pour beaucoup non-inscrits dans le cadre, se mobilisent d’eux-mêmes pour revendiquer des droits similaires aux Européens inscrits. Après la Seconde Guerre mondiale, le personnel égyptien constitue l’écrasante majorité du personnel de Suez : l’accent est naturellement mis sur les problèmes spécifiques à cette catégorie. En outre, la Compagnie devient une des cibles privilégiées de la propagande nationaliste. Le personnel égyptien y est sensible et représente désormais un contre-pouvoir au sein de l’entreprise. Dans les dernières années de l’exploitation, les ouvriers ne luttent plus contre l’entreprise mais accompagnent l’action de l’État pour en disputer la direction aux étrangers.
Dans la troisième partie, l’étude s’attache à l’entreprise comme un acteur de développement de la région, en soulignant les ambiguïtés entre concession et colonisation. Suez représente une fusion des idéaux saint-simoniens et francs- maçons avec la pensée libérale, associée à l’expansion de l’Occident chrétien. La Compagnie entend lier son activité d’exploitation du canal à une mission de colonisation : elle entreprend la modélisation de son environnement sur le territoire de sa concession, en érigeant villes, hôpitaux, mais aussi écoles et églises. Le chapitre 7 met l’accent sur la concession de Suez entendue comme un prolongement de l’Empire français, une ambition toutefois contestée par d’autres puissances. Les premiers à s’y opposer sont les Britanniques : leur antagonisme se manifeste surtout dans la seconde moitié du dix-neuvième siècle. Avec l’entrée de leurs représentants au sein du conseil d’administration en 1883, l’hostilité franco-britannique s’apaise pour se transformer en une rivalité plus sournoise, mais sans incidence sur le fonctionnement de l’entreprise. Le fascisme, quant à lui, atteint l’entreprise en son cœur en divisant fortement son personnel ; le conflit se joue jusque dans les couloirs du Saint-Siège, avec pour cadre plus général la question de l’influence française et italienne en Afrique orientale. Par ailleurs, la Compagnie s’érige en véritable autorité politique. Elle n’est ni l’instrument de la France, ni celui des Anglais ; mais pragmatique, elle s’appuie sur l’occupation britannique contre le danger égyptien. Après l’évacuation britannique, la Compagnie souligne plus fortement son image d’entreprise française en espérant un soutien des autorités hexagonales. Cela l’entraîne dans une situation paradoxale : elle refuse des liens trop marqués avec la France au nom de son statut international, clé de son indépendance et de sa liberté d’action, tout en affirmant son identité française.
Le chapitre 8 se concentre sur l’organisation de la concession comme un domaine privé de l’entreprise. La Compagnie contribue à développer la région de l’isthme de Suez, bien qu’une tension demeure entre la logique d’extraterritorialité, découlant du statut international du canal, et celle de territoire égyptien. Sur l’ensemble de la période d’exploitation, la Compagnie impulse un élan plus qu’elle ne contrôle le développement de la région : celle-ci se construit de concert avec les populations et les autres activités commerciales et industrielles de l’isthme. Néanmoins, la Compagnie demeure un élément moteur de l’organisation de la région jusqu’à la nationalisation. Elle appose son sceau dans le paysan urbain et poursuit un idéal de société bien organisée.
Le chapitre 9 s’attache à l’entreprise sous sa dimension de colonie française. L’entreprise prolonge la mission de civilisatrice de la France outre-mer à travers sa politique sociale, en favorisant l’installation des missions catholiques et en développant la langue française dans la région. En outre, s’installe une colonie de cadres français qui présente les aspects de la plupart des sociétés coloniales : un style de vie petit bourgeois, des inégalités sociales, la vie entre soi et le culte de la patrie. L’action de la Compagnie encadre cette petite société par une généreuse politique de subventions et contribue à reproduire dans la vie sociale l’organisation de l’entreprise. Mais cette communauté française paraît à bien des égards anachronique après la Seconde Guerre mondiale, tant par rapport à la situation de l’Égypte qu’à celle de l’Europe.
L’étude de la Compagnie souligne ainsi une grande réussite financière qui bénéficie en premier lieu aux actionnaires européens alors que l’État égyptien, malgré les accords passés, demeure le grand perdant. Négligeant sa fonction de concessionnaire, Suez met un point d’honneur à affirmer sa vocation d’entreprise commerciale privée et indépendante. Par conséquent, d’un point de vue politique et financier, l’apport de cette entreprise à l’Égypte s’avère plutôt médiocre ; cette histoire est faite de pressions et de contraintes plutôt que de volonté de collaboration. De plus, l’entreprise fait preuve d’une difficulté d’adaptation aux nouveaux schémas politiques. Après la Seconde Guerre mondiale, la décolonisation est mal appréhendée. Suez vit toujours sur les principes du dix-neuvième siècle : statut d’exception et conférence de Constantinople. Cette adaptation ratée peut s’expliquer par la culture de ses dirigeants issus des milieux coloniaux et par une structure assez rigide, construite sur le modèle des administrations françaises et toujours dirigée depuis Paris. Mais se pose aussi une question de volonté et de choix quant à la stratégie de l’entreprise : Suez n’a jamais voulu se limiter à une entreprise égyptienne comme le prévoient ses statuts ; elle se définit comme une entreprise commerciale internationale. Cette attitude se traduit jusque dans le paysage : la Compagnie prend très vite l’allure d’une société coloniale, sorte de citadelle fermée sur l’extérieur. Toutefois, cette situation mérite d’être nuancée en raison de l’ampleur de son action sociale et de l’aménagement de la région. Aussi peut-on affirmer que la concession de Suez a représenté un moyen de développement de la région et de diffusion technique, mais ceci n’a pu se faire que grâce à la pression et au contrôle exercés par l’autorité concédante à partir des années trente.
