quinta-feira, janeiro 08, 2009

397) Conflito entre judeus e árabes na Palestina: um texto de 1947

OS ÁRABES TAMBÉM VIVEM LÁ
(transcrito de Seleções do Reader’s Digest - edição brasileira de abril de 1947- condensado de artigo publicado pela publicação norte-americana Harper’s Magazine, norte-americana)
Kermit Roosevelt

Duas realidades implacáveis terão que ser enfrentadas na solução do explosivo problema da Palestina. Em primeiro lugar a causa sionista é para muitos judeus a sua principal razão de viver, pela qual estão dispostos a lutar e morrer; para muitos judeus que ainda se encontram na Europa,representa sua única esperança. Em segundo lugar, existe o fato menor de que os árabes também têm direitos na Palestina, pelos quais eles estão dispostos a lutar e a morrer.
De vez em quando, alguém regressa de uma rápida viagem a Jerusalém e relata que a hostilidade árabe para com o sionismo está limitada aos donos das terras, enquanto o povo se conserva indiferente. A criação de um estado judaico, dizem eles, poderia ter lugar sem séria oposição. Eu, porém, estive na Palestina e as conclusões que tirei são diferentes.
Por exemplo: certo dia,em 1944, acompanhado de um americano que falava árabe, estive numa pequena aldeia árabe situada às margens do Mar da Galiléia, onde fui convidado pela principal autoridade do lugar a tomar café em sua casa- pequena construção de uma peça apenas, feita de argila cozida ao sol. Após a habitual troca de amabilidades, o nosso anfitrião passou a fazer perguntas sobre a política exterior norte-americana. Era verdade, perguntou ele, que os Estados Unidos estavam auxiliando os judeus a tomar a Palestina dos Árabes? Com que direito o povo de um país pode dizer ao povo de outro país que deve entregar seu território a terceiros? Esse árabe não era um homem instruído, mas falou com força e convicção quando disse que ele e seus aldeões prefeririam lutar até o último homem a permitir a introdução de uma maioria estrangeira em sua pátria.
Essa aldeia estava situada perto de uma das ótimas fazendas judaicas da Palestina, e nós observamos que havíamos ficado impressionados com o que víramos ali. Não só eram bons fazendeiros, mas uma gente sincera e admirável. Ele admitiu com franqueza que os judeus ensinaram a seus aldeões métodos modernos de irrigação,emprestaram-lhes maquinaria agrícola e os auxiliaram de outros modos. Mas, acrescentou, havia outros judeus na Palestina, que odiavam os árabes e os maltratavam. Seria fútil tentar trazer-lhes conforto, referindo-nos à promessa dos sionistas de que aos árabes seriam garantidos direitos iguais. A questão para eles se resumia simplesmente no seguinte: se o caminho fosse aberto aos judeus, a Palestina tornar-se-ia um estado judaico e não árabe.
Na tarde do mesmo dia, encontramo-nos em Jerusalém com um homem, que havia servido de “oficial de ligação” numa fazenda coletiva judaica durante os dias tumultuosos que precederam a última guerra. Perguntamos-lhe se achava que a campanha judaica para promover relações amigáveis com seus vizinhos árabes havia sido coroada de êxito. Respondeu-nos que até certo ponto havia. Por exemplo, nenhum árabe dos arredores atacara o pessoal da fazenda onde estivera. Pareciam realmente gratos pelo auxílio e conselho que haviam recebido. Chegaram até, em certas ocasiões, a avisar aos judeus quando ataque estava sendo planejado por árabes de outra localidade.
Mas tratava-se de um assunto pessoal, que não interferia com ideal de escopo mais amplo- o de conservar a Palestina como estado árabe. Para preservar sua aguda sensibilidade, cumprindo ao mesmo tempo um dever nacional (segundo seu modo de pensar) esses mesmos árabes iam atacar outro grupo distante de judeus, a que não estavam ligados por laços pessoais. Segundo nosso informante, a opinião era de fariam novamente o mesmo.
Desde 1939, o terrorismo na Palestina tem sido obra quase que exclusiva dos extremistas judeus. Mas isto nem sempre aconteceu, nem podemos presumir que continue assim. Ninguém ousaria pensar quando os árabes pensarão ter chegado o momento de eles também pegarem em armas.
Na Palestina, o assunto obrigatório é o conflito de árabes e judeus. Os otimistas são poucos. Somente aqueles que estão longe do local, podem dizer que os árabes se submeteram à imposição de um estado judaico na Palestina. O relatório da Comissão de Inquérito Anglo-Americana diz especificamente que os líderes árabes representam fielmente seus seguidores; o tom do relatório inteiro pressagia sangue e terror.
Nessas circunstâncias é de cortar o coração saber que uma grande percentagem de judeus atormentados da Europa querem ir para a Palestina. A não ser que se chegue a um acordo com os árabes, torna-se evidente que a Palestina não oferece remédio à sua situação de amargura e incerteza. Frágeis seriam, sem dúvida, as possibilidades de paz e segurança para esses judeus, num país agitado pela guerra civil, que sua presença desencadeou.
Creio, no entanto, que mediante um sacrifício, eles poderiam alcançar o que ambicionam. Esse sacrifício seria renunciar à idéia de que a Palestina venha a tornar-se um estado judaico e concordar em que a imigração futura (após a admissão de um número específico de refugiados-100mil, digamos) seja limitada a uma cota razoável.