sábado, dezembro 02, 2006
162) Dissuasao Nuclear: a visao britanica
Nuclear deterrence may still have role
Lawrence Freedman
Financial Times, November 30 2006
A striking feature of the debate on the future of Britain’s nuclear deterrent – in which the government is to announce proposals on Monday – is continuity with past debates. The story began during the second world war when the fear was that Germany would make the first vital breakthroughs, moved through the early stages of the cold war and then on to the complex debates about sustaining deterrence as the east-west confrontation settled down. When the UK government took decisions on its Trident nuclear missile system in the early 1980s, after the Soviet invasion of Afghanistan, relations with Moscow were tense. By the time Trident was fully operational in 1994, the Soviet Union and its European empire had collapsed. Now the world seems less benign.
Throughout, three core arguments have been used to justify Britain’s possession of these terrible weapons. First, enemies, actual and potential, are committed to developing nuclear capabilities. Only the threat of retaliation ensures they will not be turned against Britain and its allies. Second, while the main provider of nuclear deterrence is bound to be the US, an independent capability underpins the “special relationship” and confirms Britain’s status as one of the world’s most influential powers. Third, however difficult it is to imagine a plausible scenario where it would be necessary to threaten, let alone use, nuclear weapons, the future is horribly uncertain. This is therefore an essential insurance policy.
For now, the government presents the third of these as the clincher. The public mood may be too sceptical to proclaim the benefits of the special relationship: nor is it evident that only nuclear weapons these days provide a “seat at the top table”. A degree of scepticism may also be expected about the insurance argument. The price of the insurance policy is high, but not unaffordable. If a new policy was being taken out it would seem far too high, but years of investment in technology and infrastructure provide the equivalent of a “no claims bonus”.
Indeed, given that successive governments have been paying out regularly over the past six decades, the real departure would be to decide suddenly to cash it in. What is it about our current strategic environment that suggests that this is the time to abandon the deterrent? The obvious answer is “very little”. Russia is in a bad temper, North Korea has declared its nuclear capability and little seems to have been done to stop Iran acquiring one. There is evidence that al-Qaeda is interested in weapons to cause mass slaughter and mayhem.
Yet the government must be careful about depending too much on these current sources of insecurity. With al-Qaeda, there is a problem with how a full-blown British nuclear capability is going to deter a suicidal sub-state group. The official line is that good relations with Moscow remain both likely and important, while it is far too soon to give up on the possibility of persuading North Korea and Iraq to abandon their nuclear ambitions.
Furthermore, anticipating proliferation also raises the “drunkards preaching abstinence” argument that it is hypocritical to demand that others refrain from developing a capability that we insist on retaining.
As India and Pakistan may be demonstrating, the introduction of nuclear weapons into a conflict can introduce a welcome element of caution. Some conflicts, of course, may become so unstable that mutual deterrence will collapse and catastrophe will ensue, which is why proliferation is not to be encouraged. Nonetheless, they make clear the horrific consequences of full-scale war or even a big miscalculation and so encourage states to resolve disputes without resort to armed force.
Established nuclear powers do not need to dream up circumstances in which they might feel a need to threaten, let alone use, nuclear weapons. The aim must be to encourage these weapons to remain marginal to the everyday conduct of international affairs. If the security debate is no longer preoccupied by big wars, we should be grateful but not take it for granted. This focus on conditions that continue to rule out major war, however, is more appropriate than one on conditions in which one may threaten to break out. This leaves open the questions of the importance of a specifically British nuclear capability and “value for money” set against other national needs. It argues, though, for care with the claim that we no longer need to think about nuclear deterrence because we no longer worry about major war.
Sir Lawrence Freedman is professor of war studies and vice principal (research) at King’s College London
Lawrence Freedman
Financial Times, November 30 2006
A striking feature of the debate on the future of Britain’s nuclear deterrent – in which the government is to announce proposals on Monday – is continuity with past debates. The story began during the second world war when the fear was that Germany would make the first vital breakthroughs, moved through the early stages of the cold war and then on to the complex debates about sustaining deterrence as the east-west confrontation settled down. When the UK government took decisions on its Trident nuclear missile system in the early 1980s, after the Soviet invasion of Afghanistan, relations with Moscow were tense. By the time Trident was fully operational in 1994, the Soviet Union and its European empire had collapsed. Now the world seems less benign.
Throughout, three core arguments have been used to justify Britain’s possession of these terrible weapons. First, enemies, actual and potential, are committed to developing nuclear capabilities. Only the threat of retaliation ensures they will not be turned against Britain and its allies. Second, while the main provider of nuclear deterrence is bound to be the US, an independent capability underpins the “special relationship” and confirms Britain’s status as one of the world’s most influential powers. Third, however difficult it is to imagine a plausible scenario where it would be necessary to threaten, let alone use, nuclear weapons, the future is horribly uncertain. This is therefore an essential insurance policy.
For now, the government presents the third of these as the clincher. The public mood may be too sceptical to proclaim the benefits of the special relationship: nor is it evident that only nuclear weapons these days provide a “seat at the top table”. A degree of scepticism may also be expected about the insurance argument. The price of the insurance policy is high, but not unaffordable. If a new policy was being taken out it would seem far too high, but years of investment in technology and infrastructure provide the equivalent of a “no claims bonus”.
Indeed, given that successive governments have been paying out regularly over the past six decades, the real departure would be to decide suddenly to cash it in. What is it about our current strategic environment that suggests that this is the time to abandon the deterrent? The obvious answer is “very little”. Russia is in a bad temper, North Korea has declared its nuclear capability and little seems to have been done to stop Iran acquiring one. There is evidence that al-Qaeda is interested in weapons to cause mass slaughter and mayhem.
Yet the government must be careful about depending too much on these current sources of insecurity. With al-Qaeda, there is a problem with how a full-blown British nuclear capability is going to deter a suicidal sub-state group. The official line is that good relations with Moscow remain both likely and important, while it is far too soon to give up on the possibility of persuading North Korea and Iraq to abandon their nuclear ambitions.
Furthermore, anticipating proliferation also raises the “drunkards preaching abstinence” argument that it is hypocritical to demand that others refrain from developing a capability that we insist on retaining.
As India and Pakistan may be demonstrating, the introduction of nuclear weapons into a conflict can introduce a welcome element of caution. Some conflicts, of course, may become so unstable that mutual deterrence will collapse and catastrophe will ensue, which is why proliferation is not to be encouraged. Nonetheless, they make clear the horrific consequences of full-scale war or even a big miscalculation and so encourage states to resolve disputes without resort to armed force.
Established nuclear powers do not need to dream up circumstances in which they might feel a need to threaten, let alone use, nuclear weapons. The aim must be to encourage these weapons to remain marginal to the everyday conduct of international affairs. If the security debate is no longer preoccupied by big wars, we should be grateful but not take it for granted. This focus on conditions that continue to rule out major war, however, is more appropriate than one on conditions in which one may threaten to break out. This leaves open the questions of the importance of a specifically British nuclear capability and “value for money” set against other national needs. It argues, though, for care with the claim that we no longer need to think about nuclear deterrence because we no longer worry about major war.
Sir Lawrence Freedman is professor of war studies and vice principal (research) at King’s College London
quarta-feira, novembro 29, 2006
161) O salazarismo: uma ditadura sui-generis
Tese apresentada em Paris:
Vingtcinquante@cines.fr , Liste de diffusion en Histoire Politique
SOUTENANCE DE THESE
M. Jose de Jesus DA COSTA soutiendra sa thèse de Doctorat (Université de Paris IV Sorbonne) sur le sujet suivant :
Les discours politiques de Salazar (1928-1936) : de l’équilibre des comptes à la conversion des âmes
Vendredi 8 décembre 2006, 14 heures
A la Maison de la Recherche, Salle D116
28, rue Serpente 75006
En présence du Jury :
Mme BESSE (Paris 4)
M. Gomez (Paris 10)
M. PAGEAUX (PARIS 3)
Mme PIWNIK (PARIS 4)
Position de thèse :
Parmi les dictatures que l’Europe a connues dans la période d’entre-deux-guerres, le salazarisme figure en place ‘honorable’ sinon par sa spécificité tout au moins par sa longévité. Contemporain du bolchevisme, du fascisme et du nazisme, le salazarisme est à la fois proche de ces régimes dictatoriaux et s’en distingue par certains traits spécifiques. Ceux-ci sont souvent à l’origine de débats taxinomiques interminables et parfois stériles tant il est vrai que les contextes dans lesquels toutes ces dictatures se sont développées présentent des différences notables entre eux. Bien qu’un certain nombre de causes soient concomitantes dans l’émergence des dictatures en Europe, elles n’ont pas produit des réponses identiques partout et bien des pays européens n’ont pas succombé aux sirènes dictatoriales.
Le salazarisme, terme imprécis pour désigner la dictature qui a sévi au Portugal durant presque cinquante années du XXe siècle, comprend différentes étapes et des développements assez disparates. Après sa constitutionnalisation en 1933, le régime salazariste connaîtra bien des difficultés, à commencer par la Guerre Civile espagnole, mais aussi la Deuxième Guerre mondiale, la période de la guerre froide et, dans les années 1950-1960, les revendications d’indépendance et les guerres de libération des colonies portugaises. Malgré ces changements importants, le régime salazariste saura s’adapter aux nouvelles réalités et survivre même à son mentor principal jusqu’en 1974. Comment expliquer cette longévité ?
L’identité revendiquée par le salazarisme, qui l’éloigne tant des totalitarismes de gauche que de ceux de droite, est pour Salazar la marque d’un régime sui generis, c’est-à-dire éminemment national. Salazar, dans cette lignée, condamnera dans ses discours la déification de l’État et du Parti dans les régimes fascistes et trouvera le paganisme nazi inconciliable avec la morale chrétienne et le respect dû à la personne humaine. Formé au sein de l’Église et nourri par les principes idéologiques de la pensée européenne contre-révolutionnaire et par le catholicisme social des encycliques, Salazar se soucie, dès ses premiers articles dans la presse régionale, de la formation et de l’instruction des Portugais. Réformateur plus que révolutionnaire, il ne croit guère aux changements de gouvernement sans une profonde régénération intérieure de l’individu. Ce qui demeure de cet ensemble idéologique est la conviction qu’une vraie réforme politique du pays ne pourra avoir lieu en dehors de la morale religieuse et des enseignements de l’Église.