A trágica confusão reinante na Palestina foi tão obscurecida por inúmeras promessas contraditórias, que qualquer acordo será provavelmente considerado injusto por alguns que o aceitaram de boa fé. É de lamentar-se que essas promessas tenham sido feitas por elementos sem direito moral ou real de dar o que haviam prometido.
Torna-se difícil responder aos árabes quando dizem:
-“Vocês americanos falam em proteger os direitos das minorias.Significa isso que uma maioria terá de ser esmagada e transformada contra sua vontade numa minoria, dentro de sua própria pátria? Vocês falam em autodeterminação dos povos, de eleições livres e democráticas. Por que não deixam que a Palestina realize uma eleição livre e de modo democrático? E não é estranho que apesar de todas as expressões de horror diante da perseguição nazista aos judeus e todas as manifestações de desejo de ajudar vocês, e também os canadenses e os sul-americanos, que têm espaço de sobra, não estejam dispostos a aceitar sua cota de refugiados, em vez de exigir que um pequeno país suporte o peso inteiro?”
A Comissão de Inquérito, informa que a “Palestina por si não pode satisfazer as necessidades emigratórias das vítimas judaicas” e que “as informações que recebemos sobre outros países não davam lugar a que se esperasse uma assistência valiosa à campanha de encontrar refúgio para os judeus”.
Tenho-me referido principalmente aos direitos dos árabes, porque não têm sido muito divulgados. Mas a causa judaica é cogente. É indiscutível o direito dos judeus não somente a um asilo, mas também a lares onde possam viver com dignidade. Esse direito tem de ser atendido por ação internacional. Todos nós somos de alguma forma culpados e cabe-nos a responsabilidade de encontrar uma solução para o problema. A questão é determinar qual a parte que cabe à Palestina.
A Declaração Balfour e o Mandato da Liga das Nações prometiam coisas do outro mundo aos judeus em relação à Palestina. Apesar de não podermos julgar os árabes todos comprometidos por essas promessas, os judeus não são culpados disso.
Os sionistas não têm direitos legais sobre a Palestina, mas as suas esperanças têm razão de ser.
No momento atual (nota: 1947) porém estão fazendo pressão para obter mais do lhes fora prometido. O relatório da Comissão de Inquérito revela que “a exigência da criação de um estado judaico ultrapassa as obrigações tanto da Declaração Balfour como o Mandato da Liga das Nações,e, ainda em 1932, era expressamente rejeitada pelo presidente da Agência Judaica”.
É a exigência do estabelecimento de um estado judaico que desperta o exasperado temor e intenso temor entre os povos árabes. O abandono dessa ambição - que representa o sacrifício a meu ver necessário para o bem dos judeus tanto na Palestina como na Europa - não significa uma diminuição de suas esperanças legítimas, mas antes o retorno a um programa original.
O próximo passo - a aceitação de limitações estritas sobre a imigração futura, depois de ter sido preenchida a cota de emergência - este sim, iria representar verdadeira retirada. Na prática, porém, não creio que seria muito importante pelos seguintes motivos:
• Ao negociar um número para a cota de emergência, parece-nos essencial (e simplesmente humano) que os Estados Unidos e os Domínios Britânicos (Nota: hoje países independentes, porém da Comunidade Britânica de Nações) em particular, concordem em aceitar dentro de suas fronteiras proporção razoável de refugiados judeus. Se 100 mil forem aceitos como uma quantidade desejável para a Palestina, parece-nos razoável que os Estados Unidos e os Domínios Britânicos aceitassem, caso necessário, um número duas ou três vezes maior do que aquele. De qualquer modo, o acordo final,deveria prover asilo para todos os judeus que querem atualmente emigrar da Europa.
• Após as exigências atuais terem sido satisfeitas, não é provável que continue a haver grande procura por vistos de imigração para a Palestina. Pelo contrário, um número apreciável de judeus desejará ira a América do Sul, ou para os Estados Unidos e mesmo, passada a atual emergência, voltar a seus lares na Europa. A Comissão de Inquérito refere-se a uma petição dirigida ao governo austríaco por judeus, atualmente na Palestina que pediam permissão para regressar àquele país. Muitas petições semelhantes poderão seguir-se nos próximos anos.
• A capacidade de absorção adicional por parte da Palestina tem de ser levada em conta. O aumento natural de população entre os árabes tem sido grande e sem dúvida continuará na mesma escala. Tais projetos como a proposta de barragem e usina no Vale do Rio Jordão, poderiam permitir grande aumento da imigração judaica.
• Mas e os árabes? Concordarão eles com tais propostas? É muito possível que sim, como parte do necessária do programa que se segue.
• Imediatamente após concordarem dever-se-ia abrir caminho para que a Palestina se tornasse estado independente, membro da Federação das Nações Unidas. Teria uma maioria árabe, mas os direitos da minoria judaica deveriam ser cuidadosamente protegidos, sob fiança das Nações Unidas, com governo próprio local,onde fosse possível, e completa participação no governo nacional.
• A administração do país deveria ser entregue aos árabes e judeus o mais rapidamente possível. Completa independência deveria ser concedida logo que uma comissão das Nações Unidas achasse que a ordem pública pudesse ser mantida.