Les premiers discours officiels du nouveau ministre des Finances placent la période qu’il inaugure sous le signe du sacrifice d’une génération appelée à s’immoler sur l’autel d’une Patrie qui a retrouvé, après le coup d’État militaire de 1926, le fil perdu de son histoire ancienne, de ses héros légendaires, de ses saints et de sa mission divine, œcuménique et évangélisatrice. Son action politique, considérée comme ‘l’ascension douloureuse d’un calvaire’, était pour ce catholique convaincu un temps de régénération à l’issue duquel les Portugais, touchés par la grâce divine, devraient finalement réintégrer la ‘maison du Père’ dont ils s’étaient éloignés depuis le libéralisme de 1820. Cette ‘cure’ ou cet « aportuguesamento » (‘portuguisation’) des individus et des institutions se traduira par des exigences d’amour envers tout ce qui était portugais, un nationalisme quelque peu irréel lorsqu’on considère la traditionnelle dépendance économique du pays vis-à-vis de l’extérieur. Cette ‘thérapie’ est très proche du concept chrétien de conversion, c’est-à-dire le passage d’une vie de péché à une vie de grâce, l’abandon de l’état de perdition au profit d’une nouvelle vie créée et gouvernée par l’Esprit de Dieu. Le message véhiculé par les discours de Salazar ne fait que répéter inlassablement la nécessité pour les Portugais de réintégrer le nouveau royaume (la nation chrétienne et l’État nouveau) après une période d’exil (le parlementarisme), un message qui renvoie incontestablement à la parabole de l’Enfant prodigue, texte central du Nouveau Testament sur la conversion. La période sur laquelle nous travaillons, les années 1928-1936, n’est pas un choix arbitraire. Elle correspond à l’âge d’or de la biographie politique de Salazar qui coïncide avec son entrée aux Finances et qui s’achève en 1936, année où Salazar et l’Europe abordent une nouvelle époque.
Quatre grandes parties structurent notre travail :
1 - La première partie analyse l’environnement dans lequel la solution dictatoriale s’est imposée au Portugal. La participation du pays au premier conflit mondial, les crises politiques successives, l’inflation, etc., constituent la toile de fond où va se développer un discours virulent contre le régime parlementaire. Ce discours contre le régime des partis n’est pas nouveau mais, dans la conjoncture de l’époque, il prépare le terrain à l’émergence d’une réponse dictatoriale à la crise. En outre, en réduisant les problèmes économiques à la seule question de l’équilibre budgétaire, ce discours sur la crise restreint définitivement la discussion sur l’avenir du pays au seul secteur des Finances et, dans ces circonstances, l’arrivée de Salazar au ministère des Finances, en avril 1928, est considérée comme une réponse adéquate à la crise.
Le rétablissement de l’équilibre budgétaire rapidement entrepris par Salazar dans ce pays traditionnellement déficitaire est perçu comme un miracle, et la divinisation du ministre peut ainsi commencer. Entamée sous le signe du sacrifice, la régénération financière entreprise par Salazar est conçue comme une vaste ‘campagne de rachat’, c’est-à-dire une période d’expiation nécessaire à la réintégration du pays dans le fil interrompu de son histoire, après les déboires du libéralisme et de la République parlementaire.
Désormais, cette république christianisée en laquelle le pays s’est transformé peut fédérer autour d’une seule ecclesia tous les Portugais de bonne volonté. Fils de la même ‘église’ (le parti de l’Union nationale) réunis autour d’une même liturgie (l’évangile de l’État nouveau) le pays retrouve l’équilibre. Cette vaste manipulation des esprits est la première étape de la mise en œuvre de l’appareil étatique salazariste et de ses principales organisations d’encadrement des populations.
2 - La deuxième partie de notre travail explore les fondements des idées de Salazar telles qu’elles sont présentées dans ses discours officiels. Une rapide incursion dans la biographie de Salazar nous permet d’observer ses rapports avec la Ire République, sa formation universitaire et sa participation à des organisations catholiques tout en dégageant les traits principaux de son idéologie avant sa nomination aux Finances.
Dans un deuxième temps, nous présentons les idées principales de Salazar telles qu’elles apparaissent dans ses discours officiels. Cela nous permet de dégager la structure de ses allocutions, les arguments utilisés, d’analyser sa conception de la rhétorique, ainsi que le travail de la propagande autour de la ‘voix’ du chef.
3 - La troisième partie explore deux composantes du discours rhétorique : l’ethos et le pathos. En nous appuyant sur les images que Salazar donne de lui-même (son ethos) nous démontrons comment celles-ci répondent parfaitement aux attentes de l’auditoire ou plus exactement aux attentes que la propagande a su créer au sein de la population. L’ethos de l’homme du silence, de l’homme pauvre et modeste, du rural, etc., fait partie d’une construction fictive tendant à fabriquer l’image du héros positif et entraînant des adhésions inconditionnelles au chef de la révolution nationale. Néanmoins, et en dépit de la censure et de la répression, ces images positives sont souvent mises en branle par les oppositions, phénomène qu’on étudie aussi dans l’innombrable correspondance anonyme reçue par Salazar. En étudiant les images de l’autre dans les discours de Salazar, nous constatons que pour renforcer l’identité des points de vue entre l’orateur et l’auditoire celui-ci recourt à une vision manichéenne du monde afin de créer des irréductibilités et donc de simplifier la réalité. Cette démarche passionnelle conduit à des sentiments de crainte, d’espoir et de désespoir et donc à renforcer les liens (fictifs) entre l’orateur et l’auditoire.
4 - Enfin, la quatrième partie approche d’une façon globale les traditions et les luttes entre le pouvoir religieux et le pouvoir temporel et les relations ambiguës entre l’Église et le pouvoir politique dans le contexte de la rechristianisation du pays. Le discours de Salazar en se situant entre la raison et la foi, entre les désordres du monde et le dessein de Dieu, entre le politique et le religieux devient un formidable outil de conviction, et dans la perspective de la conversion, un instrument de salut.
Vingtcinquante@cines.fr , Liste de diffusion en Histoire Politique
SOUTENANCE DE THESE
M. Jose de Jesus DA COSTA soutiendra sa thèse de Doctorat (Université de Paris IV Sorbonne) sur le sujet suivant :
Les discours politiques de Salazar (1928-1936) : de l’équilibre des comptes à la conversion des âmes
Vendredi 8 décembre 2006, 14 heures
A la Maison de la Recherche, Salle D116
28, rue Serpente 75006
En présence du Jury :
Mme BESSE (Paris 4)
M. Gomez (Paris 10)
M. PAGEAUX (PARIS 3)
Mme PIWNIK (PARIS 4)
Position de thèse :
Parmi les dictatures que l’Europe a connues dans la période d’entre-deux-guerres, le salazarisme figure en place ‘honorable’ sinon par sa spécificité tout au moins par sa longévité. Contemporain du bolchevisme, du fascisme et du nazisme, le salazarisme est à la fois proche de ces régimes dictatoriaux et s’en distingue par certains traits spécifiques. Ceux-ci sont souvent à l’origine de débats taxinomiques interminables et parfois stériles tant il est vrai que les contextes dans lesquels toutes ces dictatures se sont développées présentent des différences notables entre eux. Bien qu’un certain nombre de causes soient concomitantes dans l’émergence des dictatures en Europe, elles n’ont pas produit des réponses identiques partout et bien des pays européens n’ont pas succombé aux sirènes dictatoriales.
Le salazarisme, terme imprécis pour désigner la dictature qui a sévi au Portugal durant presque cinquante années du XXe siècle, comprend différentes étapes et des développements assez disparates. Après sa constitutionnalisation en 1933, le régime salazariste connaîtra bien des difficultés, à commencer par la Guerre Civile espagnole, mais aussi la Deuxième Guerre mondiale, la période de la guerre froide et, dans les années 1950-1960, les revendications d’indépendance et les guerres de libération des colonies portugaises. Malgré ces changements importants, le régime salazariste saura s’adapter aux nouvelles réalités et survivre même à son mentor principal jusqu’en 1974. Comment expliquer cette longévité ?
L’identité revendiquée par le salazarisme, qui l’éloigne tant des totalitarismes de gauche que de ceux de droite, est pour Salazar la marque d’un régime sui generis, c’est-à-dire éminemment national. Salazar, dans cette lignée, condamnera dans ses discours la déification de l’État et du Parti dans les régimes fascistes et trouvera le paganisme nazi inconciliable avec la morale chrétienne et le respect dû à la personne humaine. Formé au sein de l’Église et nourri par les principes idéologiques de la pensée européenne contre-révolutionnaire et par le catholicisme social des encycliques, Salazar se soucie, dès ses premiers articles dans la presse régionale, de la formation et de l’instruction des Portugais. Réformateur plus que révolutionnaire, il ne croit guère aux changements de gouvernement sans une profonde régénération intérieure de l’individu. Ce qui demeure de cet ensemble idéologique est la conviction qu’une vraie réforme politique du pays ne pourra avoir lieu en dehors de la morale religieuse et des enseignements de l’Église.
Les premiers discours officiels du nouveau ministre des Finances placent la période qu’il inaugure sous le signe du sacrifice d’une génération appelée à s’immoler sur l’autel d’une Patrie qui a retrouvé, après le coup d’État militaire de 1926, le fil perdu de son histoire ancienne, de ses héros légendaires, de ses saints et de sa mission divine, œcuménique et évangélisatrice. Son action politique, considérée comme ‘l’ascension douloureuse d’un calvaire’, était pour ce catholique convaincu un temps de régénération à l’issue duquel les Portugais, touchés par la grâce divine, devraient finalement réintégrer la ‘maison du Père’ dont ils s’étaient éloignés depuis le libéralisme de 1820. Cette ‘cure’ ou cet « aportuguesamento » (‘portuguisation’) des individus et des institutions se traduira par des exigences d’amour envers tout ce qui était portugais, un nationalisme quelque peu irréel lorsqu’on considère la traditionnelle dépendance économique du pays vis-à-vis de l’extérieur. Cette ‘thérapie’ est très proche du concept chrétien de conversion, c’est-à-dire le passage d’une vie de péché à une vie de grâce, l’abandon de l’état de perdition au profit d’une nouvelle vie créée et gouvernée par l’Esprit de Dieu. Le message véhiculé par les discours de Salazar ne fait que répéter inlassablement la nécessité pour les Portugais de réintégrer le nouveau royaume (la nation chrétienne et l’État nouveau) après une période d’exil (le parlementarisme), un message qui renvoie incontestablement à la parabole de l’Enfant prodigue, texte central du Nouveau Testament sur la conversion. La période sur laquelle nous travaillons, les années 1928-1936, n’est pas un choix arbitraire. Elle correspond à l’âge d’or de la biographie politique de Salazar qui coïncide avec son entrée aux Finances et qui s’achève en 1936, année où Salazar et l’Europe abordent une nouvelle époque.