Nesses termos creio que a maioria dos árabes concordaria: em um número generosa e firmemente estabelecido para imigração de emergência. Os árabes teriam aquilo que mais desejam: independência e a segurança de manter uma maioria em seu próprio país.
Por outro lado, os judeus teriam grande parte do que lhes foi prometido na Declaração Balfour e no Mandato da Liga das Nações, e muito mais do que fora recomendado em dos subseqüentes- e competentes estudos- Livros Brancos Britânicos. A maioria dos judeus concorda, creio eu, em abandonar a idéia de um estado judaico na Palestina, e aceitar restrições na imigração, em troca de lares para seus desamparados da Europa- contanto que a opinião pública norte-americana apóie claramente tal programa e que não insista numa maior expansão de promessas anteriores.Muitos judeus, especialmente aqueles que vivem na Palestina, há muito vivem pedindo medidas nesse sentido.
Esse plano não será totalmente aceito por ambos os lados. Infelizmente, nenhum plano o seria. A inação levará ao caos nos campos de refugiados na Europa, na Palestina, e subsequentemente com toda probabilidade, através da maior parte do Oriente Médio. E somente se levarmos em consideração os direitos tanto dos árabes como dos judeus, podemos chegar a uma boa solução - e isto estará de acordo com as tradições de justiça e de democracia.


Sobre o autor:
Kermit Roosevelt, neto do Presidente Theodore Roosevelt, entrou em contato pela primeira vez com o problema da Palestina, enquanto trabalhava para o Departamento de Estado*, no Cairo, em 1943. Durante a guerra serviu como funcionário público, ora como soldado na Arábia Saudita, na Jordânia (antigamente Transjordânia ou Jordânia Hachemita) na Síria, Líbano e na Palestina. Antes disso, ensinou história na Universidade da Califórnia e no Instituto de Tecnologia da Califórnia-Caltech.

Nota do divulgador; O Estado de Israel foi proclamado a 14 de maio de 1948.
Vide: http://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3ria_de_Israel
http://www.tvcultura.com.br/aloescola/historia/cenasdoseculo/internacionais/israel-criacaodoestado.htm

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