Quatre grandes parties structurent notre travail :
1 - La première partie analyse l’environnement dans lequel la solution dictatoriale s’est imposée au Portugal. La participation du pays au premier conflit mondial, les crises politiques successives, l’inflation, etc., constituent la toile de fond où va se développer un discours virulent contre le régime parlementaire. Ce discours contre le régime des partis n’est pas nouveau mais, dans la conjoncture de l’époque, il prépare le terrain à l’émergence d’une réponse dictatoriale à la crise. En outre, en réduisant les problèmes économiques à la seule question de l’équilibre budgétaire, ce discours sur la crise restreint définitivement la discussion sur l’avenir du pays au seul secteur des Finances et, dans ces circonstances, l’arrivée de Salazar au ministère des Finances, en avril 1928, est considérée comme une réponse adéquate à la crise.
Le rétablissement de l’équilibre budgétaire rapidement entrepris par Salazar dans ce pays traditionnellement déficitaire est perçu comme un miracle, et la divinisation du ministre peut ainsi commencer. Entamée sous le signe du sacrifice, la régénération financière entreprise par Salazar est conçue comme une vaste ‘campagne de rachat’, c’est-à-dire une période d’expiation nécessaire à la réintégration du pays dans le fil interrompu de son histoire, après les déboires du libéralisme et de la République parlementaire.
Désormais, cette république christianisée en laquelle le pays s’est transformé peut fédérer autour d’une seule ecclesia tous les Portugais de bonne volonté. Fils de la même ‘église’ (le parti de l’Union nationale) réunis autour d’une même liturgie (l’évangile de l’État nouveau) le pays retrouve l’équilibre. Cette vaste manipulation des esprits est la première étape de la mise en œuvre de l’appareil étatique salazariste et de ses principales organisations d’encadrement des populations.
2 - La deuxième partie de notre travail explore les fondements des idées de Salazar telles qu’elles sont présentées dans ses discours officiels. Une rapide incursion dans la biographie de Salazar nous permet d’observer ses rapports avec la Ire République, sa formation universitaire et sa participation à des organisations catholiques tout en dégageant les traits principaux de son idéologie avant sa nomination aux Finances.
Dans un deuxième temps, nous présentons les idées principales de Salazar telles qu’elles apparaissent dans ses discours officiels. Cela nous permet de dégager la structure de ses allocutions, les arguments utilisés, d’analyser sa conception de la rhétorique, ainsi que le travail de la propagande autour de la ‘voix’ du chef.
3 - La troisième partie explore deux composantes du discours rhétorique : l’ethos et le pathos. En nous appuyant sur les images que Salazar donne de lui-même (son ethos) nous démontrons comment celles-ci répondent parfaitement aux attentes de l’auditoire ou plus exactement aux attentes que la propagande a su créer au sein de la population. L’ethos de l’homme du silence, de l’homme pauvre et modeste, du rural, etc., fait partie d’une construction fictive tendant à fabriquer l’image du héros positif et entraînant des adhésions inconditionnelles au chef de la révolution nationale. Néanmoins, et en dépit de la censure et de la répression, ces images positives sont souvent mises en branle par les oppositions, phénomène qu’on étudie aussi dans l’innombrable correspondance anonyme reçue par Salazar. En étudiant les images de l’autre dans les discours de Salazar, nous constatons que pour renforcer l’identité des points de vue entre l’orateur et l’auditoire celui-ci recourt à une vision manichéenne du monde afin de créer des irréductibilités et donc de simplifier la réalité. Cette démarche passionnelle conduit à des sentiments de crainte, d’espoir et de désespoir et donc à renforcer les liens (fictifs) entre l’orateur et l’auditoire.
4 - Enfin, la quatrième partie approche d’une façon globale les traditions et les luttes entre le pouvoir religieux et le pouvoir temporel et les relations ambiguës entre l’Église et le pouvoir politique dans le contexte de la rechristianisation du pays. Le discours de Salazar en se situant entre la raison et la foi, entre les désordres du monde et le dessein de Dieu, entre le politique et le religieux devient un formidable outil de conviction, et dans la perspective de la conversion, un instrument de salut.
160) Debate sobre aquecimento global: economistas esquentam os motores...
Nordhaus vs. Stern
posted by Jerry Taylor
When the Stern Review on the Economics of Climate Change was released a few weeks back, I got a bevy of calls from reporters asking what I thought of it. Of course, it’s hard to say anything intelligent about a 700+ page report that was released only hours earlier, so all I could do was quickly peruse the executive summary, speed-glance through the most pertinent sounding chapters, and opine like the wind. While I thought I did a reasonable enough job summarizing the main issues at hand given the circumstances, the experience demonstrates a fundamental problem with journalism that is unlikely to ever go away. To whit, reporters demand an immediate reaction when some new study or paper comes out, and the news cycle doesn’t last long enough to allow for particularly informed and/or careful review of many of these said studies or papers. By the time that informed and careful response is ready, reporters have moved on to something else. The deck is stacked in favor of the authors, who seldom have to defend against anything but superficial or relatively poorly-informed criticism in the popular press.
One of the things I was most interested in at the time was what economists who specialized in the economics of climate change had to say about the Stern Review. The leading academic on this subject is William Nordhaus, an economist at Yale (another is Prof. Robert Mendelsohn at the same university. Prof. Mendelsohn’s response to the Stern Review will be published in the next issue of Cato’s Regulation magazine). When I emailed Prof. Nordhaus about the Stern Review, I got a rather short and vague reply. Nicholas Stern is a good economist, Prof. Nordhaus said, and the report looked like a serious undertaking; the right questions were asked and the answers provided looked interesting. Beyond that, little else. Reporters I talked to told me this is what he had sent them as well. Apparently, Nordhaus was not ready to jump into the discussion yet.
Reporters moved on, but Nordhaus did not. Over the next several weeks, he apparently went to work on the document and by last week he was ready to offer up some thoughts. Despite the fact that this highly credentialed economist finds that ”it is impossible for mortals outside the group that did the modeling to understand the detailed results of the Review,” his analysis is illuminating. While no reporter is likely to write about Nordhaus’ take on Stern now, it is worth your time if you wonder whether an economic disaster of epic proportions really awaits us lest we do something drastic to reduce greenhouse gas emissions. The answer; probably not.
The gist of the matter is this: Academic economists who specialize in climate change generally agree that warming - if the “consensus” of scientific opinion as reported by the Intergovernmental Panel on Climate Change is correct - will only reduce global GDP by 0-3% per year and that those costs won’t be evident until well into the future. The Stern Review, however, reports that losses may total as much as 20% of global GDP if warming is left unaddressed. Why the disagreement?
While there are a number of issues in play, the main thing explaining the differing calculations is the extent to which future warming is discounted into the present. Most economist use discount rates ranging from 3-5% when trying to put a price tag on future damages. Stern argues that this is ethically indefensible - losses tomorrow, or even 200 years from tomorrow, are just as worth worrying about as losses today. If you apply a 0.1% discount rate (Stern’s figure) rather than, say, a 5% discount rate (my suggestion, which matches the return on Treasury bills - or, put another way, the figure people apply themselves when considering the value of money today versus the value of money tomorrow) or a 3% discount rate (Nordhaus’s figure, although he is happy to confess that other figures are perfectly defensible), then you’re going to get a huge price tag for global warming. Apply higher discount rates, and the price tag deflates to such an extent that it’s impossible to justify spending anything near what Stern wants us to spend to reduce greenhouse gas emissions.
Is Stern right to argue that we are morally required to treat losses to future generations in exactly the same manner that we treat losses to present generations? Not necessarily:
Quite another ethical stance would be to hold that each generation should leave at least as much total societal capital (tangible, natural, human, and technological) as it inherited. This would admit a wide array of social discount rates. A third alternative would be a Rawlsian perspective that societies should maximize the economic well-being of the poorest generation. Under this policy, current consumption would increase sharply to reflect likely future improvements in productivity. Yet a fourth perspective would be a precautionary (minimax) principle in which societies maximize the minimum consumption along the riskiest path; this might involve stockpiling vaccines, grain, oil, and water in contemplation of possible plagues and famines. Without choosing among these positions, it should be clear that alternative perspectives are possible.
Note that if you are an admirer of political philosopher John Rawls - as most of the Left most definitely is - then you should probably embrace the use of a high discount rate.
Anyway, what if we use Stern’s discount rate regardless? Nordhaus thinks it leads to palpably ridiculous policy prescriptions:
Suppose that scientists discover that a wrinkle in the climatic system will cause damages equal to 0.01 percent of [global] output starting in 2200 and continuing at that rate thereafter. How large a one-time investment would be justified today to remove the wrinkle starting after two centuries? The answer is that a payment of 15 percent of [the] world’s consumption today (approximately $7 trillion) would pass the [Stern] Review’s cost-benefit test. This seems completely absurd.
Still happy with a near-zero discount rate? What if we applied that philosophy in other policy arenas where the same issue arises - like, say, foreign policy? Nordhaus echoes an argument I made myself several years ago:
While this feature of low discounting might appear benign in climate-change policy, we could imagine other areas where the implications could themselves be dangerous. Imagine the preventative war strategies that might be devised with low social discount rates. Countries might start wars today because of the possibility of nuclear proliferation a century ahead; or because of a potential adverse shift in the balance of power two centuries ahead; or because of speculative futuristic technologies three centuries ahead. It is not clear how long the globe could long survive the calculations and machinations of zero-discount rate military powers.
Nordhaus’s commentary on Stern is only 21 pages double-spaced, and there’s more intellectual goodies therein. Read it. Learn it. Live it.
posted by Jerry Taylor on 11.28.06 @ 6:03 pm Email
Filed Under: General, Environment & Climate, Government & Politics
posted by Jerry Taylor
When the Stern Review on the Economics of Climate Change was released a few weeks back, I got a bevy of calls from reporters asking what I thought of it. Of course, it’s hard to say anything intelligent about a 700+ page report that was released only hours earlier, so all I could do was quickly peruse the executive summary, speed-glance through the most pertinent sounding chapters, and opine like the wind. While I thought I did a reasonable enough job summarizing the main issues at hand given the circumstances, the experience demonstrates a fundamental problem with journalism that is unlikely to ever go away. To whit, reporters demand an immediate reaction when some new study or paper comes out, and the news cycle doesn’t last long enough to allow for particularly informed and/or careful review of many of these said studies or papers. By the time that informed and careful response is ready, reporters have moved on to something else. The deck is stacked in favor of the authors, who seldom have to defend against anything but superficial or relatively poorly-informed criticism in the popular press.
One of the things I was most interested in at the time was what economists who specialized in the economics of climate change had to say about the Stern Review. The leading academic on this subject is William Nordhaus, an economist at Yale (another is Prof. Robert Mendelsohn at the same university. Prof. Mendelsohn’s response to the Stern Review will be published in the next issue of Cato’s Regulation magazine). When I emailed Prof. Nordhaus about the Stern Review, I got a rather short and vague reply. Nicholas Stern is a good economist, Prof. Nordhaus said, and the report looked like a serious undertaking; the right questions were asked and the answers provided looked interesting. Beyond that, little else. Reporters I talked to told me this is what he had sent them as well. Apparently, Nordhaus was not ready to jump into the discussion yet.
Reporters moved on, but Nordhaus did not. Over the next several weeks, he apparently went to work on the document and by last week he was ready to offer up some thoughts. Despite the fact that this highly credentialed economist finds that ”it is impossible for mortals outside the group that did the modeling to understand the detailed results of the Review,” his analysis is illuminating. While no reporter is likely to write about Nordhaus’ take on Stern now, it is worth your time if you wonder whether an economic disaster of epic proportions really awaits us lest we do something drastic to reduce greenhouse gas emissions. The answer; probably not.
The gist of the matter is this: Academic economists who specialize in climate change generally agree that warming - if the “consensus” of scientific opinion as reported by the Intergovernmental Panel on Climate Change is correct - will only reduce global GDP by 0-3% per year and that those costs won’t be evident until well into the future. The Stern Review, however, reports that losses may total as much as 20% of global GDP if warming is left unaddressed. Why the disagreement?
While there are a number of issues in play, the main thing explaining the differing calculations is the extent to which future warming is discounted into the present. Most economist use discount rates ranging from 3-5% when trying to put a price tag on future damages. Stern argues that this is ethically indefensible - losses tomorrow, or even 200 years from tomorrow, are just as worth worrying about as losses today. If you apply a 0.1% discount rate (Stern’s figure) rather than, say, a 5% discount rate (my suggestion, which matches the return on Treasury bills - or, put another way, the figure people apply themselves when considering the value of money today versus the value of money tomorrow) or a 3% discount rate (Nordhaus’s figure, although he is happy to confess that other figures are perfectly defensible), then you’re going to get a huge price tag for global warming. Apply higher discount rates, and the price tag deflates to such an extent that it’s impossible to justify spending anything near what Stern wants us to spend to reduce greenhouse gas emissions.
Is Stern right to argue that we are morally required to treat losses to future generations in exactly the same manner that we treat losses to present generations? Not necessarily:
Quite another ethical stance would be to hold that each generation should leave at least as much total societal capital (tangible, natural, human, and technological) as it inherited. This would admit a wide array of social discount rates. A third alternative would be a Rawlsian perspective that societies should maximize the economic well-being of the poorest generation. Under this policy, current consumption would increase sharply to reflect likely future improvements in productivity. Yet a fourth perspective would be a precautionary (minimax) principle in which societies maximize the minimum consumption along the riskiest path; this might involve stockpiling vaccines, grain, oil, and water in contemplation of possible plagues and famines. Without choosing among these positions, it should be clear that alternative perspectives are possible.
Note that if you are an admirer of political philosopher John Rawls - as most of the Left most definitely is - then you should probably embrace the use of a high discount rate.
Anyway, what if we use Stern’s discount rate regardless? Nordhaus thinks it leads to palpably ridiculous policy prescriptions:
Suppose that scientists discover that a wrinkle in the climatic system will cause damages equal to 0.01 percent of [global] output starting in 2200 and continuing at that rate thereafter. How large a one-time investment would be justified today to remove the wrinkle starting after two centuries? The answer is that a payment of 15 percent of [the] world’s consumption today (approximately $7 trillion) would pass the [Stern] Review’s cost-benefit test. This seems completely absurd.
Still happy with a near-zero discount rate? What if we applied that philosophy in other policy arenas where the same issue arises - like, say, foreign policy? Nordhaus echoes an argument I made myself several years ago:
While this feature of low discounting might appear benign in climate-change policy, we could imagine other areas where the implications could themselves be dangerous. Imagine the preventative war strategies that might be devised with low social discount rates. Countries might start wars today because of the possibility of nuclear proliferation a century ahead; or because of a potential adverse shift in the balance of power two centuries ahead; or because of speculative futuristic technologies three centuries ahead. It is not clear how long the globe could long survive the calculations and machinations of zero-discount rate military powers.
Nordhaus’s commentary on Stern is only 21 pages double-spaced, and there’s more intellectual goodies therein. Read it. Learn it. Live it.
posted by Jerry Taylor on 11.28.06 @ 6:03 pm Email
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